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A guerra no Irã: rivalidades e catástrofe social

por Sara Selami

O cessar-fogo atualmente em vigor permanece frágil, e seu desfecho é incerto. E isso ainda mais porque um bloqueio marítimo dos portos iranianos foi imposto pelos Estados Unidos. A Guerra dos 40 Dias, desencadeada em 28 de fevereiro pela aliança israelo-estadunidense, é até hoje um dos confrontos capitalistas mais decisivos do século XXI.

 

As consequências dessa guerra já pesam fortemente sobre a vida dos povos e, em particular, dos trabalhadores e trabalhadoras no Irã, no Líbano, em toda a região e muito além. Não se trata simplesmente de um confronto militar regional, mas de um choque duradouro cujos efeitos sociais, econômicos e políticos serão sentidos por muitos anos.

Os estragos da guerra

A guerra começou com o bombardeio de uma escola primária em Minab, onde 120 crianças foram massacradas. Muitos locais de trabalho foram alvos: instalações petrolíferas, refinarias, fábricas petroquímicas e siderúrgicas, usinas de energia, estradas, pontes, portos, aeroportos, hospitais, centros científicos, escolas, universidades, monumentos históricos e bairros residenciais foram atingidos. Quase 2.000 civis foram mortos e vários milhares ficaram feridos. Além das mortes diretas causadas pelos bombardeios, o fechamento de muitos locais de produção provocou desemprego em massa e uma queda brutal na renda de milhões de famílias de trabalhadores. 

Essa guerra desferiu um novo golpe severo no poder de compra da maioria da população. Embora o abastecimento de bens essenciais se mantenha, em geral, os preços, já insuportáveis antes da guerra, dispararam ainda mais. 

O corte generalizado da Internet imposto pela República Islâmica também atingiu de cheio as plataformas digitais, o comércio online e os serviços conectados, setores dos quais dependiam os rendimentos de 11 milhões de pessoas. Grande parte delas encontra-se hoje sem recursos. Mesmo com um retorno a uma situação mais estável, a reconstrução do país poderia levar entre dez e quinze anos, enquanto cerca de 2 milhões de pessoas correm o risco de permanecer desempregadas por um longo período.

No plano político e social, a guerra reforçou o aparato repressivo do regime. O clima de insegurança criado pela guerra permitiu ao poder suspender ou sufocar os protestos sociais. A repressão contra sindicalistas, presos políticos e ativistas sociais intensificou-se consideravelmente. As execuções tornaram-se quase diárias, dezenas de pessoas são detidas todos os dias. 

A guerra e a decapitação do poder não provocaram o colapso do regime; pelo contrário, a primeira permitiu-lhe reconstituir uma nova coesão interna e endurecer ainda mais seu controle sobre a sociedade. 

No Líbano também, os ataques israelenses destruíram completamente o sul do país, grande parte de Beirute e infraestruturas civis. Mais de 2.500 pessoas foram mortas e o colapso econômico, em curso há vários anos, foi acentuado. Lá também, milhares de trabalhadores e trabalhadoras perderam seus empregos. Os deslocamentos em massa de populações fragilizaram ainda mais as condições de vida das famílias populares.  Os trabalhadores migrantes presentes no Líbano, sem proteção social, muitas vezes sem possibilidade de se deslocarem ou retornarem, sofreram de forma direta as consequências da guerra. Assim como no Irã, em toda a região a guerra serviu de pretexto para o reforço do controle de segurança, a limitação das mobilizações sociais e o enfraquecimento adicional das capacidades de organização coletiva do mundo do trabalho.

Consequências internacionais

Mas os efeitos destrutivos dessa guerra não se limitam ao Irã e ao Líbano. A extensão dos ataques militares iranianos aos países do sul do Golfo mergulhou milhares de trabalhadoras e trabalhadores na precariedade. Além das mortes causadas pelos bombardeios, muitas trabalhadoras e trabalhadores migrantes – já privados de direitos sociais e econômicos – perderam seus empregos e foram abandonados à própria sorte.

Em escala global, essa guerra agravou a crise energética e acelerou a inflação. O fechamento do estreito de Ormuz causou uma paralisia generalizada. Isso não perturba apenas os fluxos mundiais de petróleo e gás, mas também o comércio de produtos, alimentos e fertilizantes. Cerca de um terço do comércio mundial de matérias-primas destinadas à agricultura passa por Ormuz. O Programa Mundial de Alimentos alertou que, se essa situação persistir, até 45 milhões de pessoas a mais poderão cair em situação de insegurança alimentar aguda. Quase dois terços dessas pessoas estão na África e na Ásia, principalmente nos países mais pobres e mais dependentes, como Níger, Chade, Mali, Sudão, Somália ou Etiópia.

