Publicamos esta entrevista inédita com o mestre dos historiadores da Guerra da Argélia, o argelino-francês Mohamed Harbi (1933-2026), figura central na luta pela independência de seu país e mais tarde crítico do regime pós-colonial. Harbi faleceu no início de janeiro de 2026, aos 92 anos, em Paris. A entrevista foi concedida em 2012 a Masis Kürkçügil*, também historiador, que foi fundador do movimento trotskista na Turquia e da seção turca da IV Internacional.
Com seus 79 anos e o rosto sempre iluminado por um sorriso infantil, cabelos de um branco imaculado, Harbi passa a imagem de um dervixe: sempre mergulhado silenciosamente em seus livros, meticuloso ao ponto de cortar um fio de cabelo em quatro, nunca cedendo à idealização, nem mesmo demonizando seus inimigos, buscando incansavelmente a verdade. No entanto, ao ler suas memórias, descobrimos um homem de ação por excelência. Harbi ingressou no Partido do Povo Argelino com apenas 15 anos, ocupou cargos de responsabilidade na Federação Francesa da Frente de Libertação da Argélia (FNL), trabalhou no gabinete de Krim Belkacem, participou como especialista nas negociações de Évian em maio de 1961 e, após a independência, foi conselheiro do presidente Ahmed Ben Bella. Na sequência do golpe de Estado de 19 de junho de 1965, liderado por Boumediene, foi condenado a cinco anos de detenção e três anos de prisão domiciliar por ter fundado a Organização da Resistência Popular, antes de se exilar no exterior e iniciar uma carreira acadêmica. Não há outro exemplo de um ator tão profundamente envolvido nos acontecimentos que abordou a história da independência argelina com tal rigor crítico.
Como conselheiro presidencial, Mohammed Harbi se opôs à manipulação dos congressos sindicais, foi contrário à ênfase dada ao islamismo para a lei sobre a identidade, e adotou uma postura crítica ao condenar a tortura em um editorial da Révolution Africaine, revista do FLN que ele dirigia. A partir do congresso de abril de 1964, ele chegou à conclusão de que o FLN não era mais passível de reforma. A vitória da “burocracia militar” estava em andamento. De fato, um ano depois, o golpe de Estado de Boumediene viria a confirmar o que dizia.
Como devemos avaliar, cinquenta anos depois, a guerra de independência da Argélia?
O essencial hoje é compreender a trajetória política da Argélia. Para isso, é preciso recuar bastante no tempo e começar por questionar o que é a Argélia. Os historiadores frequentemente mergulham na história do Estado-nação, como se o Estado-nação fosse algo que se impusesse inevitavelmente aos povos. Ora, é impossível compreender a história da Argélia fora do contexto de sua formação. Essa formação ocorreu, até 1962, sob condições imperiais: primeiro o Império Romano-Bizantino, depois o Império Otomano e, finalmente, o império francês. A Argélia é o produto de toda essa história, tanto de uma história local quanto de uma história de integração a esses impérios. É preciso destacar um ponto importante: quando a Argélia se tornou uma colônia francesa, passou por extrema violência; todos os elementos constitutivos do tecido social estavam fragmentados.
O capitalismo entrou na Argélia de forma brutal. O país não foi transformado como um todo: ao contrário do que se poderia pensar, formaram-se duas Argélias – o interior do país, que continuou a ser administrado segundo os princípios otomanos, e a zona costeira, que conheceu um certo desenvolvimento por meio de instituições que lembravam, em maior ou menor grau, as da França. Em outras palavras, a estrutura social apresentava, em certa medida, traços comuns com a França. O que diferenciava a Argélia do Império Otomano era a completa burocratização e centralização da estrutura política.
Os fenômenos políticos se deram nesse contexto. Um sistema capitalista, dois países diferentes dentro de um mesmo estado e novas classes sociais que surgiram, digamos assim, na esteira do capitalismo. De um lado, como em quase todos os lugares: um mundo do trabalho, uma classe operária; do outro, uma classe capitalista, mas não um capitalismo burguês, um capitalismo colonial e uma intelectualidade extremamente fraca. Essa era a dinâmica social da Argélia. Nenhuma classe havia alcançado a maturidade. Por isso, como nenhuma classe foi capaz de impor seu domínio, o pessoal político chamado a dirigir a Argélia foi recrutado entre os argelinos emigrados na França e na pequena burguesia urbana. A burguesia estava profundamente fragmentada, tanto social quanto culturalmente: apesar do domínio cultural francês, a língua árabe e a cultura muçulmana – embora enfraquecidas – continuavam a existir, ainda que fortemente empobrecidas.
