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Cuba: asfixia econômica contra a autodeterminação

por Nicolas Mena
Homem olhando paisagem de Havana de uma janela
Paisagem de Havana: população cubana resiste às mais duras condições de vida desde a revolução
numéro

Dicen que me arrastrarán por sobre rocas

Cuando la revolución se venga abajo

Que machacarán mis manos y mi boca

Que me arrancarán los ojos y el badajo

 

Será que la necedad parió conmigo

La necedad de lo que hoy resulta necio

La necedad de asumir al enemigo

La necedad de vivir sin tener precio

(Silvio Rodríguez, El necio)

Cuba não está passando por uma simples crise econômica. Ela está sujeita a uma operação de asfixia calculada. Não se trata de um “contexto desfavorável” nem de uma soma de erros internos: é uma correlação de forças imposta do exterior, apoiada pelo Estado norte-americano como política estratégica de longo prazo.

A ilha vive sob um regime de guerra econômica permanente há mais de seis décadas: sanções, perseguição financeira, punição de terceiros e – hoje – um elemento decisivo: o cerco energético. Reduzir a situação atual a um “esgotamento do modelo” equivale a ignorar o essencial: Washington não lida com divergências; administra um mecanismo de derrubada. Seu objetivo, explicitado desde os anos 60, sempre foi o mesmo: provocar escassez, gerar descontentamento e impor uma nova submissão. A fase atual é mais direta: trata-se de fabricar uma crise social e estatal que abra caminho para um desfecho contrarrevolucionário por esgotamento, apresentado como uma “normalização”.

Após o desaparecimento do bloco soviético, longe de se atenuar, o cerco se institucionalizou e se ampliou. As leis extraterritoriais consolidaram um sistema de sanções que não castiga apenas Cuba, mas qualquer empresa, banco ou Estado que tente estabelecer relações normais com ela. Não se trata de uma disputa entre dois países: é um dispositivo global destinado a disciplinar o país. Em termos simples: a crise cubana tem um centro de gravidade externo; o interno existe, mas se ordena sob essa pressão.

A etapa decisiva da fase mais recente foi a inclusão de Cuba na lista estadunidense de países que supostamente apoiam o terrorismo. Essa medida funcionou como uma ordem de expulsão do sistema financeiro internacional: bancos encerraram suas operações, transferências foram bloqueadas, créditos e seguros comerciais tornaram-se inacessíveis. Por exemplo, o BNP Paribas, que operava com o país até 2014, encerrou suas operações após receber uma multa de 8,9 bilhões de dólares; da mesma forma, em 2018, o Société Générale recebeu uma multa de 1,34 bilhão de dólares. Os exemplos são numerosos, mas o essencial é o efeito disciplinador: outros bancos se autocensuram para não correr o risco de perder o acesso ao mercado norte-americano. Assim, entre março de 2024 e fevereiro de 2025, mais de 40 bancos estrangeiros se recusaram a realizar operações com entidades bancárias cubanas; pelo menos 5 bancos se recusaram a processar pagamentos – sem aviso prévio – quando Cuba tentava comprar produtos de primeira necessidade.

Na prática, o país viu-se privado da possibilidade de financiar seu desenvolvimento, reduzido a uma gestão de curto prazo e sem margem real de planejamento. Um país ao qual se impede o acesso ao crédito não enfrenta apenas dificuldades: ele é empurrado para uma sobrevivência permanente.

A arquitetura do bloqueio

O bloqueio não é um acidente histórico. É uma estrutura cumulativa. Desde 1962, cada etapa da política estadunidense acrescentou camadas ao embargo inicial. Após a queda da União Soviética – quando Cuba perdeu seu principal parceiro –, a pressão se intensificou. A Lei Torricelli (1992) restringiu severamente o comércio indireto. A Lei Helms-Burton (1996) marcou um salto qualitativo ao fazer com que o Congresso assumisse o bloqueio e ao ampliar seu alcance extraterritorial, o que abre caminho para sanções contra empresas estrangeiras que atuam em relação a bens nacionalizados após a Revolução.

O bloqueio tornou-se uma arquitetura jurídica rígida, concebida para durar.