Na Nigéria, por exemplo, o preço do combustível aumentou mais de 60%, o custo do transporte quase dobrou, o que provocou diretamente um aumento no preço dos alimentos. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento estima que a guerra e a paralisação da passagem pelo Estreito de Ormuz possam mergulhar mais de 30 milhões de pessoas na pobreza extrema.

O aumento do preço da energia se reflete diretamente em toda a economia mundial. Em países como Índia, Turquia, Egito, Paquistão ou Sri Lanka, as populações já sofrem com o aumento dos combustíveis, a alta nos preços dos alimentos, a explosão dos custos de transporte e a desvalorização monetária. Em suma, as consequências dessa guerra empobrecem profundamente a classe trabalhadora em escala mundial.

Israel e o Irã: uma rivalidade regional

Para compreender as origens do conflito israelo-iraniano, é preciso, antes de tudo, evitar uma confusão bastante frequente. É certo que as destruições em massa das infraestruturas civis no Irã lembram o que se vê no Líbano e, mais ainda, em Gaza. Encontramos ali a mesma violência extrema, bombardeios em grande escala, a destruição de infraestruturas industriais, médicas, energéticas, logísticas, bem como de habitações. Mas, apesar dessas semelhanças nas formas de destruição e massacre da população civil, a guerra de Israel contra o Irã não tem a mesma natureza política que a guerra contra seus países vizinhos.

 

A especificidade do caso iraniano

A diferença não se resume apenas ao papel dos Estados Unidos. No Líbano e na Palestina, os Estados Unidos não intervêm diretamente no plano militar. Eles armam, financiam e protegem Israel, e o deixam agir de acordo com seus próprios objetivos e desejos. No caso iraniano, por outro lado, o envolvimento dos Estados Unidos é direto. São os Estados Unidos que definem o quadro geral do conflito, suas prioridades, seus limites e seu cronograma, enquanto Israel atua amplamente como um parceiro e um canal estratégico.

A diferença essencial é sobretudo de ordem política e histórica. As guerras travadas por Israel na Palestina – e particularmente em Gaza – decorrem de uma lógica colonial e territorial de longa data. Trata-se de um colonialismo de colonização: conquista de terras, ocupação, extensão das fronteiras, transformação demográfica e limpeza étnica que chega ao genocídio. No Líbano, é a lógica territorial-securitária que prevalece, principalmente nas zonas fronteiriças.

 

Uma luta pela hegemonia regional

No caso do Irã, não se trata nem de uma guerra colonial nem de um projeto de ocupação territorial. O Irã e Israel não têm fronteira comum e não disputam um território. Trata-se de uma rivalidade entre duas potências regionais concorrentes.

Cada um procura impedir que o outro imponha sua hegemonia no Oriente Médio. O domínio de um se dá necessariamente em detrimento do outro. A lógica do conflito gira, portanto, em torno do lugar de cada um na ordem regional, da capacidade de definir as regras do jogo político, de segurança e estratégico da região.

O principal objetivo de Israel em relação ao Irã é, portanto, o enfraquecimento duradouro — ou mesmo a destruição — das capacidades de um rival estratégico. Isso passa pela destruição maciça das infraestruturas do país: não apenas as capacidades militares, mas também as infraestruturas industriais, tecnológicas, científicas, logísticas e até mesmo médicas, educacionais e residenciais. Trata-se de reduzir o poder estrutural do adversário.

O Irã, por sua vez, também utiliza, dentro dos limites de suas próprias capacidades militares, uma lógica de ataque contra infraestruturas não apenas militares, mas sobretudo civis. Também nesse caso, o objetivo é o desgaste da capacidade adversária.

Em outras palavras, a guerra de Israel contra o Irã visa a neutralização de uma potência regional capaz de influenciar uma ordem no Oriente Médio dominada pelo eixo americano-israelense. É esse lugar reivindicado pelo Irã na ordem regional que constitui o verdadeiro foco do confronto.

