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Eleições na Andaluzia: um passo à frente

Adelante Andalucía: “Se não tivesse sido atraída por esse terceiro espaço, uma parte dos eleitores de esquerda provavelmente teria engrossado o número das abstenções"
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As recentes eleições na Andaluzia permitem extrair várias lições sobre a esquerda, sua relação com a questão nacional e a luta contra a direita e a extrema direita. Este artigo foi publicado com o título Un Paso Adelante no site da Vientosur.infor. O título e outras expressões fazem referência ao fato de que “adelante”, em espanhol, significa “para frente”.

“A história não tem sentido filosófico. Mas é politicamente inteligível e estrategicamente pensável. Pois, na história real, o vencido não está necessariamente errado, e o vencedor não está necessariamente certo.” (Daniel Bensaïd)

O resultado das eleições de maio de 2026 na Andaluzia constituiu uma ruptura. O Partido Popular (direita tracional) perdesse sua maioria absoluta na região, recuando para 53 cadeiras no parlamento andaluz. Assim, chegou ao fim essa força parlamentar avassaladora. O PSOE (social-democracia) de María Jesús Montero, apesar de ter conquistado 60 mil votos, registrou o pior resultado de sua história, ficando com 28 cadeiras. Por sua vez, a esquerda soberanista (1) de Adelante Andalucía, liderada por José Ignacio García, conquistou 8 dmandatos de deputados (400 mil votos), superando em importância a coalizão Por Andalucía (2), liderada por Antonio Maíllo. Esta última, apesar de ter perdido cerca de 20 mil eleitores, manteve seus cinco assentos. Parece claro que o aumento da participação (+8,71%) para 64,84% dos potenciais votantes, um número inédito desde 2015, não favoreceu o líder do PP, Moreno Bonilla. Enquanto o bloco de direita PP, Vox e SALF conquistou 163.365 votos (3), o bloco de esquerda, por sua vez, avançou em 271.748 votos.

Será este o início de uma mudança de dinâmica? Para tentar esboçar uma resposta, não podemos basear-nos apenas nos últimos resultados eleitorais. É preciso analisar a história política da Andaluzia. Partimos de um postulado fundamental: não há vitória eleitoral sem uma vitória social e política prévia. Na região, a direita não conquistou as instituições por acaso em 2018; ela o fez conquistando primeiro a hegemonia política, deslocando o debate político e monopolizando a agenda pública muito antes de as urnas validarem sua vitória. O verdadeiro barômetro dessa transformação não estava nas pesquisas, mas na micropolítica do cotidiano: nas conversas nos locais de trabalho, no mercado e nos nos bares dos bairros populares. A desmobilização dos setores tradicionalmente posicionados à esquerda e a ausência de um projeto empolgante geraram ali um distanciamento político em relação aos serviços públicos e ao bem comum. Enquanto a esquerda se afogava em uma gestão tecnocrática ou em debates internos estéreis, a direita conseguiu impor sua narrativa, aproveitando-se do vazio político existencial deixado pela decomposição do projeto tradicional do PSOE andaluz.

A perda da maioria absoluta do PP é irreversível? Quais são os limites reais do domínio da direita na Andaluzia? Há elementos para se vislumbrar uma recomposição da esquerda?

2012 - 2018: Susana “tudo começou contigo”

Como já explicávamos há quatro anos (4), na Andaluzia, em 2018, observamos a ruptura de uma “relação (quase) natural construída ao longo de quarenta anos. Pela primeira vez, a associação entre o povo, a ideologia (de esquerda), a classe (trabalhadora), o partido (PSOE) e a administração (Junta) já não era mais um dado adquirido” (5). A Junta mudou de cor há quase oito anos, mas a esquerda já vinha perdendo há algum tempo.

Sem o poder da Junta, o PSOE tornou-se um “corpo sem alma”. Desde a década de 1980, era quase um espectro, e então ficou desprovido dos ossos que mantinham esse corpo nas instituições públicas. A perda da Junta trouxe à tona a crise vital e a desorientação estratégica do PSOE-A, um processo marcado por três etapas fundamentais.