O breve período de distensão sob Obama não desmantelou essa estrutura. O governo Trump a reforçou com novas sanções, uma limitação do turismo, restrições às transferências de fundos e medidas que dificultam o abastecimento de combustível. A designação como país que apoia o terrorismo consolidou a fase coercitiva ao ativar mecanismos automáticos de exclusão financeira.

Não se trata de uma interpretação: já na década de 1960, a própria doutrina norte-americana definia o objetivo em termos de privação material deliberada — fome, desespero, descontentamento — como alavanca para quebrar o processo revolucionário.

Crise e desigualdades em um contexto de asfixia

Reduzir a situação cubana apenas ao bloqueio seria superficial. A guerra econômica não apaga as contradições internas: ela as intensifica.

O ponto crítico do momento é que ao estrangulamento financeiro se soma um cerco energético que acelera a crise. Não se trata apenas de “cortes de energia”: quando falta combustível, não é apenas uma lâmpada que se apaga; os transportes param, a refrigeração se rompe, a água não chega, os insumos chegam atrasados, cada deslocamento fica mais caro e a vida cotidiana passa para o modo de racionamento. A asfixia torna-se uma experiência imediata.

Isso afeta diretamente a reprodução social. A escassez obriga a racionar a produção de energia elétrica e condiciona os serviços essenciais; os hospitais e os sistemas de abastecimento de água dependem de dispositivos de emergência que, sem combustível, tornam-se vulneráveis. O problema, portanto, não é psicológico, mas material. O que está em jogo é a possibilidade de manter uma normalidade sob cerco.

A queda na receita do turismo – fonte central de divisas – limita a capacidade de importação. O poder de compra se deteriorou e as tensões monetárias afetam amplos setores.

O descontentamento é real. Ele não deve ser negado, mas não é automaticamente progressista: em situação de asfixia, o protesto social é um campo de batalha. Ele pode alimentar reivindicações de justiça social ou ser aproveitado para alimentar uma saída restauracionista, sob a promessa de “soluções rápidas” por meio da subordinação financeira.

Nesse contexto, surgem desigualdades mais visíveis do que nas décadas anteriores. A abertura à iniciativa privada (pequena ou média) e o peso crescente das transferências de fundos geraram diferenciações sociais ligadas ao acesso às moedas estrangeiras. Setores ligados ao turismo ou a atividades privadas lucrativas concentram recursos inacessíveis a outros. A dolarização parcial de certos circuitos comerciais reforça essa segmentação.

Não se trata de uma restauração capitalista aberta nem da consolidação de uma burguesia dominante, mas de tensões que influenciam a percepção cotidiana do que são justiça e igualdade. Negá-las seria irresponsável; exagerá-las a ponto de anunciar um colapso iminente remete mais ao discurso do adversário do que a uma análise séria.

Cuba, no entanto, não permanece passiva. Com recursos limitados, o país impulsiona uma reconversão energética para reduzir sua dependência externa, com a expansão da energia fotovoltaica, modificações regulatórias para desenvolver as energias renováveis e acordos internacionais para infraestruturas solares. Essa orientação não resolve os problemas causados pelo cerco, mas altera o equilíbrio de forças ao reduzir o alcance da chantagem com o combustível, abrindo margens para estabilizar a produção e a vida social.

Tudo isso ocorre em uma economia severamente restringida, com um sistema de garantias sociais que, embora enfraquecido, continua a assegurar acesso universal à saúde, à educação e a uma alta taxa de emprego – enquanto, no mundo capitalista “desenvolvido”, a austeridade e os ataques às condições de vida dos trabalhadores são a ordem do dia. 

Participação política sob pressão

As revoltas de 2021 não podem ser interpretadas nem como uma explosão abstrata nem como um simples “despertar democrático”. Expressa-se uma geração nascida no seio do processo revolucionário e que sempre viveu sob medidas de exceção prolongadas: restrições materiais persistentes, promessas de melhorias sempre adiadas e um horizonte de progresso reduzido pela pressão externa constante.

Não se trata de uma geração “contrarrevolucionária”. É uma geração que cresceu em meio à crise. E essa é uma diferença importante.

A emigração – majoritariamente econômica, embora tenha consequências políticas – esvaziou bairros, fragmentou as redes familiares e corroeu as expectativas. O desgaste é real. O desânimo também.

