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América Latina refém dos EUA de Trump

por Ana Cristina Carvalhes
Delcy Rodríguez recebendo chefe da CIA, dias depois do sequestro de Maduro: Venezuela neocolonial, caso mais extremo da ingerência generalizada dos EUA na região

Maior região das Américas, chamada pelo neofascista em poder na Casa Branca de “hemisfério ocidental”, é a única parte do planeta onde Trump consegue avanços significativos em direção aos objetivos de sua política nacional de segurança.

Trump tem sérios problemas no front doméstico, onde se dedica a reduzir a dimensão da provável derrota nas eleições parlamentares de meio de mandato, em novembro. Tudo demonstra que não só perdeu popularidade em casa com a deflagração da guerra contra o Irã, em sociedade com o comparsa Netanyahu, como saiu perdendo o conflito mesmo – neste momento a Casa Branca se esforça por disfarçar a humilhante derrota. No terreno econômico, sua guerra tarifária contra o mundo ainda não obteve (e pode não obter) os resultados macroeconômicos que poderiam beneficiá-lo – em particular a queda nos preços e a utópica volta das indústrias que os EUA exportaram nos últimos 35 anos. No estratégico âmbito da competição tecnológica com a China, as coisas parecem perigosamente empatadas, apesar das abrangentes medidas de proteção de seus chips e IAs – à qual Pequim responde com um discurso conciliador que não disfarça as medidas de retaliação à base do “olho por olho, dente por dente”.

A única região do planeta onde Trump e seus amigos bilionários, além a extrema direta global, podem comemorar avanços é, sem dúvida, naquela grande América que fica abaixo do mexicano Rio Bravo (que os ianques insistem em chamar de Rio Grande). A América Latina está sob assédio, até agora vitorioso, dos ataques colonialistas e autoritários do mandatário do mundo. O imperialismo hegemônico vem marcando ponto atrás de ponto, na direção de construir o “Escudo das Américas”. A situação não seria possível sem o apoio mais ou menos entusiasmado de amplos setores das oligarco-burguesias dos países latino-americanos, em giro visível ao neofascismo.

O pretendido escudo é assumidamente uma “muralha” de governos aliados de extrema direita capazes de abrir territórios às corporações e tropas dos EUA, aplicar planos de ajuste ultraliberais a serviço das burguesias locais mais retrógradas, anular conquistas democráticas e econômicas. O objetivo é erradicar qualquer memória de progressismo, com políticas sociais, respeito aos Direitos Humanos e alguma ousadia soberana. Somente este mês, Trump e a extrema direita conseguiram três importantes vitórias na região. Ou, do ponto de vista oposto, os movimentos sociais e a esquerda perderam três seguidas, duas eleitorais – Peru e Colômbia – e a terceira no embate direto, na Bolívia. 

O imperialismo hegemônico já tem a América Central e o Caribe invadidos por contingente militar inédito, por meio do qual mantém, junto com aliados como Bukele e o panamenho Mulino, a total hegemonia nos arredores, onde tenta asfixiar Cuba para fazê-la ceder ainda mais na restauração capitalista – o que o último plano econômico anunciado pelo PC cubano parece cumprir à risca. 

Os estrategistas de Trump incluem no Grande Caribe a Colômbia e a Venezuela – neste momento abalada por terremotos tão avassaladores quanto a incompetência do regime-fantoche de Rodríguez para dar resposta à tragédia. A terra da revolução bolivariana tornou-se um protetorado colonial desde janeiro e a Colômbia estará em breve sob o governo de um extremista outsider a la Bolsonaro e Milei. Com a estreitíssima vitória eleitoral de Keiko Fujimori no Peru, a direita e a extrema direita pintam a América do Sul com as sombras de governos que só vão aprofundar a superexploração, corrupção, as privatizações, entrega de territórios, depredação ambiental, roubo de recursos e muita repressão.

