Vladimir Putin está no poder há 26 anos, como presidente ou primeiro-ministro da Federação Russa. Seu domínio assumiu formas cada vez mais autoritárias, especialmente desde a invasão da Ucrânia no início de 2022. Como caracterizar hoje o “putinismo”? O pesquisador e ativista russo Ilya Budraitskis, atualmente no exílio, propõe aqui uma reflexão sobre a ditadura de Putin a partir da categoria de fascismo.
Em 24 de fevereiro de 2022, quando a Rússia de Putin deslanchou a invasão em grande escala à Ucrânia, o mundo não se deparou apenas com um desafio à hegemonia geopolítica ocidental. Por trás da política militar agressiva do Kremlin havia uma lógica que remete à ideologia imperialista clássica, segundo a qual as relações entre países obedecem exclusivamente à lei do mais forte. Em seus discursos, Vladimir Putin criticou as intervenções militares dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão, mas o que ele contestava acima de tudo era a pretensão de Washington de deter direitos exclusivos em matéria de intervenções imperiais, de expansão de sua esfera de influência e de condenação das outras potências que ousam fazer o mesmo.
O desafio do mandatário russo ao Ocidente resume-se, portanto, a denunciar a “hipocrisia” norte-americana: por que alguns teriam o direito de fazer o que é proibido aos outros? O que, segundo Putin, antes era prerrogativa exclusiva do imperialismo norte-americano deveria, doravante, tornar-se a única lei reconhecida da política internacional (1). Em sua visão de mundo, apenas certos Estados estariam “organicamente” destinados a se tornar impérios, dotados de uma capacidade “soberana” de fazer a guerra, enquanto outros estariam condenados a ser apenas “colônias”, objetos a serem controlados e conquistados.
Ainda na visão de Putin, o direito desses Estados “soberanos” de exercer um poder arbitrário no exterior corresponde ao seu direito de exercer um poder arbitrário no interior. Se por trás do direito há sempre, e em última instância, somente a força bruta, então os direitos humanos ou o direito à representação democrática também dependem da força – e são, portanto, apenas uma arma a serviço da influência externa.
Dessa lógica imperial decorre inevitavelmente uma posição antirrevolucionária e antidemocrática, coerente com o pensamento das cúpulas russas: todos os protestos e todas as revoltas seriam sempre manipulados do exterior por potências hostis, desde a contestação da oposição russa em 2011 até a Primavera Árabe, passando pela Revolução Russa de 1917, que Putin também considera produto de atividades de serviços secretos estrangeiros (2).
Fica claro que esse esquema ideológico equipara os Estados a indivíduos que, em uma sociedade de mercado, também estão envolvidos em uma luta permanente pelo sucesso, pelo domínio e pelo reconhecimento. A mesma lei “natural” regeria os Estados, as comunidades nacionais e a vida humana individual: ou você afirma seu direito à existência às custas dos outros, ou se torna sua vítima. Na Rússia de Putin, essa ideologia passou definitivamente de retórica a prática do poder: ela não se baseia apenas em ideias reacionárias ou chauvinistas presentes em parte da sociedade russa, mas na racionalidade neoliberal do mercado que nela domina. Dividida em indivíduos separados e opostos, tal sociedade torna-se um material maleável nas mãos das cúpulas e aceita sua própria impotência – sua incapacidade de agir solidariamente – como consequência de um destino histórico supostamente imutável e de leis quase orgânicas, indiscutíveis, que regem a vida social.
A invasão da Ucrânia estabeleceu, definitivamente, na Rússia de Putin um vínculo indissociável entre política externa e política interna: uma é a continuação inevitável da outra. A guerra deu início à transformação do regime russo em uma forma nova, qualitativamente diferente – uma ditadura –, na qual toda expressão pública que se afaste da linha oficial torna-se um crime, e toda tentativa de ação coletiva é equiparada a uma traição ao Estado-nação. Esse entrelaçamento de um clima de medo e subordinação com o chauvinismo e a agressão imperialista, bem como a identificação total da vontade nacional com as decisões do líder autoritário, levou muitas pessoas, nos últimos meses, a comparar a Rússia de Putin – a meu ver, com razão – ao fascismo.
Devemos usar a palavra “fascismo”?
