Mobilizar as pessoas comuns contra o fascismo e o imperialismo
A presidente do PSOL-Rio Grande do Sul fala sobre o contexto político que antecede a conferência.
Entrevista com Gabi Tolotti
De 26 a 29 de março, a cidade de Porto Alegre, no sul do Brasil será sede da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos. Como surgiu essa iniciativa de uma conferência internacional?
Estamos em meio a uma intensa disputa pelos rumos da sociedade. O povo brasileiro enfrentou a tragédia do governo Bolsonaro, extraindo lições importantes sobre o caráter autoritário de seu projeto. Através de uma intensa mobilização social e política, conseguimos derrotá-lo nas urnas. Porém o bolsonarismo ainda se mantém vivo na sociedade. Este, no entanto, não é um problema somente brasileiro, mas atinge direitos da classe trabalhadora e dos povos no mundo inteiro. A extrema direita governa ou se encontra em situação de chegar ao governo em quase toda a Europa. Em vários pontos do planeta demonstra a sua força e tensiona governos que se reivindicam democrático-populares e governos liberais de todos os tipos.
Neste momento é notório que a ascensão da extrema direita, vem acompanhada pelo surgimento de organizações claramente fascistas ou neofascista.
Porto Alegre, é uma capital de importantes tradições e aspirações democráticas, como o Fórum Social Mundial. Desta forma temos um terreno fértil para criar uma experiência de unidade entre forças com presença militante e relevância na sociedade, no campo eleitoral e no campo político e ideológico mais amplo, indicando como prioridade a luta contra a extrema direita em múltiplas frentes, com base em acordos de unidade política, respeitando as diferenças.
A conferência, inicialmente prevista para 2024, chamava-se então Conferência Antifascista. Por que essa mudança de nome?
Inicialmente, a conferência iria acontecer em 2024, mas a gente teve que adiar o projeto por conta das enchentes que aconteceram no Rio Grande do Sul, uma tragédia político-ambiental absurda. Mas a gente não abandonou a ideia de fazer esse evento pela necessidade histórica que ele traz consigo, uma resposta de organização entre aqueles que querem se articular para combater o crescimento do extremo direito, o fascismo, o neofascismo.
A gente, no primeiro chamado, era a primeira conferência internacional antifascista e agora é a primeira conferência internacional antifascista pela soberania dos povos.
Essa mudança é uma mudança política que vem no sentido de dialogar de forma mais ampla com duas ameaças muito profundas na sociedade. A questão do enfrentamento ao fascismo, óbvio, mas a forma como que o imperialismo tem ameaçado a soberania dos povos. Então, a gente teve essa mudança que, obviamente, com a invasão dos Estados Unidos à Venezuela, o sequestro do presidente Maduro, demonstra concretamente que foi uma ampliação acertada.
Além do sequestro do Maduro e da Síria Flores, que estão quase 50 dias sobre o sequestrado pelo governo dos Estados Unidos, ainda tem todas as ameaças que o governo tem feito a Colômbia, a Cuba, então a mudança do nome veio anterior a esses acontecimentos, mas demonstra na prática a necessidade dessa ampliação.
Quem está se somando?
Em 2024 a convocatória começou inicialmente com o PSOL, com o PT, com o PCdoB e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, a Durges e o Cepers que sãos sindicatos relacionados à educação. Com o apoio do Eric Toussaint, do CADTM, com quem o Comitê Local dialoga permanentemente, começamos a tecer relações com organizações do mundo inteiro e construir o caráter internacional do evento.
Agora para esse ano a gente já tem mais em torno de 100 entidades brasileiras convocando a conferência. Entidades importantes como o Andes como a CNTE. como o sindicato professor do Rio de Janeiro, várias jubileus das Américas são mais de 100 entidades convocantes e a gente além de ter essa convocatória brasileira a gente tem feito reuniões sistemáticas de um comitê internacional que reúne organizações e ativistas do mundo inteiro.
Internacionalmente, por iniciativa do CADTM, mais de 1200 ativistas assinaram uma Chamada internacional para reforçar a ação antifascista e anti-imperialista. Nem todos poderão estar presentes conosco em Porto Alegre, mas todos saudaram a iniciativa da conferência.
Então obviamente a conferência ganhou uma força ela já está bem estabelecida e a gente está trabalhando para que ocorra tudo bem aqui em Porto Alegre.
Como está sendo preparada?
Além do comitê local e do comitê internacional, alguns países e algumas cidades têm os seus próprios comitês. Então, por exemplo, na Argentina, que é uma delegação que vai vim com bastante peso pro Brasil, eles estão organizados num comitê argentino, que reúne dezenas de organizações argentinas, e a ideia é que eles venham com pelo menos dois ônibus, entre oitenta e noventa pessoas da Argentina pra Porto Alegre.
A gente tem um comitê no Chile, por exemplo. Estamos organizando pré-conferências em algumas cidades do país, por exemplo, no dia vinte e seis de fevereiro, vai ter uma em São Paulo. No dia vinte e oito de fevereiro, vai ter um, um em Pelotas, uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, e é dessa forma com que os comitês estão organizando as suas delegações para virem a Porto Alegre.