Sem desmerecer para nada essa realidade difícil e o retrocesso que esses governos representam para o bem viver dos povos da região, é preciso observar mais de perto as contradições. E responder à pergunta: essas vitórias recentes garantem ao imperialismo um “hemisfério ocidental” pacificado, estável, subserviente? A julgar pelo Peru e a Colômbia, a hipótese mais provável é que não: em ambos os processos a esquerda e os movimentos surpreenderam. No Peru, sequer se imaginava, antes da campanha eleitoral, a possibilidade de um representante progressista do “país profundo” no segundo turno – embate que terminou praticamente empatado, projetando a continuidade da tremenda crise de regime vivida há décadas pelo país andino. Na Colômbia, além da probabilíssima fraude e da intervenção descarada do imperialismo na campanha eleitoral, com apoio financeiro e tecnológico para a onda de desinforma, tudo foi facilitado por um sistema político privatizado. Mas nunca um polo de esquerda esteve tão unido numa mesma candidatura e com tamanha votação, o que projeta uma vida difícil para o governo de La Espriella.

Na Bolívia, o resultado é mais negativo; houve a derrota de um levante camponês indígena, operário-popular, pela primeira vez em décadas conduzido por forças (fragmentadas) diferentes do velho e unitário Movimento al Socialismo (MAS). É cedo para conclusões definitivas, mas essa fragmentação, produzida pela autofagia de lideranças do velho partido-movimento, e a dificuldade incomensurável de derrubar um governo eleito (de direita, mas eleito) quando os ventos da região sopravam muito desfavoráveis, imporão aos protagonistas do levante refletir sobre se, no contexto regional, não teria sido mais prudente recuar organizadamente antes, quando o movimento tinha em mãos a valiosa vitória de ter barrado os decretos neoliberais para preços e para a propriedade da terra.

O próximo grande embate já começou, no Brasil. México, Brasil e Uruguai são os três países latino-americanos neste momento com governos de alguma forma à esquerda. É decisivo para a extrema direita global, e para Trump em particular, derrotar Lula nas eleições de outubro. Não pode haver dúvidas de que Trump e as Big Tech vão repetir no Brasil a guerra de desinformação que alimentaram na Colômbia. O chefe do imperialismo ianque já declarou apoio, com direito a foto e posts, a Flávio Bolsonaro, o filho mais velho do ex-presidente golpista que é o único candidato direitista viável. Mais que isso: os EUA tentam disputar diretamente o voto dos brasileiros no tema da segurança pública, declarando duas organizações criminosas com base no Brasil como “organizações terroristas”, além de ter reforçado, com base na legislação comercial americana, a guerra de tarifas contra os produtos do país.

A ingerência direta dos EUA nos assuntos do Brasil não é bem-vista no país, nem mesmo em setores do eleitorado de Bolsonaro Filho. Mas as fragilidades e limitações dos governos do PT e de Lula em particular (como a de apoiar a Rodrigo Paz no momento-auge da revolta popular boliviana e não se livrar rapidamente e sem clemência de seus membros com vínculos com o escândalo financeiro do momento) vão cobrar seu preço na campanha eleitoral. Nada disso, no entanto, pode impedir toda a esquerda, progressistas e setores democráticos da América Latina e do mundo de estar ao lado da candidatura de Lula a mais um mandato, contra a volta do neofascismo verde-amarelo e internacional. Assim como os avanços do governo cubano na restauração capitalista não nos impedem de estar incondicionalmente com Cuba em sua luta pela soberania contra o gigante do Norte.

Na América Latina, mais que em qualquer outro rincão da Terra neste momento, o tema da soberania nacional contra o imperialismo é um eixo organizador do programa de resistência ao neofascismo. Que o Pacto Histórico da Colômbia, agora um partido legalizado e com apoio de metade do país; que a esquerda ampla do Peru, da Argentina, do Chile, do México, e os resistentes na heroica Venezuela e na América Central saibam dar-se as mãos e o apoio no novo período de luta que começa contra os governos de extrema direita (ou qualquer subserviente a Trump) já empossados. Torcendo, como se fosse nossa, pela vitória eleitoral contra Trump nas eleições de meio de mandato em novembro.