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Suíça sacudida por greves amplas contra austeridade

por Antoine Larrache
Grevistas na recente onda de mobilizações na Suíça
No país outrora marcado pela "paz trabalhista", uma onda de greves fortes e intersetoriais
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O país do chocolate e do paraíso fiscal aplica, desde 1937, a doutrina conhecida como «paz laboral», que prevê que o conflito entre o capital e o trabalho deve ser resolvido através da negociação e da adoção de convenções coletivas de trabalho, limitando ao extremo a possibilidade de organização de greves. No entanto, a Suíça, sobretudo a Romandia, viveu no outono um importante movimento de greves nos setores público e para-público contra os orçamentos de austeridade. Este é o tema desta entrevista, concedida a Anouk Essyad por Kelmy Martinez, assistente social, militante da SolidaritéS e da Federação Sindical SUD.

 

A mobilização começou em Friburgo, estendendo-se a Genebra e, sobretudo, a Lausanne, onde o movimento atingiu a sua maior amplitude. Podes falar-nos sobre a amplitude das mobilizações?

O movimento começou em Friburgo em outubro, com uma greve dos trabalhadores do setor público e para-público contra um programa de austeridade. Este foi aprovado, mas o sindicato dos serviços públicos e o Partido Socialista de Friburgo lançaram um referendo, o que significa que os cidadãos de Friburgo votarão sobre este orçamento em abril. Este referendo obrigou, aliás, o Estado de Friburgo a iniciar o ano sem orçamento.

Em Genebra, a mobilização construiu-se a nível municipal, contra um orçamento comunal igualmente de austeridade, que incluía um congelamento salarial e a suspensão da criação de novos postos de trabalho. No cantão de Vaud, onde a mobilização foi mais massiva, o movimento organizou-se muito rapidamente, também contra um orçamento cantonal de austeridade. Poucos dias após o anúncio do orçamento, Lausanne viveu uma manifestação gigantesca, com cerca de 15 000 pessoas nas ruas, ou seja, quase 5 % da população que habita na cidade e nos seus aglomerados. É algo inédito.

Esta manifestação foi seguida por vários dias de greve renovável, entre outubro e 17 de dezembro, e por várias manifestações com grande afluência. Conseguimos abranger um leque muito vasto: diferentes graus de radicalismo, diferentes categorias profissionais e diferentes orientações políticas puderam construir o movimento em conjunto. O caráter unitário da mobilização, que se organizou numa intersindical, permitiu esta forma e esta força.

Já nas primeiras manifestações, apontávamos o dedo à hipocrisia do Conselho de Estado (nome do executivo do cantão), cujos membros se deslocaram de limusina a Davos para o Fórum Económico Mundial, enquanto exigiam sacrifícios por parte dos trabalhadores já sob pressão. Uma medida que deu muito que falar e que, infelizmente, desviou um pouco a atenção do resto do pacote orçamental: trata-se daquilo a que chamaram de «contribuição de crise», um corte de 0,7% nos salários da função pública.

Mas esta medida escandalosa permitiu mobilizar categorias profissionais que normalmente não se mobilizam, como os serviços de acolhimento diurno. As greves também tiveram uma adesão particularmente elevada nas escolas. É preciso referir ainda que vários grupos e associações profissionais, por vezes bastante corporativistas, aderiram ao movimento, sem por isso fazerem parte da intersindical. O movimento abriu espaço a todos e foi isso que lhe conferiu força.

 

Nos três casos, tratava-se de combater orçamentos cantonais ou municipais que previam es cortes massivos nas despesas. Existe também um plano de austeridade a nível federal. Quais foram os argumentos contra este orçamento?

Como disseste, também estão previstos cortes a nível federal em todos os domínios, exceto no exército. A nível do cantão de Vaud, é a mesma coisa, estão a cortar tudo à serra. No meu dia a dia como assistente social, já vejo a população a ficar em situação de precariedade. No serviço social da zona oeste de Lausanne, nunca tivemos tantos processos abertos na assistência social. Não só temos mais processos, como temos situações cada vez mais complexas, com pessoas que se encontram em situações de precariedade monstruosas. É esse o preço destas políticas de austeridade, que cortam em prestações sociais essenciais que permitem às pessoas, se não viver com dignidade, pelo menos manter a cabeça acima da água. Até estas medidas estão sendo atacadas.