Nessa situação, após sucessivas insurreições que se prolongaram quase até o fim do século XIX, começaram a eclodir levantes armados, e assistiu-se ao nascimento quase instantâneo de um movimento político. Esse movimento não era homogêneo, como foi na Tunísia ou no Marrocos. A elite política também estava profundamente dividida, entre aqueles que haviam sido culturalmente formados à sombra do colonialismo e as antigas classes. Quando o movimento ganhou força, ele estava sob a influência da cultura antiga, mas também se inspirava, em certa medida, nas ideias da Revolução Francesa e, sobretudo, nas da Revolução Soviética – mas apenas no plano formal. Esse é um elemento importante para compreender a Argélia, pois a Argélia dispunha de dois vocabulários políticos: o da Revolução Francesa e o da Revolução Soviética, utilizados para traduzir realidades sociais que, no entanto, não tinham qualquer relação com os próprios fundamentos dessas revoluções.
Quando a revolução começou, em 1954, o que imediatamente ocupou o primeiro plano foi uma burocracia de tipo militar que se formava. É possível observar na Argélia um padrão que lembra um pouco o da América Latina. No início, existia realmente um igualitarismo absoluto. Mas, após longos anos, uma vez conquistada a independência, a sociedade começou a se transformar progressivamente. Com a burocratização e a estatização, surgiu uma nova burguesia, uma burguesia de tipo burocrático. Sem o Estado, ela não era nada. Por muito tempo, havia um compromisso dela com as classes populares sob a proteção do Estado. Mas hoje vemos surgir núcleos que defendem o liberalismo econômico ao mesmo tempo em que rejeitam o liberalismo político. Eles vivem à sombra do Estado. Na Turquia também, de forma mais coerente, observou-se esse fenômeno. Na Argélia, a burguesia ainda não conseguiu tornar-se uma verdadeira potência econômica; o essencial continua sendo o Estado. Mesmo no domínio econômico, a burguesia ainda não adquiriu uma força decisiva: na Argélia, o que é fundamental é o Estado. A burguesia tenta hoje afastar-se progressivamente do Estado, mas sem, por isso, aderir ao liberalismo político.
Qual é a diferença entre Ben Bella e Boumediene?
Ben Bella e Boumediene foram ambos nacionalistas. Ambos estiveram à frente de um regime autoritário. Mas seus estilos e abordagens foram diferentes. Ben Bella teve origem em um partido político; ele foi, portanto, aberto à sociedade. Boumediene, por sua vez. foi um militar, inteiramente formado no âmbito do exército. Para ele, o exército está no centro da sociedade. Esse não era o caso sob Ben Bella. Quando este chegou ao poder, imediatamente após a independência, a saída em massa dos europeus havia criado um vazio social. Esse vazio foi preenchido por grupos provenientes do povo. Ben Bella apoiava-se nessa base social, enquanto a base social de Boumediene foi a a burocracia militar. É por isso que Ben Bella, em determinado momento, colocou em pauta a opção da autogestão. Mas essa opção não encontrou apoio social na classe trabalhadora.
A Argélia dos anos 1960 foi um espaço de recomposição social. Aqueles que eram operários haviam progredido na hierarquia social. Haviam migrado do campo, haviam se estabelecido nas cidades até então dominadas pelos europeus. Isso criava naturalmente – até a saída de Ben Bella – uma situação extremamente caótica. Enquanto Ben Bella tentava inserir a FLN na sociedade, sob Boumediene, já não era possível falar da FLN como uma entidade distinta do exército. Quando chegou ao poder, Boumediene teria declarado aos dirigentes do FLN que desejava que o FLN fosse «como um navio atracado no cais». Ele não afundaria, mas deveria permanecer imóvel. Seria apenas um símbolo, sem existência autônoma em relação ao Estado e à estrutura militar.