Em primeiro lugar, há o Pacto de Necessidade de 2012 (6). Depois de ter sido desgastado pelos ERE (7) e pelo 15M (8), o PSOE voltou-se para a IU (Esquerda Unida) para sobreviver. Isso marcou o fim de sua hegemonia. Em seguida, houve a guinada liberal de 2015, quando Susana Díaz era presidente da Junta. O partido rompeu então com sua ala de esquerda e aliou-se ao Ciudadanos. Em um movimento autodestrutivo em relação à questão da identidade territorial, o PSOE-A renunciou ao conceito de “Andaluzia” para adotar um discurso estatista, de caráter centralista e nacionalista espanhol, em reação ao processo independentista catalão, tentando assim, sem sucesso, conquistar o voto conservador. Por fim, em 2018, os eleitores de esquerda abstiveram-se em massa em reação ao desvio de um partido que já não reconheciam como seu. Isso pôs fim à simbiose entre o partido e a administração.

2018 - 2022: a consolidação do bloco de direita

O Partido Popular Andaluz deu um salto sem precedentes: partindo de seu pior resultado histórico em 2018 (9), assumiu a liderança do bloco conservador ao absorver seus concorrentes de direita e articular diferentes perfis políticos, o que o levou à conquista da maioria absoluta.

A operação política chave foi a instrumentalização do Ciudadanos e a absorção de seu eleitorado após a coalizão governamental de 2018 a 2022. Como explicamos em “Andaluzia: Crônica de uma morte anunciada” (10), o Ciudadanos serviu ao PP de “alavanca” para captar o eleitorado moderado do PSOE (que ainda se sentia distante do que o PP representava). Apoiando-se em seu domínio dentro da coalizão na Andaluzia, e após ter afastado o Ciudadanos em nível nacional, o PP ocupou seu espaço eleitoral sem que este fosse capaz de resistir.

Rapidamente, em 2022, a ação do governo neoliberal de Moreno Bonilla seguiu o caminho traçado pelo PSOE de Susana Díaz: o financiamento da saúde privada com recursos públicos, cortes orçamentários e privatizações na educação e em outros serviços públicos (bombeiros florestais, serviços de emergência etc.), bem como a ideia neoliberal da Marca Andalucía (11), tudo isso não começou com a chegada do PP à Junta. Recordar isso não é um preconceito, é uma necessidade analítica sem a qual não se pode compreender a politização da sociedade andaluza, que sofreu concretamente décadas de financiamento do setor privado por meio de políticas públicas.

Nessas condições, é preciso falar da operação de comunicação do PP andaluz. Diante da ascensão da extrema direita, o PP joga em duas frentes: articula em seu seio o trumpismo centralista de Ayuso (12) e o perfil moderado de #Juanma (Juan Manuel Moreno Bonilla, NdT). Seu sucesso é retumbante: o VOX (aliado de Ayuso, NdT) desempenha um papel central como o “policial mau”, fazendo com que seu aliado, o PP, pareça o bom. Seu tom moderado neutraliza o medo da direita e desmobiliza as resistências populares. Então, a pergunta que se impõe é: por que o PP perdeu a maioria absoluta? Vamos tentar responder a isso passo a passo e sob diferentes ângulos.

2026: O PP perde a maioria absoluta e freia o VOX. A festa acabou?

Como indicamos no início deste artigo, a direita aumentou o número de votos nessas eleições. Como por magia, o PP (cujo avanço foi de cerca de 146 mil votos) e o VOX recuperaram os votos que perderam quando não permitiram que o Ciudadanos fosse representado em 2022 (121.567, ou seja, 3,29%).

É preciso, no entanto, levar em conta um terceiro ator, invisível: a organização liberal de extrema direita Se Acabó La Fiesta (A festa acabou). Embora não tenha representação parlamentar, os 100.000 votos que conquistou contribuíram para que o PP perdesse a maioria absoluta. Uma análise província por província mostra que a SALF conseguiu fazer com que o PP perdesse pelo menos dois deputados (Málaga e Sevilha), além de frear o avanço eleitoral do VOX.