Como assistente social, o que mais me marcou foi a redução dos subsídios ao seguro de saúde. Na Suíça, este seguro é simultaneamente obrigatório e privado, gerando lucros avultados para as companhias de seguros. Os prémios aumentam todos os anos e são verdadeiramente exorbitantes, sem que garantam o acesso aos cuidados de saúde, uma vez que é necessário pagar ainda uma franquia. Há cerca de dez anos que o cantão de Vaud compensa parcialmente os rendimentos mais modestos através do pagamento de subsídios ao seguro de saúde – o que, na realidade, consiste em transferir dinheiro público para as caixas privadas. Mas mesmo estes subsídios são postos em causa por este orçamento. Este último também faz cortes nas instituições de acolhimento e cuidados a idosos, bem como para pessoas com deficiência. Mas, como disse, à medida que mais mobilizou foi aquela que afetava diretamente os trabalhadores, ou seja, a redução salarial e a não renovação de certos cargos.

 

A solidaritéS tem combatido, nos últimos anos, várias reduções significativas da tributação das empresas. O que podes dizer sobre a atitude do Partido Socialista?

Nos últimos anos, o Partido Socialista não combateu estas reformas a favor das empresas e das maiores fortunas; chegou mesmo a defendê-las, em nome de uma política de compromisso. Tentaram vender-nos a sua ação no executivo, onde trocaram esta redução massiva da tributação das grandes empresas por um pequeno financiamento do AVS (seguro de velhice e sobrevivência). E hoje, o PS lamenta a política levada a cabo pelo Estado, quando participou nela e continua a participar com as suas conselheiras de Estado Nuria Gorrite e Rebecca Ruiz.

Participa nas manifestações com as suas bandeiras e vangloria-se de estar na oposição, quando quase um terço dos seus deputados votou a favor do orçamento! Em suma, o PS tem dificuldade em assumir as suas posições e em defender o seu balanço de «compromissos» com a direita. Na verdade, preparou o terreno para a direita ao legitimar esse discurso sobre os cofres vazios do Estado. Mas isso é um mito, como demonstrou o nosso camarada Sébastien Guex numa conferência durante o movimento: não só austeridade foi imposta por meio de sucessivas reduções fiscais, como, mesmo nesta situação e após essas quedas nas receitas fiscais, a situação financeira do Estado de Vaud continua idílica em comparação com outras autarquias.

 

O Conselho de Estado de Vaud atravessa, paralelamente, uma grave crise política, ligada à aplicação ilegal de um “escudo fiscal” pela conselheira de Estado “centrista” Valérie Dittli, e a vários casos de corrupção que a visam. Como é que estes casos foram recebidos no seio do movimento?

Para começar, o conceito de escudo fiscal é absurdo. Trata-se de um mecanismo que permite reduzir, caso a caso, o imposto sobre o património para evitar o que as autoridades chamam de tributação excessiva. O que está em jogo, segundo nos explicam, é evitar, na concorrência fiscal que os cantões travam entre si, que os contribuintes mais abastados abandonem o cantão. Ora, um perito independente constatou que foi aplicado ilegalmente entre a sua entrada em vigor em 2009 e 2021. Concretamente, o cantão renunciou, de forma totalmente ilegal, a tributar alguns dos contribuintes mais abastados, o que representou uma perda estimada em mil milhões de francos. 2009 é muito antes do início do mandato de Valérie Dittli e remonta, portanto, ao seu antecessor liberal-radical Pascal Broulis.

Penso que esta situação alimentou uma certa desconfiança em relação ao governo, o que é bastante invulgar na Suíça. Este ano, assistimos ao surgimento de dissidências internas no Conselho de Estado, o que nunca acontece no nosso sistema, onde os executivos são colegiais (o que leva o Partido Socialista a defender medidas de direita). Penso que isso contribuiu para que o movimento de greves ganhasse tanta força: é particularmente malvisto permitir-se esse tipo de liberdades e depois exigir austeridade aos trabalhadores.

 

A Suíça, país da «paz no trabalho», não costuma viver greves, e muito menos greves interprofissionais. Como é que o movimento se construiu e quais são os seus ganhos?

Na Suíça, para que uma greve seja lícita, é necessário que diga respeito às relações laborais propriamente ditas e que constitua um último recurso. Assim, durante a greve feminista de 2019, um dos grandes desafios da mobilização foi traduzir as reivindicações feministas em reivindicações concretas específicas de cada local de trabalho, para que a mobilização fosse possível, o que sem dúvida contribuiu para o seu sucesso.