No entanto, quando se invoca essa perigosa “palavra com F” na análise social, é preciso esclarecer como usá-la e como não usá-la. Em primeiro lugar, não se deve empregar “fascismo” como sinônimo do mal absoluto contra o qual o “mundo livre” deveria se unir. Essa moralização do fascismo nada mais é do que um retorno às oposições binárias da Guerra Fria, em que o comunismo soviético seria automaticamente substituído pelo “fascismo de Putin” como inimigo externo do Ocidente.
Além disso, uma análise do fascismo contemporâneo na Rússia (assim como das tendências fascistas fora dela) não deve se basear em analogias históricas especulativas. É preciso lembrar que o surgimento do fascismo na primeira metade do século XX foi determinado por uma combinação de circunstâncias históricas únicas, e que sua doutrina era contraditória e eclética. Nesse sentido, podemos retomar esta observação de Pierre-André Taguieff, formulada no início dos anos 1990:
“Nem o “fascismo” nem o “racismo” nos farão o favor de retornar de uma forma que possamos reconhecê-los facilmente. Se a vigilância fosse apenas um jogo de reconhecimento de algo já conhecido, se trataria somente de recordar. A vigilância seria reduzida a um jogo social de reminiscência e de identificação por reconhecimento, uma ilusão consoladora de uma história imutável, povoada de eventos que respondem às nossas expectativas ou aos nossos medos.” (3)
Por fim, e talvez isso seja o mais importante, aplicar o conceito de fascismo ao atual regime russo não deve levar a exotizá-lo, a acreditar que a “fascistização” da Rússia pós-soviética seria um caso único, predeterminado por uma história nacional particular. Pelo contrário, qualificar o regime de Putin de fascista deve nos ajudar a discernir traços comuns entre as diferentes correntes de extrema direita surgidas da crise da ordem capitalista neoliberal.
Estou convencido de que caracterizar a Rússia como fascista só se justifica se isso for visto um sinal preocupante de tendências globais suscetíveis de produzir regimes semelhantes em escala internacional – inclusive no mundo ocidental. Hoje, quatro anos após o início da guerra brutal de Putin contra a Ucrânia, fica evidente que essa visão sobre o fascismo na política internacional já não é um fenômeno isolado. A agressão do autoritário Azerbaijão em 2023, que culminou em uma limpeza étnica em grande escala da população armênia de Karabakh; a operação militar genocida de Israel em Gaza; e, finalmente, as recentes ações de Trump na Venezuela: tudo isso indica claramente que a lei do mais forte tende a se tornar a nova regra da política mundial. Tudo isso nos impõe repensar o fenômeno do fascismo e a compreender a evolução específica do regime de Putin como parte integrante do sistema capitalista mundial.
Fascismo: doutrina, movimento ou regime?
Na vasta literatura histórica e político-filosófica sobre o fascismo, é possível distinguir três abordagens. A primeira o considera, antes de tudo, uma ideologia (ou, melhor dizendo, um conjunto de traços ideológicos). A segunda, o vê como um movimento de massa radical. A terceira, como um tipo particular de dominação, uma forma fundamentalmente nova de regime político e, de maneira mais geral, de poder social.
Assim, a famosa definição do historiador Roger Griffin (1948) – o fascismo como forma de “ultranacionalismo palingenésico”, ou seja, baseado no mito de um renascimento regenerador da nação — visa definir o fascismo de maneira normativa, construindo um “tipo ideal” que o distingue de outras formas autoritárias.
O fascismo, segundo Griffin, está sempre ligado a características tais como: ressuscitar a grandeza perdida da nação; rejeitar de forma revolucionária as formas anteriores de legitimidade; cultivar uma ideia orgânica de comunidade nacional; organizar mobilizações de massa para impor a ordem tanto no interior quanto no exterior. Os debates recentes sobre o caráter fascista, ou não, do regime de Putin mostram claramente os limites dessa abordagem.
Timothy Snyder (1969), por sua vez, procura revelar os fundamentos ideológicos do regime russo atual (4). Ao fazê-lo, ele exagera a influência exercida sobre Putin pelos livros de Ivan Ilin (1883-1954), ideólogo dos brancos contrarrevolucionários emigrados das décadas de 1920 e 1930. Ele também acredita ter detectado na retórica militarista do presidente russo um “culto da morte” comparável ao do líder fascista romeno do período entre as duas guerras, Corneliu Zelea Codreanu (1899-1938). Seus críticos, por outro lado, destacam que o Estado de Putin não se baseia, como o “fascismo clássico”, em uma mobilização de massas ideologicamente motivada (5).