Com Ben Bella, a FLN era um partido civil, ainda em fase de formação. A guerra tinha sido terrível; a partir de 1957, todas as organizações da sociedade civil haviam desaparecido. A estrutura política anterior a 1954 possuía certa consistência, mas havia sido totalmente varrida em favor de uma nova estrutura. As elites argelinas tinham ou emigrado, ou estavam na prisão ou em detenção. Nessas condições, a nova estrutura apresentava um perfil extremamente discreto. Sem esses dados sociais, é impossível compreender a Argélia.
Como você avalia o retorno à cena política de antigos líderes? Será que podemos falar de uma espécie de normalização da história?
Sim, mas dentro de certos limites. Os antigos líderes políticos estão voltando, lhes é devolvido seu lugar na história, mas não se explica nem por que eles haviam desaparecido, nem por que reaparecem hoje. É um pouco como nos antigos países do Leste. Começa-se por quebrar a coragem deles, depois… para um povo, é essencial compreender o que lhe aconteceu.
Como avaliar as posições que teve a esquerda francesa frente à “questão argelina”?
Nos anos 1920, mas sobretudo nos anos 1930, a esquerda francesa era composta por indivíduos que reagiam à brutalidade do colonialismo. Mas o colonialismo em si não era questionado, nunca o foi. A partir de 1917, foram os comunistas que abordaram as questões nacionais e coloniais. Até 1924, 1925, 1926, eles tinham uma posição muito clara sobre a questão argelina. Com a stalinização da URSS e do movimento comunista, a Argélia deixou de ser pensada no âmbito do império francês. O princípio organizador da visão política passou a ser a política soviética.
Nos anos 1930, do ponto de vista do Partido Comunista Argelino, que era uma extensão do Partido Comunista Francês, o principal perigo vinha da Itália e da Alemanha, ou seja, os perigos que ameaçavam a União Soviética. Quando se pedia aos nacionalistas que apoiassem a frente antifascista, contra Hitler e Mussolini, eles recusavam, dizendo: «Se aceitarem a libertação nacional, então nós a defenderemos.» Havia, portanto, um conflito entre os dois movimentos. A partir de 1946, o novo perigo para a União Soviética passou a ser os Estados Unidos.
Durante a guerra, existia uma forma de anticolonialismo articulada em torno de três eixos: a luta contra a opressão, a luta pela paz; no entanto, do lado dos comunistas, nenhuma posição clara foi adotada em relação à questão nacional. No entanto, nesse período, surgiu uma nova corrente, favorável aos argelinos e que lhes prestava ajuda material. Aqui na França, uma das fontes importantes da capacidade de ação da FLN foi precisamente o apoio material e logístico que a esquerda francesa lhe prestou. Quando o quadro real da situação argelino foi entendido, houve, por exemplo, 12 mil franceses desertaram para não irem para a guerra na Argélia. Os partidos oficiais, os grandes partidos, o Partido Comunista e os outros partidos de esquerda, não apoiavam a obediência ao estado francês – contrariando a doutrina oficial. É por isso que, até hoje, os argelinos se mostram particularmente sensíveis diante de discursos nacionalistas que afirmam que eles não receberam nenhum apoio da esquerda francesa. Isso não é totalmente exato. É uma questão extremamente delicada. Mas é uma característica comum a todos os nacionalismos: eu em primeiro lugar…
Nota do entrevistador: A entrevista foi realizada na residência de Mohammed Harbi. No final da conversa, ele proferiu a seguinte frase, que eu não utilizei, por considerá-la inadequada para a revista de história popular na qual a entrevista seria publicada: “O papel da IV Internacional na Guerra da Argélia é inegável”. Junho de 2012
Masis Kürkçügil, historiador, foi figura política reconhecida do movimento estudantil de 1968 na Turquia. Ao sair da prisão, em 1974, fundou a editora Köz, para publicar (principalmente) as obras de Trotsky e Ernst Mandel. Essa editora, que hoje existe sob o nome de Yazın, publicou no total mais de 90 livros. Masis Kürkçügil, ainda membro da IV Internacional, também redigiu e editou diversas obras sobre a história da esquerda turca, os regimes “progressistas” na América Latina e sobre o genocídio armênio.