A rivalidade entre o Irã e Israel não pode ser reduzida a uma sucessão de crises militares pontuais. Ela deve ser entendida como uma rivalidade estrutural multidimensional que tem suas raízes nas transformações geopolíticas do pós-Guerra Fria, no colapso da ordem bipolar e nas reestruturações que se seguiram no Oriente Médio. Na década de 1980, durante a guerra entre o Irã e o Iraque, o Irã e Israel colaboraram: Israel vendia armamentos à República Islâmica. A destruição de Osirak – usina nuclear iraquiana – teria sido fruto da colaboração de seus serviços de inteligência militar.

Desde a sua criação, Israel baseou sua segurança em dois pilares: a superioridade militar permanente e a aliança estratégica com potências ocidentais, em particular os Estados Unidos. Sua “razão de ser” depende de um ambiente regional em que nenhum rival possa atingir um nível de poder comparável.

Por outro lado, a República Islâmica do Irã desenvolveu progressivamente uma política voltada para a construção de profundidade estratégica em seu ambiente regional. Isso passa por uma rede de alianças, influências e pontos de apoio políticos em vários países da região — o que ela denomina “Eixo da Resistência”. Mesmo sem um confronto direto permanente, estamos diante de uma rivalidade duradoura.

 

Infraestruturas, energia e poder

Mas essa rivalidade não se limita à dimensão militar ou de segurança. Ela possui também uma dimensão econômica e geopolítica profunda, muitas vezes menos visível, mas igualmente essencial.

Um dos domínios mais importantes diz respeito ao controle das rotas energéticas e comerciais. Graças à sua posição no estreito de Ormuz, o Irã ocupa um lugar central na segurança energética mundial. Uma parcela decisiva do petróleo e do gás mundial transita por esse espaço. Isso confere ao Irã uma influência geopolítica considerável, como atesta seu bloqueio desde o início da guerra.

Israel, por sua vez, reforçou sua posição graças ao desenvolvimento de seus campos de gás no Mediterrâneo Oriental. O país pretende tornar-se um ator energético regional de primeiro plano por meio de novos circuitos energéticos entre o Mediterrâneo, a Europa e os países árabes.

Assim, delineiam-se dois espaços geopolíticos distintos, mas interdependentes: de um lado, o Golfo Pérsico e as rotas petrolíferas ligadas à influência iraniana; do outro, o Mediterrâneo Oriental e os novos eixos energéticos associados a Israel. A energia torna-se aqui um instrumento de poder estrutural.

 

Corredores comerciais e competição geopolítica

A mesma lógica se aplica aos corredores comerciais. Nos últimos anos, os projetos de conexão entre a Índia, o Oriente Médio e a Europa adquiriram grande importância geopolítica. Essas rotas não são meramente econômicas: elas fazem parte da competição para se tornarem os principais pólos do comércio mundial.

O Irã busca preservar seu papel de ponte estratégica entre a Ásia Central, o Golfo Pérsico, o Cáucaso e a Ásia Ocidental. Outro exemplo é o Corredor Internacional Norte-Sul (INSTC), que liga a Índia, o Irã, a Rússia e, de forma mais ampla, a Europa do Norte. Nesse sistema, o Irã desempenha um papel de verdadeira ponte terrestre entre o Oceano Índico e o Mar Cáspio, e depois em direção à Rússia e à Europa.

Israel busca integrar-se a novas redes de trânsito por meio de sua cooperação com vários países árabes e ocidentais (como cadeias logísticas regionais que ligam o Mediterrâneo Oriental ao Golfo, com projetos de cooperação portuária, transporte marítimo e conectividade digital (Acordos de Abraão). Ou o Corredor Econômico Índia-Médio Oriente-Europa (India-Middle East-Europe Economic Corridor, IMEC), que ligaria a Índia aos portos do Golfo, passando pela Arábia Saudita e pela Jordânia até aos portos israelitas como Haifa, antes de chegar à Europa pelo Mediterrâneo.

A disputa pelo mapa do comércio torna-se, portanto, uma disputa pelo poder regional.

 

Dois modos de integração na economia mundial

A isso se soma uma diferença fundamental: o modo de integração na economia mundial. Israel está profundamente integrado à economia ocidental e ao sistema financeiro internacional. Beneficia-se plenamente dos fluxos de capitais, das transferências de tecnologia, da inovação e do comércio mundial.

O Irã, ao contrário, opera principalmente sob um regime de sanções. Ele se orienta mais para economias não ocidentais, do Sul Global, para circuitos comerciais paralelos e redes alternativas de contorno das sanções. O que, por si só, constitui um verdadeiro negócio.