É evidente que uma definição normativa do fascismo, baseada na presença ou ausência de características específicas, desvia a análise do próprio regime e de sua evolução histórica. Não há dúvida de que, durante a invasão da Ucrânia, Putin expôs em seus discursos um programa ideológico elaborado, e que isso moldou a propaganda russa de maneira extremamente reacionária. No entanto, quando Putin chegou ao poder há vinte anos, ele claramente não era um homem de ideologia, e suas políticas concretas não eram guiadas por nenhuma doutrina. Pode-se dizer que suas visões se formaram como uma síntese de “verdades práticas” assimiladas ao longo dos cargos que ocupou.
Seus primeiros anos nos serviços de segurança soviéticos o levaram a um pensamento conspiratório. Seu papel no processo de privatizações, como vice-prefeito de São Petersburgo na década de 1990, moldou sua moral de violência e dominação bruta, típica dos meios semicriminosos e mafiosos aos quais estava intimamente ligado. Por fim, seus longos anos no poder, como líder autocrático incontestado, consolidaram nele uma visão de destino messiânico: restaurar o poder geopolítico perdido da Rússia. Não foi uma ideologia que determinou sua prática; foi sua prática que o levou a assimilar diversas “verdades” ideológicas que ele considera evidentes. As citações de pensadores reacionários, cuidadosamente inseridas em seus discursos, apenas confirmam conclusões tiradas de sua experiência.
As contradições e rupturas dessa ideologia são determinadas por seu caráter de prática material, retomando a expressão de Althusser (1918-1990). Essa noção de uma ideologia determinada pela prática do poder aplica-se tanto ao fascismo quanto ao fenômeno histórico em geral. O historiador Robert O. Paxton (1932) mostra, por exemplo, que as declarações dos movimentos fascistas sempre foram muito diferentes das práticas dos líderes fascistas uma vez no poder (6). Essas declarações não constituíam um todo coerente: eram um conjunto arbitrário de slogans dirigidos a diversos grupos sociais, que se modificavam conforme a conjuntura da luta política. Mais ainda, o ecletismo ideológico do fascismo foi elevado ao nível de princípio: os líderes fascistas repetiam incessantemente que se baseavam na pura “vida”, em vez de em doutrinas áridas. Para eles, “a teoria é uma prisão”, segundo a famosa máxima de Benito Mussolini.
O verdadeiro programa do fascismo revela-se, acima de tudo, em suas práticas de regime, que nunca foram mera extensão de seu movimento voltado à conquista do poder. Como afirma Paxton, os regimes fascistas alemão e italiano foram uma síntese complexa entre partidos totalitários, o antigo aparato estatal (7) e a racionalidade das elites tradicionais (exército, burocracia, Igreja, etc.), formando uma espécie de “duplo Estado”. Essa síntese nunca se tornou monolítica; as crises dos regimes fascistas sempre foram desencadeadas por suas contradições internas. A conspiração de 1944 contra Hitler envolveu membros proeminentes da elite militar; a queda de Mussolini em 1943 foi orquestrada pelo círculo do rei Vítor Emanuel (bem como por algumas facções da liderança fascista), até então parte integrante do regime.
Pesquisadores para quem o fascismo representa, antes de tudo, um movimento de massas (por exemplo, Ernst Nolte, 1923-2016) interpretaram-no como uma força de reação diante da ameaça revolucionária do movimento operário organizado e dos partidos socialistas, como se ele substituísse um antigo Estado burguês incapaz de se defender por si mesmo. É impossível negar essa orientação contrarrevolucionária. Na Itália do início da década de 1920, por exemplo, o fascismo foi uma reação violenta e direta a um movimento de greves de massa e à criação espontânea de sovietes operários em centros industriais-chave. Mas a ascensão de Mussolini e Hitler ao poder não teria sido possível se a elite tradicional não tivesse decidido coletivamente apoiá-los. Nos casos em que as classes dominantes não viram a necessidade de uma transformação fascista – na França, na Grã-Bretanha ou na Romênia –, os movimentos fascistas, apesar de suas perspectivas de crescimento na década de 1930, acabaram derrotados.
