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“Geração Z” mexicana (ainda) refratária à extrema direita

Manifestação de trabalhadores mexicanos reivindicado direitos à presidente Shembaun

A direita mexicana, apoiada pelos setores oligárquicos e abertamente aplaudida por Donald Trump, tenta aproveitar o descontentamento social para desestabilizar o governo de Claudia Sheinbaum.


Apesar de sua capacidade de mobilização ainda ser limitada, o perigo é real. A única barreira eficaz continua sendo o aprofundamento do projeto de transformação da sociedade e a construção de um movimento social autônomo capaz de enfrentar a ameaça fascista.

Embora a mídia nacional e internacional tenha alimentado grandes expectativas quanto a um suposto impacto desestabilizador da mobilização da “Geração Z” de 15 de novembro de 2025 contra o governo progressista de Claudia Sheinbaum Pardo, o resultado foi claramente decepcionante para seus promotores. Dos 80 a 90 mil manifestantes que se reuniram em todo o país, apenas um terço eram jovens, uma proporção semelhante à de outras marchas organizadas pelos mesmos partidos de oposição de direita e de extrema direita. Estes tomam como pretexto para sua mobilização a crise de segurança, quando são eles próprios os responsáveis por seu agravamento.

Os organizadores tentaram recriar a mobilização de dezenas de milhares de jovens que conseguiram derrubar no Nepal um governo corrupto e profundamente impopular.

É verdade que o assassinato de Carlos Manzo, prefeito de Uruapan, a segunda maior cidade de Michoacán, pelo cartel Jalisco Nueva Generación, suscitou um forte descontentamento em nível nacional, especialmente entre os jovens que se identificam com essa geração. Mas essa indignação foi rapidamente instrumentalizada pelos partidos de direita, que procuraram transformá-la no motor de uma mobilização abertamente golpista cujo objetivo era tomar o Palácio Nacional. A manobra acabou fracassando: foram esses mesmos jovens que rejeitaram o apelo e se distanciaram da manipulação da oposição.

Uma ofensiva dos oligarcas de extrema direita

As forças que impulsionaram a mobilização provinham de setores oligárquicos e conservadores bem identificáveis. Podemos citar, em particular, o empresário Ricardo Salinas Pliego, proprietário da Televisión Azteca, conhecido por seus litígios fiscais com o Estado e por um discurso cada vez mais próximo do neofascismo de figuras como o presidente argentino Javier Milei. A isso se soma o alto clero católico – que se prepara para comemorar o centenário da Guerra dos Cristeros – bem como os líderes históricos do PRI e do PAN, cujos parlamentares difundiram discursos de ódio e acusações infundadas, qualificando o governo de Claudia Sheinbaum de “comunista” e responsabilizando-o pelo assassinato de Manzo. Jornalistas e intelectuais também participaram dessa campanha, denunciando uma suposta “deriva autoritária” do governo, sem apresentar provas.

Essa mistura tóxica de interesses falaciosos ajuda a explicar as características inovadoras dessa mobilização da direita. Ao contrário das anteriores – que tentavam se revestir de um fino véu “democrático” (a marcha branca, a maré rosa, a defesa do Instituto Federal Eleitoral, etc.) –, esse protesto assumiu um caráter abertamente golpista. Circularam apelos explícitos a uma intervenção armada dos Estados Unidos no México e a um golpe de Estado liderado pelas forças armadas. Ações violentas, claramente coordenadas, foram registradas para derrubar as barreiras que protegem o Palácio Nacional. Expressões misóginas, homofóbicas, antissemitas, sexistas e racistas também proliferaram, assim como camisetas exibindo símbolos nazistas.

Não é por acaso que, nesse contexto, o presidente americano Donald Trump comemorou a mobilização e não excluiu, posteriormente, uma possível intervenção no México sob o pretexto de combater o tráfico de drogas. A mão do imperialismo americano embala o berço do novo monstro fascista.

Mesmo que a manifestação de 15 de novembro tenha sido modesta e expressasse sobretudo o desespero de uma direita radicalizada, sua importância não deve ser subestimada. Nos últimos dias, assistimos a greves massivas de transportadores e defensores da água, onde se misturam reivindicações legítimas – melhorar a segurança no transporte público e impedir que a água permaneça concentrada nas mãos de grandes multinacionais – e a manipulação de líderes de direita que buscam desestabilizar o governo. Esse cenário lembra, em certos aspectos, as táticas das empregadas pela direita chilena antes do golpe de Estado contra Salvador Allende em 1973.

O problema da insegurança

Embora, durante o mandato de Claudia Sheinbaum, tenham sido desferidos golpes importantes contra diversos grupos criminosos, o problema persiste e, em algumas regiões, chega até a se expandir. O tráfico de drogas – assim como a extorsão, os sequestros, o racket, o tráfico de mulheres, o crime cibernético e a lavagem de dinheiro – não é obra de gangues marginais. Trata-se de uma indústria profundamente integrada nas altas esferas políticas, econômicas e financeiras do país.

