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Redesenho das zonas de influência, em detrimento dos povos 

por Éric Toussaint
Le président américain Donald Trump dépose une gerbe sur la tombe du soldat inconnu à l'occasion du Memorial Day.
Mapa múndi com cores diferentes para áreas de influência de China e Estados Unidos, antes do governo Trump

Desde o início de seu segundo mandato, Donald Trump vem redefinindo a estratégia internacional dos Estados Unidos segundo uma lógica brutal de relações de força entre as grandes potências. Ao mesmo tempo em que implementa simultaneamente várias iniciativas agressivas no Oriente Médio e nas Américas, seu governo iniciou um reposicionamento estratégico em relação à Rússia.

Eric Toussaint*

Longe de ser apresentada como o inimigo central da ordem mundial, Moscou é agora tratada como um adversário secundário com o qual seria possível chegar a um acordo. O objetivo de Washington é claro: impedir que a Rússia fortaleça ainda mais sua aliança com a China, considerada o principal rival sistêmico dos Estados Unidos (1). Trata-se de uma diferença em relação ao seu primeiro mandato e ao de Joe Biden, de 2021 a 2024.

Os documentos estratégicos publicados pelo governo Trump entre dezembro de 2025 e o início de 2026 confirmam essa virada, principalmente a Estratégia Nacional de Segurança dos EUA (NSS, da sigla em inglês). A Rússia é descrita neles como uma ameaça «persistente, mas administrável», enquanto os líderes europeus são acusados de exagerar o perigo que ela representaria e de alimentar expectativas irrealistas quanto ao desfecho da guerra na Ucrânia. Ao mesmo tempo, Washington afirma querer negociar um fim rápido da guerra sob sua égide.

Esse reposicionamento abre caminho para um cenário de graves consequências: um acordo entre potências imperialistas – os Estados Unidos e a Rússia – que poderia ocorrer em detrimento do povo ucraniano.

A política de Trump em relação à Rússia

Desde o início de seu segundo mandato, Donald Trump conseguiu que Vladimir Putin, além de protestos verbais, não reagisse aos atos de agressão perpetrados por Washington contra aliados de Moscou, seja na Venezuela ou no Irã, ou ainda em relação ao bloqueio total de Cuba aplicado desde o final de janeiro de 2026. Trump deu uma guinada em relação à política adotada durante seu primeiro mandato, no qual colocava a China e a Rússia no mesmo patamar, considerando-as adversárias que queriam questionar a ordem internacional dominada por Washington.

Donald Trump envia a Putin a mensagem de que está disposto a aceitar que Moscou use e abuse da força em seu entorno geográfico, notadamente na Ucrânia, da mesma forma que Washington faz nas Américas, no Oriente Médio e em outros lugares. Trump afirma seu direito de usar a força em qualquer parte do mundo e reconhece, de fato, o direito de Putin de fazer o mesmo em um perímetro mais limitado, que corresponde a uma parte do território do antigo Império Russo da época dos czares e da antiga União Soviética. Isso corresponde a uma lógica clássica de divisão implícita das zonas de influência entre grandes potências imperialistas.

Trump reduziu o apoio militar direto dos Estados Unidos à Ucrânia, transferindo o peso desse apoio para seus aliados da Europa Ocidental na OTAN. Em janeiro de 2026, ele convidou Moscou e seus aliados da Bielorrússia e da Hungria a fazer parte de seu Conselho Mundial da Paz.

Em 5 de março de 2026, Trump anunciou que permitiria temporariamente que a Rússia exportasse seu petróleo para a Índia sem sanções, país que o consome ou o reexporta para outras partes do mundo, incluindo a Europa. Uma das razões não declaradas é convencer a Rússia a se contentar em emitir protestos verbais contra a agressão maciça de Washington e de Israel contra o Irã, seu aliado.

Trump na íntegra

Trump revela uma série de posições sobre a Europa, a Rússia e a Ucrânia no documento sobre a nova estratégia de segurança nacional divulgado em 3 de dezembro de 2025. Ele considera que a UE e a Grã-Bretanha “desfrutam de uma vantagem considerável em termos de poder militar sobre a Rússia, e isso em quase todos os domínios, com exceção das armas nucleares” (2) e que os dirigentes europeus exageram a ameaça que a Rússia representa.

Assim, o documento afirma: 

“Na sequência da guerra travada pela Rússia na Ucrânia, as relações entre a Europa e a Rússia encontram-se hoje fortemente deterioradas, e muitos europeus consideram a Rússia uma ameaça existencial » (3).