Pode-se, portanto, concordar plenamente com a afirmação do politólogo ucraniano radicado nos Estados Unidos, Alexander J. Motyl (1953): “a chave para compreender o que é o fascismo reside talvez na compreensão do que é um regime fascista” (8). Se, como escreveu Merleau-Ponty (1908-1961), “as revoluções são verdadeiras como movimentos e falsas como regimes” (9), pode-se dizer o contrário do fascismo: seu significado e seus objetivos revelam-se precisamente num regime de poder estatal, enquanto, na forma de ideologia ou de movimento, suas características parecem incompletas e enganosas.
O fascismo de hoje vindo de cima
Definir o fascismo como um regime cujas características ideológicas ou a existência prévia de um movimento de massa são secundárias, não indispensáveis, permite universalizar o fenômeno. Nessa abordagem, o fascismo não é um desvio irracional em relação ao caminho racional da civilização ocidental (como muitos pesquisadores liberais costumam acreditar), mas um fenômeno que decorre diretamente da própria natureza da sociedade de mercado.
Essa posição foi formulada com maior clareza por Karl Polanyi (1886-1964), que, em A Grande Transformação, viu no fascismo a aspiração à vitória final da lógica capitalista sobre toda forma de auto-organização e de solidariedade social (10). O objetivo do fascismo, segundo Polanyi, era a completa atomização social e a dissolução do indivíduo na máquina de produção. O fascismo era, assim, mais profundo do que uma mera reação ao perigo de movimentos revolucionários anticapitalistas “vindos de baixo”. Era inseparável do estabelecimento definitivo do domínio da economia sobre a sociedade. Seu objetivo não era apenas destruir os partidos operários, mas também toda forma de controle democrático proveniente de baixo.
Karl Polanyi descreve o fascismo não como um “movimento”, mas como uma virada — ou mesmo como um golpe de força —, ou seja, um consenso das elites em resposta à crise econômica, destinado a constituir uma alternativa ao socialismo. Mas, ao contrário de uma tese bem conhecida do Comintern, essa resposta, segundo Polanyi, não decorria de uma reação direta ao perigo de uma revolução social: ela estava profundamente enraizada na própria natureza da sociedade industrial, com sua contradição essencial entre o mercado capitalista e a democracia. O fascismo representava, assim, uma resolução radical dessa contradição inerente (o “duplo movimento”, nos termos de Polanyi), por meio de uma redefinição da “natureza humana” baseada na negação fundamental da unidade da humanidade.
Em sua análise, Karl Polanyi insistia no fato de que uma “situação fascista se assemelha a uma situação revolucionária”, e que esse “golpe” das elites só é possível “na crise complexa das instituições democráticas”. O fascismo desenvolve-se, portanto, em um momento de crise econômica e política global, quando a contradição entre os interesses da sociedade e os do mercado torna-se tão aguda que nenhum equilíbrio temporário é mais possível. Para Karl Polanyi, a virada fascista foi uma consequência direta da Grande Depressão, que ele considerava o fim da civilização de mercado do século XIX.
A atual crise do capitalismo neoliberal produz contradições semelhantes e uma tendência política a um fascismo imposto de cima para restabelecer a ordem em um sistema em crise. É claro que essa tendência não se desenvolve de maneira uniforme nem simultânea em todos os lugares, pois o desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo mundial e suas crises não produzem uma temporalidade homogênea. Por diversas razões estruturais, a Rússia tornou-se o “elo fraco” desta época de crise, levando Putin a abandonar a democracia dirigida em favor de um fascismo. Essa transformação do regime foi acompanhada da destruição de todas as instituições políticas capazes de mediar a imposição direta da vontade do líder. Na Rússia de hoje, não existe mais um “Estado político”. Um tribunal, um parlamento ou um governo local não dispõe de autonomia relativa. Todas as instituições executam ordens vindas de cima.
Essa subordinação completa das instituições do Estado à “vontade do soberano” era característica do regime hitleriano. Sabe-se que um dos primeiros decretos de Hitler, uma vez no poder, foi a instauração de um “estado de emergência” – ou seja, segundo a famosa definição de Carl Schmitt (1888-1985), uma “lei que abole todas as outras leis” – que permaneceu em vigor até o colapso do nazismo em 1945. A erosão das instituições democráticas e os elementos do “estado de emergência” são visíveis hoje em regimes como os de Narendra Modi na Índia, Recep Tayyip Erdogan na Turquia e Viktor Orbán, na Hungria. No entanto, ao contrário da Rússia de Putin, esses regimes expressam mais uma potencialidade fascista do que uma transformação já consumada: ainda subsiste uma autonomia parcial da sociedade e das instituições.