Quais serão os pontos fortes da programação:
A Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, ela conta com quatro formatos diferentes de atividades, que são todos bem importantes. Hã, vou falar um pouquinho de cada um, né? Eu acho que um dos pontos fortes da conferência vai ser a marcha de abertura, que vai ser realizada no dia vinte e seis de março, às dezoito horas, no centro de Porto Alegre, e a gente espera que ela seja mais ampla, inclusive, que os participantes da conferência, que ela reúna entidades, pessoas comuns do dia a dia, partidos políticos, personalidades, o povo da rua, pra compor essa marcha, que é uma marcha contra o fascismo, pela soberania dos povos, uma marcha que reúne as pessoas também por, por lutar por seus direitos. Então, a gente acredita que esse vai ser um dos pontos fortes da conferência.
Pra além disso, a gente vai ter dez conferências temáticas, que são dez mesas-eixos da conferência, que vão tá distribuídas entre a sexta-feira, o sábado e o domingo, que vão ser mesas que vão ter uma mistura, são dez debates-eixos com personalidades de todos os cantos do país. Então, no site a gente tem a programação completa de cada eixo temático. Esse é o-o, a parte dos debates, hã, são, é-é o outro ponto forte da conferência, obviamente.
Um outro formato que tem, é, são as atividades autogestionadas, que a organização abriu na programação horários para que as próprias organizações, hã, possam propor atividades, pessoas e organizações, porque os dez, as dez conferências-eixos, elas não vão dar conta da pluralidade, da diversidade de lutas e tarefas que as organizações que elas tão desenvolvendo, né, na sua atuação. Então, a gente abriu esse espaço pra que as próprias pessoas possam organizar suas atividades.
E, acoplado à conferência, antes das mesas oficiais, na quinta-feira, dia vinte e seis, a partir das duas da tarde, a gente vai ter o Fórum de Autoridades Antifascistas, que vai acontecer na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, hã, pra reunir pessoas, autoridades, organizações que têm experiência, hã, de gestão e de, e experiência institucional no combate ao fascismo e pelo fortalecimento da soberania dos povos
São esperados participantes do mundo inteiro, da América Latina e da América do Norte, da Europa, da Asia, da Oceania e da Africa. Por alguns uma viagem longa, cara...Vai ter opções de alojamento solidário?
A gente vai ter milhares de pessoas reunidas em Porto Alegre dos dias 26 a 29 de março. Obviamente, grande parte da delegação será brasileira, mas a gente vai ter algumas centenas de organizações e militantes de vários países do mundo. Isso monstra a riqueza e a qualidade da conferência e também nos abre novos desafios. Muitas viagens são caríssimas, o tempo de deslocamento, não tem como comparar a disponibilidade financeira de pessoas do sul global para pessoas de países que têm mais condições financeiras. Então, é todo um quebra-cabeça que a gente está montando. a gente tá tentando com todos os sindicatos e organizações aqui de Porto Alegre que disponibilizam o máximo possível de alojamento solidários para conseguir estadia para as organizações e ativistas dos países do sul global, países que têm mais problemas de financiamento das suas viagens, né?
Então, a gente já tem um acordo com o CPER Sindicato, que é um sindicato dos professores aqui do Rio Grande do Sul, dos educadores, na verdade, e eles vão disponibilizar algumas vagas, 80 vagas, que a gente já está em tratativas para que sejam destinadas à delegação da Argentina, que está fazendo um esforço muito gigante de trazer dois ônibus do seu país para cá. Além disso, a gente está buscando outras estadias mais baratas e estamos tentando suprir a necessidade de todas as pessoas que justifiquem a necessidade de uma estadia solidária. A gente não tem estadia para todas as pessoas ainda, mas a gente está se mobilizando para tentar chegar ao máximo possível.
Participantes da África e da Asia estão encontrando dificuldades enormes para obter o visto, até para simplesmente dar entrada num pedido de visto?
Sobre a questão dos vistos, a gente teve uma articulação, com o Ministério das Relações Exteriores. Duas deputadas federais do Rio Grande do Sul, Fernanda Melchionna e Maria do Rosário enviaram um ofício ao Itamaraty. A deputada Fernanda Melchionna atuou muito em reuniões com o Ministério de Relações Exteriores pra gente conseguir um visto de cortesia para os convidados internacionais que vêm ao Brasil, participar do evento. Então, a gente tá desenvolvendo e orientando os protocolos desse processo, mas já tem uma tratativa, um acordo com o Ministério das Relações Exteriores, pra que a gente tenha esse visto de cortesia pra todos aqueles que necessitam de visto e foram convidados a fazer parte da conferência.
E após o dia 29, após a assembleia geral?
A conferência de Porto Alegre vai constituir um marco importante num caminho muito mais longo. Esta sendo discutida agora uma “carta de Porto Alegre”, um chamado a luta sem descanso e da forma mais unida possível contra a ascensão da extrema direita e a agressão imperialista, dimensão essencial do nosso projeto emancipatório, socialista, ecologista, feminista, antirracista e internacionalista.
Le 17 février 2026
Propos recueillis et traduits par Luc Mineto.