No dia da votação, temos a oportunidade de conversar com os diferentes assessores e delegados das listas, bem como com os eleitores que se dirigem às seções eleitorais. Lá, muitas vezes, em um exercício que os antropólogos chamam de “observação participante”, obtemos informações muito valiosas para compreender certas dinâmicas, que se concretizam mais ou menos nos resultados. Por um lado, ouvimos comentários como “continuo votando no PSOE, mas na minha casa, desta vez, quatro pessoas vão votar no Adelante” ou “votamos em casal, um no Por Andalucía e o outro no Adelante”. Por outro lado, delegados do PP contam como seus familiares dividiram seus votos entre o PP, VOX e SALF. Não se trata aqui de setores que aderiram recentemente à direita, mas de lares tradicionalmente de direita que estão atravessados por tensões internas que se expressam na família por meio da divisão de votos entre os diferentes partidos.

Nesse sentido, para compreender o que mudou em 17 de maio, não basta observar o surgimento do Adelante Andalucía. É preciso também observar as disputas no seio do bloco conservador. Em definitiva, trata-se de compreender como e até onde se estende a hegemonia da direita na Andaluzia, e quais são suas margens de manobra nas futuras eleições.

Felizmente, apesar da frustração e do sentimento de impotência decorrentes da falta de iniciativa política durante a última legislatura, a contestação ao governo de Moreno Bonilla por parte da população de esquerda não parou de crescer. O movimento – pela saúde, pela moradia, pelos direitos trabalhistas etc., apesar da derrota de muitas de suas lutas, ganha influência na sociedade. É nesse contexto que a posição de José Ignacio García e do Adelante Andalucía no Parlamento andaluz ganha todo o seu sentido. Em 2022, questionava-se se a esquerda deveria “continuar sendo o elo fraco do social-liberalismo ou se era possível construir uma verdadeira alternativa soberanista”. O trabalho dos últimos anos e o resultado do 17M (dia das eleições, N.T.) começaram a traçar uma nova perspectiva.

17M: o soberanismo de esquerda tirou o sorriso de “Juanma”

Enquanto María Jesús Montero (PSOE) e Antonio Maillo (PCE) corresponderam às expectativas de seus respectivos partidos, demonstrando cada um a capacidade de resistência da base social e militante desses dois espaços políticos, o Adelante Andalucía, liderado por José Ignacio García, trouxe mais votos do que o previsto para o bloco de esquerda, superando todas as previsões. Com as vantagens e desvantagens que isso implica. De fato, o povo andaluz está preocupado com o lugar do VOX na legislatura e com as possíveis consequências para sua vida. É preciso ter essa preocupação em mente para não perder de vista a situação real da sociedade e para responder a ela.

Para tentar explicar o resultado do Adelante Andalucía, há outros quatro fatores: a probabilidade do resultado, o papel do Adelante Andalucía, o novo andaluzismo e a comunicação política.

Em primeiro lugar, a vitória previsível da direita abria uma janela de oportunidade. No contexto de uma possibilidade de mudança de governo, haveria mais pressão sobre a força emergente, favorecendo o mantra antipolítico da unidade pela unidade, que retorna como o medo do lobo em certos setores da esquerda. O cenário de 2026 abria, portanto, possibilidades, e o Adelante Andalucía compreendeu isso desde o início.

Em segundo lugar, o posicionamento do Adelante contra o governo de Moreno Bonilla. Mesmo que a direita estivesse desgastada pelo exercício do poder, no momento da campanha ela não se encontrava em situação de profunda fraqueza. O Adelante Andalucía soube, melhor do que outras forças, captar a rejeição às políticas do PP. Em nossa opinião, a razão é a aliança entre o PSOE e Por Andalucía para governar o país no âmbito do Estado espanhol.

O resultado das eleições mostra que há milhares de andaluzes que, sem concordar com o governo de Moreno Bonilla, também não aplaudem aquele presidido pelo primeiro-ministro Sánchez, que é apoiado por várias forças de esquerda. Em outras palavras, se não tivessem sido atraídos por esse terceiro espaço, independente tanto da direita no poder na Andaluzia quanto da esquerda no poder em Madri, uma parte dos eleitores que se identificam com o espectro da esquerda provavelmente teria engrossado as fileiras da abstenção, como em 2018 e 2022.