Pela forma como o texto está redigido, pode-se deduzir que Trump está dizendo aos governos europeus que a Rússia não é uma ameaça existencial para eles. Em algumas ocasiões, Trump descreveu a Rússia como uma ameaça existencial, mas isso não é o caso nem no documento de estratégia de segurança nacional publicado em dezembro de 2025, nem no documento de estratégia de defesa nacional publicado no final de janeiro de 2026.

Trump considera que a UE e a Grã-Bretanha devem optar por uma abordagem diferente daquela adotada até agora nas negociações com a Rússia no que diz respeito às reivindicações desta última. Isso fica particularmente claro nesta passagem:

“A administração Trump discorda dos líderes europeus que têm expectativas irrealistas quanto ao desfecho da guerra, líderes esses que se entrincheiram em governos minoritários instáveis, muitos dos quais violam os princípios fundamentais da democracia para reprimir a oposição.” (4)

Vale lembrar que Trump afirma que os governos europeus reprimem os partidos patrióticos, ou seja, a extrema-direita neofascista (5). 

O texto de Trump prossegue:

“A grande maioria dos europeus deseja a paz, mas esse desejo não se traduz em ações políticas, em grande parte devido à subversão dos processos democráticos por esses governos.”

E acrescenta:

“Isso adquire importância estratégica para os Estados Unidos precisamente porque os Estados europeus não podem se reformar se estiverem atolados em uma crise política.” (6)

Isso significa que Trump declara que é do interesse dos Estados Unidos que os partidos patrióticos (ou seja, de extrema direita e neofascistas) estejam no governo, o que, segundo o atual governo, resolveria a crise política.

Há, evidentemente, na passagem anterior, uma rejeição muito clara em relação aos governos alemão, francês, britânico, espanhol, dinamarquês, polonês, etc. Por outro lado, isso reforça a posição do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán e do primeiro-ministro eslovaco Robert Fico, a quem Marco Rubio, ministro das Relações Exteriores dos Estados Unidos, foi visitar em fevereiro de 2026 após a conferência de Munique sobre a paz. Vale lembrar que esses dois governos são favoráveis à redução das sanções contra a Rússia de Putin e que expressam sua simpatia por Trump.

No que diz respeito às relações entre a UE, o Reino Unido, a Rússia e a Ucrânia, fica claro que Trump deseja permanecer no centro do jogo diplomático:

“A gestão das relações europeias com a Rússia exigirá um importante empenho diplomático por parte dos Estados Unidos, tanto para restabelecer as condições de estabilidade estratégica no continente eurasiano quanto para atenuar o risco de conflito entre a Rússia e os Estados europeus.” (7)

Também se pode deduzir da passagem anterior que, dada a superioridade militar dos países da UE e do Reino Unido sobre a Rússia, o reequilíbrio deveria ocorrer em benefício da Rússia. A mesma ideia encontra-se na passagem a seguir:

“É do interesse fundamental dos Estados Unidos negociar uma cessação rápida das hostilidades na Ucrânia, a fim de estabilizar as economias europeias, impedir uma escalada ou uma extensão involuntária da guerra, restabelecer a estabilidade estratégica com a Rússia e permitir a reconstrução da Ucrânia após as hostilidades, para que ela possa sobreviver como um Estado viável.” (8)

No trecho anterior, Trump reafirma que deseja um fim rápido das hostilidades e pressiona a UE, a Grã-Bretanha e a Ucrânia para que façam concessões à Rússia, tudo sob os auspícios de Washington.

A política de Trump em relação à Ucrânia

Trump não tem qualquer consideração pelo direito do povo ucraniano de defender sua soberania. Ora, se a invasão de fevereiro de 2022 foi amplamente frustrada, foi porque o povo ucraniano resistiu e demonstrou seu apego à soberania de seu país. Se o povo ucraniano não tivesse sido massivamente a favor da resistência, o envio de armas pelas potências ocidentais às autoridades de Kiev não teria sido suficiente para frustrar o plano inicial de Putin, que pretendia chegar com seu exército a Kiev, mudar o regime e tomar posse de uma parte significativa do território ucraniano, começando pelo leste do país. Afirmar isso deve andar de mãos dadas com a crítica à política neoliberal e nacionalista chauvinista do governo de direita de Zelensky, com a denúncia da OTAN e das ambições imperialistas de Trump e dos europeus sobre a Ucrânia. É importante também esclarecer que a Ucrânia não é uma potência imperialista.