As políticas do governo de Donald Trump desde o início de 2025 contêm claramente elementos de tal “estado de emergência”, com o objetivo de transformar radicalmente o sistema político norte-americano. Sem se apoiar em um movimento de massas, Trump utiliza os instrumentos do aparato estatal para reprimir a oposição, restringir os direitos democráticos fundamentais e intimidar a sociedade, reforçando instituições repressivas como o ICE. O trumpismo, tendo conquistado as alavancas do poder estatal, é fundamentalmente diferente do primeiro mandato de Trump; pode-se ver nisso uma tentativa de fascistização vinda de cima. No entanto, Trump ainda se depara com os limites do sistema político liberal norte-americano (incluindo seus fundamentos federalistas). Ele precisa levar em conta a amplitude do apoio eleitoral e enfrenta resistência ativa da sociedade.
Como veremos mais adiante, Putin teve muito mais tempo para destruir metodicamente a solidariedade na sociedade russa, bem como os fracos elementos de uma cultura democrática. A Rússia de Putin representa, portanto, hoje a forma mais consumada desse processo – ao contrário da América de Trump, cuja transição permanece perigosa e imprevisível.
Atomizar e despolitizar a sociedade
Para serem qualificadas como fascistas, tais sociedades – mesmo sob governos de extrema direita – devem passar por uma transformação qualitativa. Hannah Arendt (1906-1975) esclarece a profundidade dessa transformação em As Origens do Totalitarismo. Ela chega a conclusões próximas às de Polanyi (11), embora a partir de uma perspectiva teórica diferente. Ela defende que o fascismo não mantém uma relação direta com as tradições intelectuais anteriores e que representa não um fenômeno político, mas um fenômeno social: o desfecho extremo de tendências-chave da modernidade – a atomização da sociedade e a destruição de toda forma de vida pública.
Para Arendt, a essência de uma sociedade totalitária fascista não reside na intromissão do político em toda a vida social, mas em uma despolitização definitiva, ou seja, no desaparecimento de qualquer noção de “interesse comum”. Walter Benjamin captou com notável precisão essa função passiva e desmobilizadora do fascismo.
Na conclusão de A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (12), ele escreve que o fascismo “estetiza a política” : transforma os indivíduos em espectadores fascinados, consumidores alienados de uma política que se tornou espetáculo; enquanto o comunismo, ao contrário, “politiza a estética”, fazendo do espetáculo cultural um espaço de participação criativa direta das massas. O espetáculo fascista possui, assim, um caráter exclusivamente hierárquico: é uma produção ditatorial na qual cada um deve desempenhar o papel que lhe é atribuído, com a maior disciplina e obediência.
Na Rússia, esse estado é hoje simbolizado pelas “manifestações públicas de solidariedade” orquestradas pelo Estado com o exército russo. Por exemplo, funcionários do setor público e estudantes alinhados para formar a letra Z, sinistro emblema da agressão russa. Esse espetáculo político é puramente vertical; não deixa espaço para nenhuma iniciativa vinda de baixo, nem mesmo fascista. Em quatro anos de guerra, o regime russo mandou para a prisão não apenas militantes anti guerra, mas também todos os nacionalistas imperiais de destaque que ousaram demonstrar a menor independência, como Igor Strelkov (1970), um dos principais arquitetos da intervenção russa no Donbass em 2014. Nesse sentido, a eliminação do grupo mercenário Wagner, relativamente autônomo, e o assassinato espetacular de seu chefe, Evgueni Prigojine, no verão de 2023, podem ser comparados à Noite das Facas Longas na Alemanha em 1934.