Em terceiro lugar, é preciso destacar o “novo andaluzismo”. Há mais de dez anos, assistimos a um renascimento do blanquiverde, uma identidade com as cores da bandeira branca e verde da Andaluzia, no seio do mundo associativo, cultural, dos movimentos sociais etc. Do feminismo andaluz de Mar Gallego (13) ao movimento pela habitação pró-corralas (14). Da memória histórica andaluza com militantes como as irmãs Maqueda (15) até a proliferação de divulgadores da identidade andaluza como nosso camarada Antonio Manuel, passando por influenciadores com sotaque andaluz como Manu Sánchez, Sara Laupers, Juan Amodeo e Sandri; ou artistas como Califato ¾, La Plazuela, Dellafuente…

O fato de a Andaluzia ser o berço de grandes artistas e de numerosas militantes não é novidade. O que é novo é que, nos últimos 15 anos, assistimos a um renascimento do interesse por tudo o que diz respeito à identidade andaluza, em termos populares e culturais. Em um contexto nacional tumultuado e em um contexto internacional em crise, isso contribuiu para forjar um sentimento de pertencimento, de orgulho, de autoestima e despertou o desejo de nos reconectarmos com nossa própria história. Em suma, isso alimentou e reconstruiu nossa consciência de ser um povo. Nessas condições, bastou um pouco de tempo e iniciativa para que essa dinâmica social encontrasse eco na esfera política. Enquanto outras correntes políticas se contentaram em usar a Andaluzia como ferramenta de marketing, outras, desde o surgimento do Podemos, traçam uma perspectiva alternativa. A de uma Andaluzia que existe por si mesma, pelos povos e pela humanidade, graças ao soberanismo.

Em quarto lugar, no que diz respeito à importância da comunicação, destacamos a análise realizada pela ativista Macarena Hernández em seu artigo “A alegria como brecha: o que o Adelante Andalucía compreendeu” (16). Sem entrar em detalhes, podemos examinar vários pontos: o perfil de José Ignacio (que substituiu Teresa Rodríguez), o apelo à alegria e a contínua exposição na mídia nos últimos anos.

Teresa era vítima de uma pressão ligada à sua identidade de jovem mulher, combativa, feminista e, sobretudo, de andaluza com sotaque muito marcado, o que a tornava o alvo perfeito do ódio dos colunistas e das figuras da internet. José Ignacio, ao contrário, atuou sob um ângulo mais difícil de atacar, um privilégio de gênero e de perfil que a campanha soube explorar a seu favor.

Nesse contexto, José Ignacio concentrou-se em elementos concretos, relacionados com as dinâmicas gerais e da vida cotidiana, sem cair na abstração. Nesse sentido, o discurso que José Ignacio desenvolveu de forma inteligente, com o apoio de sua equipe de comunicação, permite um forte contato com diversos setores, evitando análises aprofundadas que criam distância entre o porta-voz e o eleitor de hoje. A chave, portanto, será dar ressonância a esses elementos concretos para transmitir à opinião pública, a médio prazo, explicações mais complexas, partindo dos problemas materiais universais dos mais desfavorecidos. É em parte disso que dependerá a capacidade de Adelante de se impor como um ator alternativo, dotado de uma base social sólida a longo prazo. O que também exige mobilização, participação e organização em assembleias e movimentos sociais.

No que diz respeito à “alegria”, lembramos uma reflexão de Miguel Romero (17), que afirmava que “não se pode fazer política sem os sentimentos das pessoas”. É por isso que nos identificamos com as palavras de Macarena Hernández quando ela afirma que “as pessoas não votam apenas em propostas, votam também em contextos emocionais nos quais se reconhecem” (18). Somos seres “sentipensantes”, não separamos o pensamento das emoções. Nesta campanha, a alegria foi destacada e transmitida, à maneira de quem não tem nada a perder e muito a ganhar.