O papel dos movimentos dos últimos anos – em particular a greve feminista, a greve pelo clima, as mobilizações contra a violência policial racista ou contra o genocídio em Gaza – é importante na construção do caráter massivo do movimento. Na minha opinião, houve uma viragem em 2019: tornou-se «cool» ir a manifestações, a própria palavra «greve» foi popularizada e o ato de se mobilizar tornou-se comum. Tudo isto contribuiu para a construção de uma consciência de classe. Além disso, entretanto, houve a inflação. Cada vez mais pessoas são afetadas pela precariedade, pelo aumento das rendas ou dos prémios de seguro de saúde.

No que diz respeito ao movimento que nos interessa, o Conselho de Estado recusou desde o início qualquer diálogo com os sindicatos. Tentou impor a sua vontade à força. Perante a amplitude da mobilização, recuou na contribuição de solidariedade (a redução de 0,7% dos salários), adiando os cortes para outras áreas. Tentou, sem sucesso, uma manobra de intimidação, declarando a greve ilegal após este anúncio, o que não se enquadra nas suas prerrogativas, uma vez que é parte interessada no conflito! Apesar da mobilização, o orçamento foi aprovado pelo Grande Conselho por maioria da direita e, como referi, foi votado por uma parte significativa dos deputados socialistas e dos Verdes.

Apesar disso, a intersindical mantém-se, continuam a ser organizadas assembleias gerais. E esta mobilização marcou as pessoas que nela participaram, deixa marcas. Não desistimos, sobretudo porque sabemos que o Estado já prevê um novo orçamento de austeridade para 2027. Além disso, o Conselho de Estado decidiu finalmente reunir-se com os sindicatos após ter aprovado o orçamento. O encontro, evidentemente, não deu em grande coisa. Como poderia haver algo para negociar agora que o orçamento foi aprovado? Temos de continuar a mobilizar-nos pelos nossos serviços públicos.

 

Participaste na criação, juntamente com outros camaradas, de um comité «Não toques nos meus serviços públicos», que criou um fundo de greve. Por que razão era importante envolver também os utilizadores dos serviços públicos?

Como assistente social, faz quase parte da minha identidade profissional esta ideia de que os utilizadores participam e não são apenas objetos da nossa ação. De forma mais ampla, o objetivo era alargar a contestação e mostrar que a austeridade afeta toda a gente, não apenas os trabalhadores do setor público e para-público. A ideia era também contrariar o discurso que vimos surgir na imprensa burguesa, segundo o qual a mobilização seria apenas dos professores privilegiados, e mostrar que o movimento envolvia toda a população. O montante angariado foi repartido entre as três componentes da intersindical para ser entregue aos grevistas.

Penso que este comité conseguiu dar início a algo, mesmo que tenha sido lançado relativamente tarde. Continuamos, aliás, a reunir-nos e continuaremos a tentar alargar as mobilizações futuras.

 

Juntamente com outros camaradas, concorres na lista da Ensemble à Gauche [coligação da qual faz parte a solidaritéS] às eleições para o conselho municipal. Como vês a articulação entre esta campanha e a mobilização contra a austeridade?

A cidade de Lausanne é um pequeno reduto de resistência de esquerda num cantão bastante de direita. Tenho a convicção de conduzir uma campanha positiva, e acredito que é isso que estamos a fazer: criar uma utopia, mostrar o que podemos conquistar, em questões de rendas, de transportes públicos gratuitos. Perante o rolo compressor da austeridade, é preciso também trazer esperança e alegria.

O desafio é continuarmos a ser os porta-vozes das mobilizações nos parlamentos – algo que os nossos camaradas deputados no Grande Conselho fizeram muito bem durante a votação do orçamento. A campanha permite-nos também dar visibilidade às contradições do Partido Socialista, que se contenta em reivindicar medidas cosméticas enquanto trabalha de mãos dadas com a direita. É um momento verdadeiramente interessante: o ímpeto das mobilizações também animou esta campanha. Há muitas adesões, muitas pessoas mobilizam-se, vêm distribuir panfletos conosco, fazer porta-a-porta.

Paralelamente a esta campanha a nível municipal, lançámos uma candidatura de combate – a nossa camarada Agathe Raboud Sidorenko – ao Conselho de Estado. Há, de fato, uma eleição suplementar na sequência de uma demissão. Contra ela, há um peso-pesado do Partido Socialista – que reivindica a sua experiência em matéria de compromissos – e uma figura do partido de extrema-direita UDC, apoiada por toda a direita. Penso que os dois meios – a rua e as campanhas eleitorais – são complementares. A raiva ruge, e continuará a rugir por muito tempo.  (10 de fevereiro de 2026)