O conflito, portanto, não se resume apenas a mísseis, segurança ou influência militar. Trata-se também do lugar de cada um na ordem econômica global.

Os Estados Unidos diante do Irã

A busca iraniana pelo poder regional

Quando se fala do conflito entre os Estados Unidos e o Irã, é preciso, antes de tudo, lembrar que a República Islâmica do Irã é uma potência regional capaz de exercer influência muito além de seu espaço imediato. Mas seu objetivo principal não é apenas existir como potência autônoma. Ela busca obter um lugar dominante, reconhecido e estável na estrutura regional de poder, de acordo com suas próprias condições.

Em outras palavras, o Estado iraniano — como representante do capitalismo iraniano — não se vê como uma mera potência periférica. A burguesia iraniana considera que o tamanho de seu território, sua demografia, sua posição geográfica, seus recursos naturais, suas capacidades industriais e sua longa tradição estatal permitem naturalmente que o país ocupe um lugar central na ordem regional.

Essa percepção não data da República Islâmica. Ela já existia sob o reinado do Xá, quando o Irã detinha o título “honorífico” de gendarme da região. A República Islâmica não inventou essa ambição; ela a reformulou em um contexto internacional transformado.

Trata-se, portanto, de uma lógica de integração hegemônica. A República Islâmica do Irã não busca necessariamente derrubar a ordem existente, mas ser reconhecida nela como uma potência estruturante, sem subordinação, e obter a maior parte dos benefícios.

No entanto, o acesso normalizado a essa posição permanece amplamente fechado para ela. Porque sua ascensão de poder afeta diretamente vários pilares da ordem regional existente: a arquitetura de segurança dos Estados Unidos no Oriente Médio, as monarquias aliadas dos Estados Unidos e, sobretudo, a centralidade de Israel.

Israel, que de fato goza de um status de exceção estrutural: uma superioridade militar garantida, proteção permanente dos Estados Unidos e da Europa, integração privilegiada à ordem ocidental, bem como ampla tolerância internacional por suas práticas de dominação colonizadora e pelos crimes que comete contra os povos da região.

Diante desse bloqueio, o Irã busca, portanto, outros meios de alcançar esse reconhecimento estratégico.

 

Nuclear, sanções e relação de forças

Enquanto o Irã do Xá buscava sua ascensão por meio de uma integração clássica ao campo ocidental — segundo um modelo que poderia lembrar o da Coreia do Sul —, a República Islâmica orienta-se mais para uma lógica comparável à da Índia ou da África do Sul da época do apartheid: ela encara o poder nuclear como instrumento de reconhecimento estratégico. Em outras palavras, a capacidade nuclear torna-se um meio de impor seu lugar em um ambiente internacional que se recusa a concedê-lo.

A isso se soma a construção de uma profundidade estratégica regional por meio de suas alianças, frequentemente designadas como “Eixo da Resistência”, bem como o desenvolvimento de um programa balístico destinado a garantir militarmente essa vontade de poder.

Não se trata, portanto, apenas de defesa, mas de uma estratégia global de afirmação de poder.

Paralelamente, a crise da hegemonia norte-americana produziu em toda parte outro efeito importante: a ascensão de outras potências regionais. No Oriente Médio, a afirmação da Turquia e da Arábia Saudita multiplicou os focos de rivalidade e tornou a competição pela hegemonia regional ainda mais complexa. O Irã não enfrenta, portanto, um único adversário, mas um sistema regional em que várias potências buscam simultaneamente impor sua centralidade.

Nesse contexto, o confronto com os Estados Unidos, na qualidade de garantes desse sistema que nega. à República Islâmica do Irã, o lugar que reivindica, torna-se ao mesmo tempo duradouro e quase inevitável.

 

Um conflito de dimensões globais

Trata-se de um confronto assimétrico entre uma potência mundial e uma potência regional. Mas seus efeitos ultrapassam amplamente o âmbito do Oriente Médio. A questão iraniana afeta diretamente a credibilidade das alianças dos Estados Unidos, mas também as relações entre os Estados Unidos, a China e a Rússia. A guerra dos Estados Unidos contra o Irã nunca é, portanto, meramente regional. Ela afeta o equilíbrio global de potências. Essa dimensão global é menos visível no conflito israelo-iraniano, onde Israel combate, acima de tudo, um rival estratégico imediato, um concorrente regional direto.