Por fim, e isso não é menos importante para nós, devemos ressaltar que nada disso serve de “pouco sem visibilidade na mídia”. Desse ponto de vista, é preciso valorizar o resultado de 2022 e o trabalho político realizado ao longo desses quatro anos. As campanhas têm um impacto limitado, mas sem certas condições – bons porta-vozes, bons programas e bons discursos – não podem fazer milagres. Pois não é possível ignorar as condições sociais e políticas de cada período.

Quem votou em Adelante Andalucía?

Na ausência de estudos pós-eleitorais aprofundados, nossa hipótese é que o Adelante Andalucía consolidou a maior parte de seu eleitorado (esses 168.960 votos de 2022), atraiu da abstenção (principalmente a conjuntural, de 2018 e 2022) muitas pessoas que haviam votado nas forças da mudança durante a onda dos anos 2010 e conquistou novos eleitores e eleitoras.

Assim, por um lado, o voto consolidado é uma continuidade em relação ao período anterior à refundação do Adelante Andalucía em 2021, ou seja, a maioria dos eleitores seguiu o caminho traçado desde a convergência de 2018 e situa-se no espaço político da esquerda e do andaluzismo.

Por outro lado, nossa hipótese é que a maior parte dos votos provenientes da abstenção decorre da remobilização de uma parte dos eleitores do Podemos de 2015 (esses 592.371 votos que haviam dado origem a 15 deputados na Andaluzia). Esse perfil, que se encaixa perfeitamente na posição de oposição adotada pelo Adelante Andalucía, corresponde a um eleitor que, antes de 2015, poderia apoiar o PSOE ou a IU por tradição ou por afinidade ideológica, mas que está mais informado, menos passivo e mais crítico no que diz respeito tanto à situação social e política quanto às dinâmicas internas dos partidos. É preciso também considerar esse setor de militantes e eleitores que se mostraram críticos em relação à convergência regional e municipal de 2018 e 2019. E agora, em um contexto de desgaste do governo de coalizão nacional, esse eleitor foi reativado pontualmente, nem mais nem menos.

Seria necessário realizar uma análise mais detalhada dos fenômenos em ação nas províncias em que o Adelante Andalucía está mais bem implantado, como é o caso de Cádiz. Ali, as lutas específicas do território e a antiga prefeitura de Cádiz conseguiram abrir uma brecha na base do Por Andalucía (em particular a da IU), a julgar pela perda de votos dessa formação em relação a 2022 (é o distrito eleitoral onde ela perde mais eleitores). E, por fim, sem confundir nossos desejos com a realidade, acreditamos que o Adelante foi uma das principais forças a atrair novos eleitores e jovens, talvez graças à sua imagem mais renovada e moderna.

Levando em conta todos esses elementos, o resultado de Adelante pode explicar a origem de pelo menos quatro dos assentos conquistados da direita (Cádiz, Córdoba, Málaga e Sevilha), que privaram o PP de sua maioria absoluta. O partido também conquistou dois assentos do PSOE (Huelva e Granada), não porque este tenha perdido votos, mas porque o Adelante conquistou mais votos dos abstencionistas e obteve um bom resultado entre os novos eleitores. O Por Andalucía, por sua vez, resistiu com um resultado praticamente intacto, sendo as transferências líquidas de votos insignificantes.

Novos problemas, bons problemas

A refundação do Adelante Andalucía em 2021 foi uma resposta à “hipótese fraca” (19) de uma esquerda que deveria se subordinar ao PSOE. Diante da frustração gerada pelos governos de coalizão que não alteram as bases materiais da desigualdade, o Adelante quer construir um sujeito político andaluz independente que coloque em questão o poder. Sua “hipótese forte” articula-se em torno do confronto sem concessões com a direita, da independência política em relação ao PSOE-A e da definição da Andaluzia como sujeito político, por meio de um soberanismo que visa romper com seu papel histórico de periferia extrativista (20), ao mesmo tempo em que é compatível e articulado com uma solidariedade de classe e popular, aberta e universal.

