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Bolívia: “Até que o presidente renuncie...”

por Javier Rojas

Na Bolívia, as mobilizações contra a austeridade e uma reforma agrária favorável à concentração de terras enfraqueceram o governo de Rodrigo Paz e suas políticas neoliberais.

As mobilizações atuais combinam greves por tempo indeterminado, manifestações, bloqueios de estradas e confrontos com as forças de repressão. Elas são uma extensão do movimento de dezembro de 2025 contra as políticas neoliberais do governo direitista de Paz e contra um plano de austeridade que faz as classes populares pagarem pela crise. Organizado em torno da COB (Central Operária Boliviana), o movimento obrigou o governo a recuar naquela ocasião, com um papel central desempenhado pelos ativistas de base e pelo movimento camponês e indígena.

Camponeses e povos indígenas contra a reforma agrária

O ano de 2026 abriu um novo capítulo da luta de classes contra o governo Paz e suas políticas de austeridade. Em abril, uma legislação facilitou a colocação de pequenas propriedades rurais no mercado. Comunidades camponesas e indígenas denunciaram uma reforma agrária regressiva, que favorecia a concentração fundiária e o retorno do latifúndio em benefício dos setores economicamente mais poderosos. Também destacaram que não foram consultadas em nenhum momento, o que implica um questionamento da organização comunitária garantida pela Constituição plurinacional de 2009.

Do norte de La Paz, Beni e Pando, marchas convergiram para La Paz exigindo a revogação da lei. Durante 28 dias, a mobilização conquistou o apoio de organizações camponesas e indígenas de outras regiões do país. Embora o governo tenha acabado anunciando que discutiria a revogação da lei após a chegada da marcha a La Paz, em 1º de maio, sua principal intenção era ganhar tempo para alcançar os mesmos objetivos por outros meios. Diante dessa manobra, o movimento camponês radicalizou a mobilização, lançando bloqueios de estradas.

Greve sindical contra a inflação e a austeridade

Ao mesmo tempo, a inflação e o endurecimento das políticas de austeridade — como o fim dos subsídios aos combustíveis e as privatizações — agravaram o conflito entre a COB e o governo. Em 1º de maio, a COB iniciou uma greve por tempo indeterminado que já dura mais de 20 dias e resultou em 70 bloqueios de estradas, principalmente nos arredores de La Paz. As reivindicações incluem a defesa dos acordos coletivos, investimentos nas comunidades indígenas, controle cambial, o fim das privatizações e a defesa da saúde e da educação públicas.

Além disso, a escassez de combustíveis e um escândalo envolvendo combustíveis adulterados levaram os transportadores de carga, especialmente os de La Paz e El Alto, a aderirem à greve, assim como professores das áreas urbanas e rurais e parte dos trabalhadores da saúde.

Repressão e crise de poder

Rodrigo Paz intensificou a repressão com o apoio dos governos de direita e extrema direita da região. O ex-presidente Tuto Quiroga defendeu uma linha repressiva mais dura, acusando os manifestantes de cometerem “crimes contra a humanidade”. Em sentido oposto, Evo Morales, refugiado no Chapare, apoiou o movimento e denunciou o envio de “equipamentos antimotim” pela Argentina.

A exigência da “renúncia imediata do presidente” tornou-se a principal palavra de ordem do movimento, embora ainda não tenha alcançado consenso em toda a sociedade. Nos últimos dias, as principais organizações do país se mobilizaram em El Alto e La Paz apesar da repressão. Desde o início do conflito, dezenas de pessoas ficaram feridas, e houve perseguição política contra diversos dirigentes, como o secretário-geral da COB, Mario Argollo, acusado de incitação ao terrorismo e atualmente forçado a atuar na clandestinidade. Cinco pessoas morreram.

Atualmente, 56 bloqueios de estradas permanecem ativos em sete departamentos e a greve por tempo indeterminado continua. Resta saber se a rebelião conseguirá se expandir nacionalmente e se unificar em torno de reivindicações comuns. O presidente Rodrigo Paz parece cada vez mais enfraquecido e, mesmo sem renunciar, seu governo dispõe de uma margem de manobra cada vez menor.