Trump despreza totalmente o direito internacional e considera que pode, pela força, assumir o controle dos recursos petrolíferos da Venezuela ou do Irã após ter agredido militarmente esses países. Ele acredita que a Rússia de Putin pode, em seu entorno imediato, fazer o mesmo, desde que isso não prejudique os interesses norte-americanos na Europa Oriental. Trump está disposto a um acordo com Putin às custas do povo ucraniano. Putin pode manter ou assumir o controle de parte do território, da população e dos recursos naturais da Ucrânia se as empresas americanas obtiverem, em contrapartida, vantagens no restante do território ucraniano (9). Nessa condição, Washington estaria disposta a proteger as autoridades ucranianas enfraquecidas e o território sobre o qual elas manteriam o controle, desde que as autoridades de Kiev permitam que as empresas americanas acumulem o máximo de lucros (10). O que Trump propõe é um acordo entre duas potências imperialistas predatórias, os Estados Unidos e a Rússia, que concordam em violar o direito dos povos à autodeterminação e ao exercício da soberania sobre seus territórios e sobre os recursos naturais neles existentes. As potências imperialistas europeias são amplamente deixadas de lado por Trump, embora também busquem promover seus próprios interesses e os de suas grandes empresas privadas que cobiçam os recursos naturais, as terras e o mercado ucranianos. 

A posição de Trump em relação à Rússia

A Rússia não é mais tratada como o inimigo central da ordem mundial. Trump considera que os governos anteriores cometeram o erro de favorecer a formação de um bloco entre a Rússia e a China, o que fortaleceu a posição da China. Trump deseja separar a Rússia da China ou, pelo menos, reduzir os laços entre essas duas potências. Washington, que designa a China como seu principal adversário sistêmico, tenta, portanto, reduzir a propensão da Rússia de fortalecer seus laços com ela (11). A NSS 2025 considera a Rússia um adversário militar sério, mas estrategicamente secundário, a ser contido sem transformá-lo em inimigo civilizacional, a fim de concentrar os recursos (militares e econômicos) dos Estados Unidos para combater a China.

A reação do Kremlin à publicação da NSS 2025

Dmitri Peskov, porta-voz do presidente russo, comentou o documento de estratégia de segurança nacional durante uma entrevista concedida ao jornalista estatal russo Pavel Zarubin, em 7 de dezembro de 2025, para o canal Rossiya 1, amplamente divulgada pela mídia russa, como Interfax, Fontanka ou Tass:

“Os ajustes introduzidos na estratégia nacional de segurança dos Estados Unidos correspondem em grande parte à nossa visão.” (12)

A agência de notícias Interfax, por sua vez, escreveu em 7 de dezembro de 2025:

“O Kremlin saudou as formulações relativas à OTAN na estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos. Medvedev vê na nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos uma tentativa de melhorar as relações com a Rússia. O Kremlin saúda as formulações da estratégia de segurança nacional americana atualizada relativas ao congelamento da expansão da OTAN, mas acompanhará de perto a implementação concreta desse documento.” (13)

A Rússia como ameaça, entre Trump I e Trump II

Na «Estratégia Nacional de Defesa 2026», divulgada no final de janeiro de 2026 (NDS 2026), a Rússia é identificada como «uma ameaça persistente, mas controlável» para a OTAN, uma mudança favorável à Rússia em relação aos qualificativos mais alarmantes dos documentos anteriores, que designavam a Rússia como “potência revisionista” (revisionist power), durante o primeiro mandato de Trump em 2017 (14), e como “ameaça imediata à ordem internacional” (15) e “ameaça grave” em 2022, durante a presidência de Joe Biden. A NSS 2022 do governo Biden afirmava que a Rússia « rompeu a paz na Europa ». Na linguagem estratégica do governo dos Estados Unidos, « potência revisionista » designa um Estado que busca alterar as regras, as instituições ou o equilíbrio de poder da ordem internacional existente, dominada pelos Estados Unidos. Nos documentos da primeira administração Trump e da presidência de Biden, a Rússia e a China eram apresentadas como potências revisionistas.

Aqui estão alguns trechos da NDS 2026 que dizem respeito à Rússia: “A ameaça militar russa concentra-se principalmente na Europa Oriental”; “Moscou não está em condições de estabelecer como objetivo exercer sua hegemonia sobre a Europa. A OTAN europeia supera a Rússia em termos de economia, população e, consequentemente, de poder militar latente”; e “Felizmente, nossos aliados da OTAN são claramente mais poderosos do que a Rússia, que está muito atrás. Só a economia alemã já supera a da Rússia”. (16) 

Os pontos em comum entre Trump e Putin

Apesar de suas rivalidades geopolíticas, Donald Trump e Vladimir Putin compartilham um conjunto significativo de posições ideológicas e políticas. Ambos se caracterizam por um anticomunismo declarado e por um apoio incondicional ao sistema capitalista, incluindo suas formas mais brutais de exploração da mão de obra e dos recursos naturais.