A análise liberal transforma esse desgaste e diagnostica mecanicamente um fracasso sistêmico. Avalia a experiência cubana à luz da democracia liberal como se fosse uma norma universal, quando esse modelo demonstrou limites severos, tanto na participação popular efetiva quanto na garantia de condições de vida dignas. O que, na Europa e no espaço pós-soviético, produziu uma alternância sem transformação estrutural – a ponto de favorecer o surgimento de regimes autoritários. Esse processo surge agora como um horizonte inevitável em Cuba.

Mas um atalho analítico não explica: ele simplifica. Cuba não é uma democracia multipartidária. Seu sistema político se estruturou sobre outras bases: partido único, organizações de massa, mecanismos de consulta e participação distintos do parlamentarismo burguês. Seu funcionamento e suas limitações podem ser discutidos, mas reduzi-lo a uma caricatura autoritária ignora o contexto em que opera.

A legitimidade do sistema cubano não se baseou em uma alternância eleitoral competitiva, mas em sua capacidade histórica de correção e na integração orgânica entre as estruturas estatais e o tecido social. Esse mecanismo deve ser debatido, mas não é inexistente nem puramente formal.

Em um contexto de cerco prolongado, o campo político se polariza em torno de um dilema material – independência ou subordinação – que reduz fortemente o espaço político das alternativas de esquerda. Quando o adversário age por meio de sanções, financiamentos seletivos e guerra midiática, a exterioridade política está sujeita a ser recuperada pelos partidários da mudança de regime. É por isso que uma crítica de esquerda que se pretenda eficaz não pode apresentar-se como uma «terceira via abstrata» separada do conflito principal: ela deve existir no seio da dinâmica política real, disputando a orientação, as prioridades, o controle popular e a correção das desigualdades a partir da base da autodeterminação.

E isso tem sua importância: o conteúdo de massa das organizações existentes – sindicatos, estruturas territoriais, espaços de juventude, o próprio Partido – poderia permitir uma vida política mais aberta em condições normalizadas. Mas a pressão externa empurra na direção oposta: ela gera reflexos defensivos e estreita as margens de experimentação. A tarefa consiste em lutar por essas margens sem ceder terreno ao inimigo. 

Cuba e a reconfiguração imperial

A ofensiva atual não pode ser dissociada do momento global. Os Estados Unidos enfrentam um cenário menos favorável do que nos anos que se seguiram à Guerra Fria. A emergência da China, o poder persistente da Rússia e a fragmentação da ordem internacional corroem sua hegemonia. Nesse contexto, a reafirmação do controle sobre a América Latina torna-se prioritária.

O endurecimento do bloqueio contra Cuba, as sanções e o bloqueio militar contra a Venezuela – chegando-se ao sequestro de seu presidente e sua esposa –, bem como a pressão constante exercida sobre os governos que tentam abrir margens de autonomia, respondem a uma lógica comum: impedir que se consolidem no continente experiências que questionem a subordinação estrutural.

Atacar Cuba cumpre uma função exemplar: a Revolução cubana foi – e continua sendo – essencialmente um processo de libertação nacional que rompeu uma relação de dependência política, militar e econômica em relação aos Estados Unidos, e que o fez por meio de uma reorganização social vinda de baixo. A reforma agrária, a universalização da saúde e da educação, a alfabetização, a construção de um Estado social e a afirmação de uma política externa independente não foram simples “políticas públicas” isoladas: elas concretizaram uma autodeterminação conquistada.

É por isso que Cuba continua sendo uma experiência inspiradora, mesmo quando atravessa crises: porque encarna uma hipótese perigosa para a ordem imperial, a possibilidade de um país periférico sair do quadro imposto, manter direitos sociais universais e preservar uma margem real de decisão diante da tutela externa. Esse poder histórico – mais do que qualquer slogan – é o que se busca punir: não apenas Cuba, mas a própria ideia de que a libertação nacional possa abrir caminho para profundas transformações sociais.

Se 60 anos de cerco não conseguiram derrotar essa experiência histórica de autodeterminação, então a submissão não é uma fatalidade. Se Cuba fosse destruída pelo esgotamento econômico, o sinal seria histórico em escala continental: uma derrota com efeitos comparáveis – em escala latino-americana – ao que representou 1991 para o campo emancipatório, por sua função coercitiva.