A expressão do apoio popular à guerra só pode e deve ocorrer em formas estritamente aprovadas pelo poder: concertos patrióticos e “flash mobs”, ou seja, manifestações- relâmpago coreografadas, organizadas pelas autoridades. Esses ornamentos das massas têm o mesmo significado que há um século, quando Siegfried Kracauer (1889-1966) descrevia, em O Ornamento das Massas, a desintegração do indivíduo em elementos corporais separados, integrados ao processo de produção capitalista e à reprodução ideológica (13). Em outras palavras, enfrentamos não apenas os resultados da desagregação da sociedade em átomos, mas também a fragmentação dos próprios seres humanos em partes, incorporadas à máquina política e econômica e disciplinadas por sua racionalidade. A racionalidade mercantil, que visa fragmentar, ou seja, reificar, no sentido de Georg Lukács (1885–1971), a personalidade humana, é levada ao seu extremo lógico: estende-se até a organização da política e da sociedade. Se a natureza humana consiste em lutar para dominar seus semelhantes, então a natureza do Estado seria constituir-se como um corpo unificado (um “ornamento” de fragmentos de corpos), uma “entidade” engajada em uma luta existencial contra outras “entidades”. Em tal mundo, noções como cultura e soberania são reduzidas a meros atributos dessa essência estatal.
O Estado fascista e o capital
O fascismo surge, assim, como uma nova forma de Estado burguês, baseada em uma fusão direta entre o aparato estatal e o capital – a tal ponto que se poderia dizer que, sob o fascismo, o capital assume a forma do Estado. O Estado não desempenha mais o papel de árbitro acima da sociedade, nem o de mediador entre diferentes interesses de classe (como no bonapartismo clássico): torna-se o instrumento imediato de uma dominação sem máscara. É nesse sentido que Trotsky escreve que o capital «assume, direta e imediatamente, como num torno de aço, todos os órgãos e instituições da soberania: os poderes executivo, administrativo e educacional do Estado». E a própria essência do fascismo, acrescenta ele, é que “o proletariado é reduzido a um estado amorfo; que é criado um sistema administrativo que penetra profundamente nas massas e serve para impedir a cristalização independente do proletariado” (14).
O jurista e politólogo alemão Franz Neumann (1900-1954), em seu famoso livro Behemoth (15), propõe uma análise comparável do Estado fascista. Para ele, o fascismo é o poder direto do capital, que não precisa mais do Estado como força mediadora. Com base nas teorias marxistas do imperialismo, Neumann mostra que a transição para o nazismo foi determinada pela posição do capitalismo alemão, privado de mercados externos na época da repartição imperialista do mundo. A tendência dominante na Alemanha foi a monopolização da indústria e a transformação da imensa maioria da população em proletários, mobilizáveis como soldados e como trabalhadores. Neumann sustenta que, em sua forma final, o capital se funde com o Estado: ele não precisa mais nem do livre comércio nem de um mercado de trabalho livre. As empresas fracas não são mantidas em igualdade formal com as grandes: o Estado as considera ineficientes e redistribui seus bens aos cartéis (as confiscações de bens judaicos se inscrevem na mesma lógica).
Sob o fascismo, a propriedade não é mais garantida pelo direito, mas por ato administrativo. Em outras palavras, o direito à propriedade privada não depende de uma norma comum, mas de uma decisão específica do soberano. Toda distinção entre o político (o Estado) e o econômico (o capital) desaparece; a desigualdade real de direitos que caracteriza o capitalismo não é mais mascarada pela fachada de uma igualdade jurídica formal. O pleno emprego proclamado por Hitler permitiu, segundo Neumann, privar os trabalhadores de toda e qualquer liberdade de escolha: eles não têm direitos coletivos nem individuais e devem fundir-se na unidade orgânica de sua empresa. É assim que a fórmula nazista da “política acima da economia” se concretiza na prática: o capital ultrapassa a necessidade dos mercados livres e da concorrência, transformando o Estado em instrumento de sua própria expansão. O fascismo forja, portanto, uma nova relação entre capital e Estado.
É claro que essa fusão não cria nem homogeneidade nem identidade completa: significa, antes, uma harmonização de suas lógicas. Não se pode dizer, por exemplo, que o Holocausto tenha sido “no interesse” do capital alemão, mas foi conduzido de acordo com uma racionalidade gerencial capitalista e representou a máquina produtiva capitalista em sua forma extrema e monstruosa — o que foi brilhantemente analisado pelo sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017) em Modernidade e Holocausto (edição brasileira de 1998, Zahar, São Paulo).
