Revista e site sob a responsabilidade do Bureau Executivo da IV Internacional.

Elfriede Müller (1957–2026), uma lutadora incansável

por Friedrich Dorn
Elfriede Müller
Elfriede tornou-se militante na França aos 17 anos, trabalhou em livrarias e se tornou tradutora

Elfriede Müller foi uma pensadora política apaixonada, uma militante, uma internacionalista, uma companheira de luta e uma amiga sincera que soube reunir tantas pessoas. Elfi lutou contra o câncer e por uma sociedade mais justa até o fim. Este artigo, extraído da tradução de Pierre Vandevoorde para a Europe Solidaire Sans Frontière, foi publicado originalmente no Sozialistische Zeitung.

Elfi, como ela mesma se apresentava e como todos os seus entes queridos a chamavam, nasceu em 8 de agosto de 1957 em Mainz. Lá ela cresceu, fez um curso de livraria e trabalhou em uma livraria de livros antigos. Depois, fez uma segunda formação em Estrasburgo. De 1980 a 1987, trabalhou em com livros de arte em Paris. Em 1987, voltou para a Alemanha para estudar História e Literatura.

Tornou-se militante aos 17 anos na França, onde ingressou na Liga Comunista Revolucionária (LCR); os debates, as atividades e a produção teórica da “Liga” e do seu entorno a marcaram profundamente.

Uma tradutora incansável

Há mais de 30 anos, em 1993, Elfi mudou-se para Berlim. Lá, ela atuou como “responsável pela criação artística no espaço público” para a associação profissional de artistas plásticos de Berlim. Ela ocupou esse cargo até julho de 2024, quando se aposentou. Organizou uma grande festa para comemorar seu aniversário e estava feliz por ter agora muito mais tempo para se dedicar à política, interessar-se por teorias críticas, escrever, traduzir e viajar. Esse era o sentido de sua vida.

Ela traduziu do Francês inúmeros ensaios e livros, incluindo dois livros de Enzo Traverso. E, “é claro”, seis obras de Daniel Bensaïd. Elfi escreveu para uma ampla variedade de revistas e jornais, resenhas de livros e muitos artigos sobre a França e outros temas que lhe eram caros.

História e romances policiais

Seu interesse por um subgênero específico do romance policial, o “roman noir” francês ou “polar pós-68”, é pouco conhecido. Ela publicou sobre o assunto um livrinho em francês com Alexander Ruoff e uma “versão resumida e acessível” de sua tese de doutorado.

Eles também publicaram a série Noir, pela qual apareceram, entre outros, livros de Dominique Manotti. Elfi traduziu um romance policial de Patrick Rotman – que, em sua juventude, foi membro da JCR e depois se dedicou, entre outras coisas, à realização de documentários históricos. O tema do livro de Patrick Rotman, L’âme au poing, era bem do gosto de Elfi:

“Paris, em 1942. Os nazistas ocuparam a cidade. Sascha Altberg, um jovem judeu polonês cujo pai foi deportado, junta-se à resistência armada. Devido à sua temeridade, ele rapidamente se torna um temido combatente antifascista e acaba na mira dos serviços de segurança franceses.”

No centro dos combates

O que ela escreveu em 2019, em um posfácio sobre a obra de Éric Hazan, La Dynamique de la révolte. Sur des insurrections passées et d’autres à venir*, resume bem uma de suas reflexões:

“É sempre melhor lutar do que não lutar. Mas, para manter a combatividade e evitar a desmoralização e a resignação, também é preciso vencer de vez em quando. Fundamentalmente, pode-se considerar que a esquerda radical não conseguiu realmente se reorientar política, organizacional e ideologicamente após a Guerra Fria, nem se posicionar como uma alternativa para toda a sociedade. Conseguimos apenas acompanhar e analisar os retrocessos e, no caso da França, retardá-los.”

Em outubro de 1997, Elfi participou da fundação da iniciativa “jour fixe Berlin”. Visando a eficácia, seus objetivos foram formulados da seguinte forma: “Por meio de uma série de conferências dedicadas à análise crítica do poder, da exploração e da submissão, ela deseja oferecer uma plataforma de discussão e reflexão teórica no seio da esquerda radical e contribuir para a luta contra a forma de socialização imposta pelo capitalismo”. Os conteúdos das conferências, fruto de intensas discussões e de uma preparação minuciosa, foram posteriormente publicados em coletâneas.

Ação até o fim

As atividades desse grupo já não lhe bastavam: quando, em janeiro de 2024, alguns “antigos” e membros da Internationale Sozialistische Organisation (seção alemã da IV Internacional) em Berlim formaram um “círculo de amigos da IV Internacional”, ela imediatamente se juntou a ele. Ela logo se tornou a força motriz desse grupo que, além dela, era composto apenas por homens…

Ela hesitou em aderir à ISO, mas isso provavelmente teria acabado por acontecer mais cedo ou mais tarde. Ela teria então voltado a ser formalmente membro da IV Internacional, à qual não parava de fazer referência nos últimos meses e anos. Ela era, de fato, uma internacionalista incansável e profundamente convicta.

Como diz o obituário: “Com ela, perdemos uma militante dedicada da esquerda emancipadora, quando tanto precisamos dela atualmente. Elfi, sentiremos sua falta para sempre”. 1º de março de 2026