Trump e Putin são nacionalistas que afirmam a primazia dos direitos da nação dominante da qual fazem parte. Trump apoia os supremacistas brancos e afirma a primazia dos interesses dos norte-americanos em relação às nações estrangeiras, que ele não hesita em tratar com termos racistas. Putin defende um chauvinismo grande-russo e critica Lenin pela “criação” (sic) da Ucrânia e pelo reconhecimento de seu direito à separação da URSS no início da década de 1920.

Eles também defendem uma política energética baseada na exploração intensiva de energias fósseis, contribuindo assim para o agravamento da catástrofe ecológica mundial em curso.

No plano social, suas posições convergem para orientações homofóbicas e hostis aos direitos das pessoas LGBTQIA+, acompanhadas pela promoção de valores conservadores apoiados em uma visão reacionária do cristianismo.

No âmbito internacional, tanto Trump quanto Putin privilegiam o uso da força militar para impor seus objetivos políticos e econômicos, em desrespeito ao direito internacional. Essa orientação vem acompanhada de um apoio determinado ao rápido e massivo desenvolvimento das indústrias de armamento, bem como ao uso crescente do poder militar.

Suas políticas externas também se baseiam no uso repetido de pretextos contestáveis ou infundados para justificar o recurso à força. Além disso, ambos cultivam um chauvinismo de grande potência e um nacionalismo exacerbado, características de projetos políticos autoritários.

Por outro lado, mantêm relações estreitas com as forças de extrema direita europeias, que, por sua vez, demonstram forte simpatia por eles.

Donald Trump, por outro lado, dá apoio total ao governo israelense liderado por Benjamin Netanyahu, que é neofascista e responsável por um genocídio em Gaza. Vladimir Putin, por sua vez, mantém relações cordiais com Netanyahu e dá continuidade às exportações russas para Israel – carvão, petróleo e cereais – sem questionar os acordos comerciais existentes (17).

Putin também aceitou o princípio da criação de um Conselho Mundial presidido por Trump e deseja que a Rússia seja membro. Nesse contexto, ele solicita aos Estados Unidos que suspendam o congelamento dos ativos russos para que a Rússia possa pagar a contribuição de um bilhão de dólares exigida para se tornar membro permanente do órgão, considerado por seus detratores como totalmente ilegítimo.

Trump e Putin fazem uso extensivo e controverso do termo “genocídio”, ao mesmo tempo em que se recusam a reconhecer ou denunciar o genocídio do povo palestino. Trump afirma, assim, que o governo de Pretória seria responsável por um “genocídio dos brancos” na África do Sul, enquanto Putin sustenta que o governo de Kiev estaria conduzindo um genocídio contra as populações russas na Ucrânia.

Além dessas convergências ideológicas e geopolíticas, Donald Trump e Vladimir Putin também apresentam semelhanças marcantes na maneira como exercem e concebem o poder. Ambos privilegiam uma forte personalização da liderança, centrada na figura de um líder apresentado como a encarnação direta da nação e de sua vontade. Seu discurso político baseia-se regularmente em uma retórica que opõe “o povo” às elites políticas, midiáticas ou econômicas, acusadas de trair os interesses nacionais. Nesse contexto, eles manifestam uma desconfiança acentuada em relação às instituições multilaterais e ao direito internacional quando estes são percebidos como obstáculos aos seus objetivos estratégicos. Além disso, suas práticas políticas vêm acompanhadas de uma crítica constante aos meios de comunicação considerados hostis e de um uso intensivo de estratégias de comunicação que visam contornar ou deslegitimar os contrapoderes institucionais. Esses elementos contribuem para inscrever seus projetos políticos em uma concepção fortemente personalizada, imperialista e autoritária neofascista do poder. 

Quais são as diferenças entre Trump e Putin?

Uma diferença que merece destaque reside na abordagem que ambos têm da guerra e do uso direto da força militar. Donald Trump está convencido de que é possível vencer conflitos sem o envio duradouro de tropas americanas ao terreno, privilegiando a superioridade tecnológica, os ataques à distância e operações militares limitadas no tempo, com perdas humanas praticamente nulas do lado americano.