Para os Estados Unidos, por outro lado, o Irã representa outra coisa: a possibilidade de um Estado regional buscar integrar-se à ordem mundial à sua própria maneira, pela força. E é precisamente isso que lhes causa problema.

Se o objetivo israelense é principalmente o enfraquecimento — ou mesmo a destruição — do poder iraniano, o objetivo dos Estados Unidos é um pouco diferente. Trata-se menos de destruir totalmente o poder do Irã do que de contê-lo: aceitar que ele seja influente, mas impedir que seja determinante, que seja capaz de redefinir os equilíbrios regionais segundo seus próprios termos.

Em ambos os casos – israelense e norte-americano –, no entanto, trata-se efetivamente de neutralizar uma capacidade de poder. Os meios empregados pelos Estados Unidos, assim como os utilizados pelo Estado de Israel, não se limitam à pressão militar direta. Eles incluem também a destruição ou o enfraquecimento de todas as capacidades do Irã, bem como a guerra econômica permanente por meio de sanções estruturais.

As sanções, neste caso, não são simplesmente instrumentos de punição. Elas servem para impedir que um Estado transforme seu poder potencial em poder real.

É por isso que o conflito entre os Estados Unidos e Israel não pode ser entendido apenas como uma crise, por exemplo, em torno da questão nuclear. Trata-se de um confronto muito mais profundo: um conflito sobre a hierarquia regional, sobre o acesso ao poder e sobre a possibilidade de uma potência regional como o Irã tornar-se um ator estruturante da ordem internacional sem passar pela autorização dos Estados Unidos.

A China e a questão iraniana

Quando se analisa a questão chinesa no contexto do conflito em torno do Irã, é preciso partir de uma constatação simples: com a ascensão da China e o possível retorno da Rússia, o Irã não é mais apenas um problema regional. Ele está se tornando, gradualmente, um ator potencial em um reequilíbrio mais amplo do sistema internacional.

 

A questão energética

Do ponto de vista da China, o Irã é um importante parceiro geoeconômico, especialmente no plano energético. A China depende fortemente das importações de petróleo e gás provenientes do Golfo. Embora as exportações de petróleo do Irã para a China continuem bem inferiores às da Arábia Saudita ou dos Emirados Árabes Unidos, o Irã continua sendo um ator-chave para a segurança energética chinesa devido à sua posição estratégica no Golfo e no Estreito de Ormuz, passagem essencial para o abastecimento energético da China.

É verdade que o petróleo iraniano representa apenas cerca de 12 a 13% das importações marítimas de petróleo da China, embora a China absorva 80 a 90% das exportações iranianas, vendidas a preços reduzidos devido às sanções. Mas a importância estratégica do Irã para Pequim deve-se sobretudo ao seu papel central na segurança das rotas energéticas do Golfo.

A China tem, portanto, um interesse direto em evitar tanto o colapso do Estado iraniano – seja ele qual for, desde que continue sendo um parceiro – quanto o domínio total dos Estados Unidos sobre essa região.

 

As rotas eurasianas

Em seguida, há a dimensão eurasiana. O Irã ocupa uma posição geográfica central entre vários espaços importantes: o Golfo Pérsico, a Ásia Central, o Cáucaso, o Oceano Índico e os grandes corredores terrestres eurasianos. Na lógica das “ novas rotas da seda”, essa posição é essencial. Sem estabilidade no Irã, uma parte importante dessas conexões torna-se frágil ou incerta.

 

Rejeição ao intervencionismo norte-americano

Por fim, existe uma dimensão política e estratégica mais ampla. A China não busca necessariamente “defender” a República Islâmica em si, mas se opõe a que uma mudança de regime imposta de fora, especialmente pelos Estados Unidos, se torne uma norma internacional. Para ela, isso equivaleria a reforçar a legitimidade do intervencionismo norte-americano no mundo.

 

China, Estados Unidos e equilíbrio mundial

Existe também um importante paradoxo. Uma guerra prolongada contra o Irã pode, em certos casos, enfraquecer indiretamente a posição dos Estados Unidos diante da China. De fato, tal conflito consome recursos militares significativos, esgota os estoques, desvia a atenção dos Estados Unidos para o Oriente Médio e reduz sua capacidade de concentração no cenário indopacífico, especialmente diante da questão de Taiwan.