Fascismo e parentes próximos
É impressionante ver até que ponto a explicação do hitlerismo em Neumann se assemelha ao “autoritarismo capitalista” defendido por ídolos intelectuais da alt-right norte-americana, como Nick Land (1962) ou Curtis Yarvin (1973) (16). A “aceleração” do capitalismo levaria inevitavelmente, segundo eles, os Estados a abandonar toda autonomia do direito e da legitimidade democrática. O Estado democrático, com sua falsa igualdade formal entre fortes e fracos, seria substituído por uma Gov-corp (um governo-empresa), uma corporação hierárquica dirigida por gestores que adquiriram poder absoluto por meio da seleção natural.
Para Nick Land, tal Estado não resultaria de uma luta política nem da formação de um movimento de massas, mas da “aceleração” da economia capitalista, cuja dinâmica destrói e ultrapassa todas as formas políticas. Essa utopia autoritária-libertária assemelha-se, paradoxalmente, ao reverso do capitalismo de Estado putiniano: este repousa sobre um vínculo indissolúvel entre direitos de propriedade e poder político, e sobre uma concepção profundamente enraizada do caráter aristocrático, quase de casta, da burocracia estatal (os serviços de segurança no topo da pirâmide).
A estranha semelhança entre a visão de mundo dos siloviki (homens dos serviços e do aparato de segurança: inteligência, exército, polícia) de Putin e a dos admiradores de Nick Land no Vale do Silício dificilmente se explica por uma formação ideológica ou por leituras comuns. Enquanto Nick Land cita Thomas Hobbes (1588–1679) e Gilles Deleuze (1925–1995), Putin cita Ivan Ilíin (1883–1954) ou Fiódor Dostoiévski (1821–1881). As referências intelectuais são secundárias; o que prevalece é uma racionalidade fascista, interiorizada pelas práticas ideológicas inconscientes do capitalismo neoliberal e característica do tipo de subjetividade que esse capitalismo produz.
O fascismo contemporâneo não precisa mais de movimentos reacionários de massa. Não são mais necessários métodos de guerra civil para esmagar a classe trabalhadora organizada e reduzi-la a um estado “amorfo” por meio da violência. Esse trabalho foi amplamente realizado ao longo das décadas da virada neoliberal nos países ocidentais e pelas reformas de mercado de “terapia de choque” nos estados pós-socialistas da década de 1990. Tudo o que é preciso é um “golpe” vindo de cima, que enterre definitivamente toda participação democrática e dê ao capital uma forma de Estado ditatorial. Assim como o fascismo antigo, o fascismo do século XXI é uma tendência nascida da crise do capitalismo mundial.
Nesse sentido, é impressionante ver até que ponto o putinismo, nascido das condições da transformação pós-soviética, corresponde a essas tendências globais. Ele não é movido por uma dinâmica especificamente nacional. Em sua retórica, é difícil encontrar algo que não seja familiar a qualquer eleitor de Le Pen, partidário de Orbán ou fã de Tucker Carlson: o mesmo anti-universalismo agressivo; o mesmo pânico em torno das “minorias”; a mesma defesa da “família tradicional” e dos “valores espirituais ” contra o liberalismo e o “marxismo cultural”; a mesma exploração do ódio contra “elites” abstratas.
A única diferença fundamental do putinismo parece ser o fato de que ele já transformou o Estado em um regime fascista do século XXI. Nesse sentido, ele não serve tanto para relembrar o passado, mas sim para alertar sobre o futuro. Mas por que a Rússia pós-soviética sofreu esse destino e se tornou esse exemplo assustador?
O putinismo: breve história de uma “fascistização”
Em meados dos anos 2000, quando Vladimir Putin acabara de ser reeleito triunfalmente para um segundo mandato, o autor destas linhas já participava ativamente da vida militante de esquerda em Moscou. Um dos slogans mais populares durante as numerosas manifestações — que as autoridades ainda toleravam no centro da capital — era: “Rússia Unida, país fascista!” (17) Os jovens socialistas e anarquistas que entoavam esse slogan consideravam-no um exagero necessário. No início do reinado de Putin, ainda existiam liberdades civis, meios de comunicação independentes, candidatos da oposição e sindicatos com direito à greve. No entanto, já era visível uma combinação perigosa de consolidação do poder pessoal, despolitização em massa e difusão de visões chauvinistas e racistas.