Por outro lado, Vladimir Putin optou por uma estratégia radicalmente diferente com a invasão militar em grande escala da Ucrânia em 2022, envolvendo o envio de forças terrestres em grande número e resultando em baixas humanas extremamente elevadas, tanto do lado russo quanto do lado ucraniano.

Outra diferença fundamental diz respeito ao lugar de seus respectivos Estados na hierarquia mundial do capitalismo. Donald Trump lidera a principal potência econômica e militar capitalista e imperialista do planeta, os Estados Unidos. Vladimir Putin, por sua vez, está à frente de uma potência capitalista imperialista secundária, enfraquecida e em relativo declínio, mas que continua sendo um ator estratégico de grande importância devido à posse de um arsenal nuclear globalmente comparável ao dos Estados Unidos.

Por fim, suas ambições geopolíticas diferem em sua escala de intervenção. A política imperialista conduzida por Trump visa o planeta inteiro, enquanto a de Putin concentra-se prioritariamente no espaço pós-soviético e sua periferia imediata, mesmo que a Rússia tenha tentado estender sua influência a outras regiões, como na Síria – onde, no entanto, sofreu um revés com a queda do regime de Bashar al-Assad.

Trump e os EUA têm interesse num rápido fim da guerra na Ucrânia?

Nesta altura do ano, Trump, ao contrário do que afirmava durante a campanha eleitoral ou no início de seu mandato, não tem como prioridade pôr fim à guerra na Ucrânia por várias razões.

De fato, a continuidade da guerra torna mais credível o argumento dos Estados Unidos para que os aliados europeus da OTAN continuem a aumentar significativamente seus gastos militares, o que favorece as exportações de armas das grandes empresas privadas americanas.

Além disso, Washington conseguiu um acordo muito favorável aos seus interesses com os países europeus da OTAN. Estes compram dos Estados Unidos as armas que fornecem à Ucrânia e que são utilizadas intensivamente enquanto a guerra aberta continuar. Trump praticamente pôs fim a novos fornecimentos diretos de armas à Ucrânia.

A continuação da guerra também desvia, em parte, a atenção das agressões perpetradas pelos Estados Unidos sob o comando de Trump no resto do mundo.

A continuação da guerra na Ucrânia e o esforço que isso representa para a economia russa e sua população impedem Putin de mobilizar forças militares em outros continentes.

E, finalmente, em 5 de março de 2026, Trump aliviou as sanções contra a Rússia no que diz respeito à venda de petróleo, a fim de convencê-la a não tomar nenhuma medida contra a agressão ao Irã e contra o bloqueio total imposto a Cuba desde o final de janeiro de 2026. Isso permite que Putin aumente suas receitas de exportação e mantenha o esforço de guerra na Ucrânia. 

Conclusão

Em suma, a política conduzida por Donald Trump em relação à Rússia insere-se numa lógica clássica de rivalidade entre grandes potências: reduzir a aproximação entre Moscou e a China, manter os Estados Unidos no centro do jogo diplomático e fazer com que os países europeus arquem com o custo principal da guerra na Ucrânia. Por trás do discurso oficial que clama por um rápido fim das hostilidades, Washington não tem necessariamente interesse em uma paz imediata.

Nesse contexto, não se pode excluir a possibilidade de um acordo entre Washington e Moscou às custas do povo ucraniano. As convergências ideológicas e políticas entre Donald Trump e Vladimir Putin – apego a um capitalismo autoritário, nacionalismo de grande potência, militarismo, desprezo pelo direito internacional e proximidade com forças de extrema direita – facilitam essa lógica de relações de força entre Estados.

Além de suas rivalidades e diferenças de poder, os dois líderes compartilham uma mesma visão de mundo. Nessa configuração, os povos – e, em primeiro lugar, o povo ucraniano – correm o risco de ser as principais vítimas de um novo equilíbrio geopolítico baseado na divisão de zonas de influência.

Mas não se deve excluir uma possível mudança de rumo de Trump no futuro. Se ele não conseguir o que quer nas negociações com Putin, é capaz de adotar uma postura muito mais dura e de designar a Rússia como uma ameaça muito mais séria do que o que está dito nos documentos que acabamos de analisar.

O que é certo é que as negociações entre Trump e Putin não levam em conta os interesses e os direitos dos povos. É preciso construir, a partir da base, uma solidariedade entre os povos para reforçar a resistência à ascensão do neofascismo e ao aumento das agressões imperialistas, de onde quer que venham. (16 de março de 2026)