O apoio internacional à ilha é limitado. A China e a Rússia mantêm laços, mas de acordo com seus próprios cálculos estratégicos. A América Latina atravessa um momento muito diferente daquele do ciclo progressista do início do século. O isolamento é mais profundo do que em outros períodos. Mas não é absoluto.

Solidariedade e disputa continental

Gestos de solidariedade são mantidos por alguns Estados apesar da pressão americana – notadamente por parte do México; outros países latino-americanos protestaram publicamente, embora tenham se acomodado à situação na prática. Mas o mais importante é que iniciativas começam a se recompor a partir da base: o encontro antifascista e pela soberania dos povos de Porto Alegre (março de 2026) terá, sem dúvida, como eixo central a necessária solidariedade com Cuba, e campanhas contra o bloqueio começam a abrir caminho.

Nessa mesma lógica, uma flotilha solidária começa a se organizar – inspirada naquela que se mobilizou para levar ajuda ao povo palestino e denunciar o genocídio em Gaza – a fim de desafiar no Caribe não apenas o bloqueio econômico, mas também o bloqueio midiático que busca isolar a ilha.

São ainda processos fragmentários, mas apontam para uma tarefa estratégica: fazer com que o bloqueio tenha um custo político, tirá-lo do terreno “técnico” e colocá-lo no centro do confronto público. A necessidade de solidariedade com o povo cubano não poderia ser mais urgente.

Defender Cuba é defender o direito à existência

A situação cubana não é simples: não se trata nem de um “fracasso inevitável”, nem de uma ditadura burocrática caricatural, nem de uma epopeia estagnada. É uma experiência histórica submetida a uma pressão extrema, atravessada por inúmeras contradições e marcada por uma resiliência que desmente 60 anos de prognósticos de colapso.

O atual estrangulamento econômico busca demonstrar que nenhum povo do continente pode decidir seu próprio caminho de desenvolvimento se este se desviar dos limites estabelecidos pela hegemonia norte-americana. A mensagem não se dirige apenas a Havana: ela visa a qualquer um que aspire a organizar sua economia, seus recursos e sua vida política sem submissão.

Defender Cuba não significa negar seus problemas nem encerrar o debate sobre as transformações necessárias; significa reconhecer que o conflito é estrutural e que seu desfecho ultrapassa as fronteiras da ilha.

Em Cuba está em jogo algo mais profundo: a possibilidade, para os povos latino-americanos, de exercer ou não, em condições reais, o direito de decidir seu próprio destino. É por isso que a solidariedade não pode ser apenas de princípio: ela deve se traduzir politicamente – desmantelar o bloqueio, denunciar a extraterritorialidade norte-americana, disputar o significado do mal-estar social – e manter um apoio crítico que não deixe Cuba sozinha diante de uma ofensiva estrutural.

O primeiro dever internacionalista é romper o cerco. Isso significa combater o bloqueio como uma política de guerra e sabotar, em nossos próprios países, a propaganda que apresenta a asfixia como uma “defesa da democracia”. Nenhuma autodeterminação pode se manter se a asfixia for normalizada.

Ao mesmo tempo, é preciso dizer com precisão: o apoio crítico não é neutralidade. A crítica às desigualdades emergentes ou a decisões questionáveis pode e deve existir; o que ela não pode se tornar é um álibi para a agressão nem uma linguagem emprestada da estratégia de mudança de regime. Criticar não significa – não pode significar – abrir as portas ao imperialismo nem facilitar sua ofensiva: significa defender o direito de decidir sem tutela e debater as transformações a partir dessa base.

Por fim, a crise não se resolve com declarações. Ela se disputa com forças sociais concretas, com organização e mediações capazes de transformar o mal-estar em projeto e em defesa da vida em comum diante da fragmentação imposta pela asfixia. Se o cerco visa produzir desespero e rendição, a tarefa é produzir o contrário: capacidade coletiva, apoio material e horizonte político.

E, nesse confronto, a neutralidade não é inocente. 

20 de fevereiro de 2026

 

Nicolas Menna é um militante latino-americano residente na França, membro do NPA-L’Anticapitaliste (NPA-A, organização parte da IVa Internacional).