Chegou a hora de refletir sobre como a oposição à direita seguirá na Andaluzia e sobre o papel que a Adelante desempenhará. Eis algumas questões que devemos nos colocar: que estratégia parlamentar a AA seguirá e como vai conciliá-la com um enraizamento territorial mais forte onde este ainda é insuficiente? Que condições devem ser estabelecidas para a construção de formas de colaboração com outras forças progressistas? Como restaurar a confiança na pluralidade do espaço político de esquerda sem cair em acordos burocráticos ou em uniões de fachada? Quais são as expectativas para as eleições municipais e legislativas? O Adelante Andalucía permanecerá confinado ao seu reduto andaluz ou olhará para além dele?

Vamos nos contentar com uma solução territorial à la Frankenstein ou à la Rufián (21), sem um verdadeiro debate construtivo em escala nacional? Buscaremos uma solução do tipo “cada um no seu reduto”, sem qualquer acordo programático para o período? Renunciaremos a estabelecer condições políticas (não à subordinação ao PSOE, redistribuição de riqueza, transição ecológica, não à guerra e ao militarismo, rompimento das relações com Israel) para viabilizar uma colaboração em uma coalizão pluralista? Ou buscaremos elementos de um programa comum para o período, exigindo de todos os atores que demonstrem flexibilidade para admitir a independência de cada parte, com soluções eleitorais de compromisso em territórios específicos, baseadas em uma articulação de acordos que respeitem igualmente as divergências? Por outro lado, a experiência portuguesa do Bloco e do PCP é uma experiência da qual devemos tirar lições e que devemos superar?

Todas essas questões, e muitas outras ainda, não têm respostas simples e limitadas aos debates entre partidos. Pelo contrário, do nosso ponto de vista, seria um erro que o povo trabalhador andaluz delegasse ao Adelante, ou a qualquer outro partido, o debate estratégico. Se as lutas sociais, culturais e políticas não ganharem influência na sociedade andaluza, não se enraizarem e não abrirem brechas, então não haverá vitória eleitoral nem poder político que se mantenha no tempo.

Hoje, o bloco de direita reúne 2,5 milhões de andaluzes (ou seja, 805.155 a mais do que o PSOE, o Adelante Andalucía e o Por Andalucía), com uma participação de cerca de 64%. Esses números não se viam desde 2004 e 2008, época em que o PSOE-A de Manuel Chaves detinha a maioria absoluta. Com a diferença significativa de que, naquela época, a participação era superior em mais de 10 pontos à de hoje. A esquerda e o andaluzismo tiraram suas lições dessa experiência, mas a direita também. Não devemos confundir nossos desejos com a realidade. Há uma partida a ser disputada e precisamos disputá-la. Se nos recusarmos a isso, ou se repetirmos os mesmos esquemas, então já sabemos qual será o resultado. A direita não vai largar a bola; teremos de arrancar-lhe a vitória com toda a nossa alegria e toda a nossa inteligência. Hoje, estamos longe do objetivo, mas, depois do 17M, estamos mais perto de escrever uma página da história da Andaluzia para a próxima década.

Em 2011, três meses antes do início do 15M, o grupo Los Currelantes, de Jesús Bienvenido – esse cantor que assusta tanto o PP que ele quer censurá-lo –, acompanhado por um jovem líder de bairro, José María González “Kichi” –, cantou um pasodoble (22) dedicado à figura de Marcelino Camacho (23) com uma mensagem clara para as classes populares. Hoje, 15 anos depois, continuamos a dizer a mesma coisa: «Sempre em frente (Adelante) e sempre à esquerda…”

“Sonhemos, mas com a condição de acreditarmos seriamente em nosso sonho, de examinarmos atentamente a vida real, de confrontarmos nossas observações com nosso sonho, de realizarmos escrupulosamente nossa fantasia”. Lenin

25 de maio de 2026

 

Pablo P. Ganfornina é professor de geografia e história no ensino fundamental e médio, militante de Anticapitalistas e do Adelante Andalucía.

Daniel Albarracín é professor de economia na Universidade de Sevilha, militante de Anticapitalistas e do Adelante Andalucía. É também membro do Conselho Consultivo da revista Viento Sur