Seu crescimento global remonta à irrupção do modelo econômico neoliberal, que provocou desemprego em massa em amplos setores sociais. Quem não se lembra das grandes cidades americanas esvaziando-se da noite para o dia, após a transferência da indústria manufatureira para o sul do país ou para a Ásia?

No México, as políticas neoliberais de Miguel de la Madrid, Carlos Salinas e Ernesto Zedillo jogaram centenas de milhares de pessoas na rua. Para sobreviver, as vítimas tinham apenas três opções: emigrar para os Estados Unidos, ingressar na economia informal ou integrar-se a circuitos ligados ao tráfico de drogas. A ilegalidade que envolve essas atividades serviu de terreno fértil para novas redes criminosas: redes de tráfico de pessoas, especialmente de mulheres, estruturas de contrabando e pirataria e, no caso do tráfico de drogas (a atividade mais lucrativa), organizações cada vez mais associadas ao poder político e econômico.

Pode-se afirmar, sem exagero, que o crescimento explosivo dos cartéis na década de 1980 teria sido impossível sem a proteção, direta ou indireta, do Estado mexicano e até mesmo dos Estados Unidos. É sabido que Washington financiou suas guerras secretas no Afeganistão e na Nicarágua com recursos provenientes do tráfico de drogas. Os cartéis não são gangues marginais: funcionam como empresas transnacionais com milhares de funcionários e redes de poder que se infiltram nos governos locais, nos políticos de destaque, nos juízes e nos comandantes militares, ao mesmo tempo em que controlam vastos territórios.

Nessas áreas, surgiu uma espécie de “cultura do narcotráfico”, na qual muitos jovens consideram que sua vida criminosa será breve, mas compensada por um estilo de vida extravagante e ostensivo. Trata-se apenas da filosofia neoliberal do individualismo extremo levada ao seu paroxismo mais violento.

A luta contra essas organizações, suas redes de poder e a cultura que as legitima é uma tarefa de longo prazo. Além da inteligência financeira, da erradicação da corrupção nas elites políticas, judiciais e militares e da ação resoluta contra os grupos criminosos – incluindo a organização de autodefesas e polícias comunitárias nas zonas rurais –, a solução fundamental passa pela construção de um sistema econômico mais igualitário, mais justo e baseado em valores coletivos e solidários. Em outras palavras: desmantelar o neoliberalismo e travar a batalha cultural em favor de uma alternativa socialista.

Como lutar contra o fascismo?

A principal razão pela qual o México é um dos poucos países onde a extrema direita e o fascismo estão na defensiva é que, mesmo sem uma ruptura radical com o neoliberalismo, o governo conseguiu melhorar de forma sustentável o nível de vida da maioria da população. Os aumentos do salário mínimo, a expansão dos programas sociais, os investimentos em infraestrutura, a regulamentação da terceirização, os avanços em matéria de liberdade sindical, o restabelecimento das margens de soberania energética e a obrigação de os grandes empresários pagarem impostos reforçaram uma base social ampla e estável para a “quarta transformação”.

Mas se esse processo de transformação não se aprofundar e ficar pela metade, criará um terreno fértil para a recomposição dos setores de direita. Tarefas essenciais ainda precisam ser realizadas: restabelecer o poder de compra dos salários contratuais, restabelecer um regime de aposentadoria solidário com a extinção das Afores (regime de investimento de fundos de aposentadoria, Nota do Tradutor) e o pagamento em UMA (1), melhorar substancialmente a segurança pública, responder aos problemas dos diferentes setores sociais por meio de um diálogo real e de soluções eficazes, promover uma reforma tributária progressiva e auditar – e depois anular – a dívida pública considerada odiosa.

Este programa deve articular-se em torno da construção de um movimento social amplo e independente do governo, capaz de manter altos níveis de mobilização diante da ameaça que representa a oligarquia de extrema direita e fascista – encarnada, entre outros, por figuras como Ricardo Salinas Pliego –, que hoje busca impor-se por meio de manobras de desestabilização. Ao mesmo tempo, esse movimento deve fazer valer suas próprias reivindicações perante o atual governo, sem se subordinar nem à direita nem ao poder vigente.

 

 

José Luis Hernández Ayala é delegado do Sindicato Mexicano dos Eletricistas (SME) e membro da diretoria nacional da Nova Central Sindical (NCT). Este artigo foi publicado pela Jacobin América Latina. Traduzido por Fabrice Thomas.

 

 

notes

1/A Unidad de Medida y Actualización é uma unidade de cálculo utilizada para indexar as aposentadorias e os benefícios sociais. Sua evolução, mais lenta do que a do salário mínimo, acarreta uma queda no poder de compra dos aposentados.