Nessa lógica, atacar ou conter o Irã pode produzir efeitos contraditórios: isso pode enfraquecer um rival regional, mas também, indiretamente, reforçar a posição estratégica da China.

No fim das contas, a gestão da questão iraniana vai muito além do contexto do Oriente Médio. Ela influencia diretamente o equilíbrio entre os Estados Unidos e a China.

A título de conclusão

Em última análise, a guerra contra o Irã não pode ser entendida como um simples confronto militar pontual, nem mesmo como uma crise estritamente regional. Ela se insere em um conjunto muito mais amplo de rivalidades estruturais que dizem respeito tanto à definição da “ordem regional” no Oriente Médio quanto, além disso, à evolução da “ordem mundial” contemporânea.

O conflito israelo-iraniano expressa, em primeiro lugar, uma luta pela hegemonia regional. Trata-se de um confronto entre duas potências que buscam, cada uma, impedir que a outra se torne o centro organizador do Oriente Médio. Nessa lógica, a destruição de infraestruturas civis, industriais ou científicas não visa simplesmente um objetivo militar imediato: ela se insere em uma estratégia mais ampla de neutralização duradoura das capacidades de poder de um rival.

Paralelamente, o conflito entre os Estados Unidos e o Irã ultrapassa ainda mais essa dimensão regional. Ele opõe uma potência mundial que busca manter uma “ordem internacional” hierárquica a uma potência regional que tenta ingressar nela segundo suas próprias condições. A questão iraniana torna-se, assim, um ponto onde várias dinâmicas convergem: a crise da hegemonia norte-americana, a ascensão de novas potências regionais como a Turquia ou a Arábia Saudita, e a emergência progressiva de um mundo multipolar marcado pelo papel crescente da China e pelo possível retorno da Rússia.

Nesse contexto, a economia não é um domínio separado da guerra. Pelo contrário, as rotas energéticas, os corredores comerciais, as sanções, o acesso a capitais internacionais e às tecnologias tornam-se instrumentos diretos de poder. A luta pelo lugar do Irã na ordem regional é, portanto, também uma luta por sua posição na economia mundial.

Mas vamos ao essencial: além das rivalidades entre Estados, são sobretudo a classe trabalhadora e as camadas populares que arcam com o principal custo desses conflitos. No Irã, no Líbano, nos países do Golfo, mas também na África, na Ásia e muito além, a guerra significa destruição, desemprego, inflação, escassez, repressão e maior precarização. Os trabalhadores são as primeiras vítimas, perdendo seus empregos, sofrendo com o aumento dos preços, expostos à violência direta dos conflitos e vendo suas capacidades de organização coletiva ainda mais reduzidas em um contexto de militarização, maior controle político e repressão reforçada.

Essa guerra traz à tona, assim, uma realidade constante do capitalismo contemporâneo: os confrontos entre potências nunca são apenas jogos geopolíticos abstratos. Eles sempre se traduzem concretamente em uma intensificação da exploração social e da miséria para as populações trabalhadoras. Por trás dos discursos sobre segurança, soberania ou estabilidade, são, na realidade, as relações de força imperialistas que redesenham a região à custa de destruições massivas e duradouras.

Compreender essa guerra implica, portanto, situá-la na lógica profunda da competição pelo poder, pela hegemonia e pelo controle dos recursos, mantendo sempre em primeiro plano uma realidade fundamental: são os povos, e em primeiro lugar os trabalhadores e trabalhadoras, que pagam o preço.

Por fim, é preciso lembrar que a República Islâmica do Irã – e, de forma mais ampla, o capitalismo iraniano que ela administra – não é uma simples vítima passiva dessa configuração bélica. Ela é um ator de pleno direito, engajado em sua própria lógica de poder, de consolidação interna e de influência regional. 

Seu confronto com Israel e os Estados Unidos não pode, portanto, ser reduzido a uma simples “resistência” no sentido moral ou político do termo. Não se trata apenas de uma reação a uma injustiça externa, a uma guerra imposta. Trata-se também de uma política de Estado conduzida por uma classe dominante que reprime sua própria população, instrumentaliza os conflitos externos para reforçar sua posição externa e seu controle interno e que, por sua vez, busca impor seu lugar na hierarquia regional e mundial. 

28 de abril de 2026

Sara Selami é militante da Solidariedade Socialista com os Trabalhadores no Irã (SSTI). Intervenção durante uma reunião pública organizada em Rouen, em 28 de abril de 2026, revisada pela autora.