A carreira política de Putin e a natureza de sua popularidade estiveram ligadas à guerra desde o início. No final de 1999, quando Boris Yeltsin (1931-2007) o designou sucessor, o exército russo já conduzia uma “operação antiterrorista” em grande escala na Chechênia. A vitória esmagadora de Putin nas eleições presidenciais de março de 2000 marcou o surgimento do que alguns analistas pró-Kremlin chamaram de “maioria putinista”. Os sentimentos dominantes dessa maioria eram a frustração, o cansaço e o medo: frustração com a democracia, associada à instabilidade política e social; cansaço diante da pobreza e da insegurança econômica; medo, alimentado pela mídia, de uma ameaça terrorista atribuída aos “radicais islâmicos”, misturado à hostilidade contra esses “outros” do Cáucaso que “lotam nossas cidades”.
É notável que essa mentalidade de mobilização em torno da bandeira não visasse o Ocidente. Pelo contrário, Putin apresentava a operação na Chechênia como parte integrante da cruzada contra o “terrorismo internacional” lançada após o 11 de setembro por George W. Bush. Sua política interna se assemelhava surpreendentemente ao projeto neoconservador do ocidental: privatização agressiva do setor público, reformas neoliberais do direito, combinadas com o reforço do controle policial e uma retórica patriótica de “unidade nacional”. Os primeiros anos do governo de Putin viram a adoção de um novo Código do Trabalho que limita significativamente os direitos dos trabalhadores, de um novo Código da Habitação que facilitava a privatização do espaço urbano e de um imposto fixo de 13% que transformava a Rússia em um paraíso para as grandes empresas.
Ao mesmo tempo, o aumento espetacular dos preços do petróleo permitiu elevar salários e aposentadorias, mantendo um orçamento equilibrado. Foi aí que se lançaram as bases da combinação paradoxal entre neoliberalismo e capitalismo de Estado, característica do projeto de Putin (18). O regime colocou, progressivamente, sob controle estatal, direto ou indireto, as empresas lucrativas ligadas aos recursos naturais, ao mesmo tempo em que submeteu o setor público (educação, saúde) a uma austeridade neoliberal permanente. Sob Putin, os “oligarcas” – proprietários de vastas empresas adquiridas a preços irrisórios durante as privatizações pós-soviéticas – perderam a influência política direta que tinham sob Yeltsin. Mas ganharam enormes possibilidades de adquirir outras empresas por meio da privatização contínua e de obter contratos lucrativos com o Estado. O regime, apoiado por sua fantasiosa “maioria putinista”, devolveu-lhes a legitimidade perdida na década de 1990. Sob Yeltsin, a ideia dominante era que a privatização era injusta e criminosa. Com a recuperação econômica, o regime de Putin apresentou essa pilhagem como uma “página virada”, alertando que qualquer revisão levaria ao caos social e à desintegração do país.
Até o início da década de 2010, o putinismo baseava-se em uma despolitização de massa, associada ao aumento do consumo, ao prazer da “estabilidade” e ao recentramento na vida privada. Durante esse período, ele se apresentava menos como conservador e mais como “pós-político” (no sentido de Jacques Rancière): pura gestão, cuja eficácia se oporia às paixões políticas e aos slogans dos demagogos de rua. Nesse clima, em 2008, ao término dos dois primeiros mandatos de Putin, Dmitri Medvedev – figura sem destaque – foi eleito presidente por recomendação dele pela mesma “maioria putinista”. O que importa o nome do presidente, se o estilo de gestão permanece o mesmo?
Crise financeira mundial, resistências e virada fascista
Tudo mudou no final de 2011, quando Putin anunciou sua intenção de retornar à Presidência. Isso marcou uma virada em direção a um poder explicitamente personalizado. No final de 2011, início de 2012, Moscou e outras grandes cidades foram sacudidas por dezenas de milhares de manifestantes que denunciavam a fraude eleitoral em benefício do partido Rússia Unida e criticavam o autoritarismo do regime. Essas mobilizações questionavam o modelo tecnocrático e “pós-político” (19). Em resposta, Putin iniciou um processo de “fascistização”. Sua campanha de 2012 rompeu com as anteriores: os protestos foram apresentados como manobras de inimigos externos e internos que buscavam minar a unidade nacional e impor valores estrangeiros. Putin se apresentou como defensor da “família tradicional”, enquanto a homofobia e o patriarcado foram elevados ao status de ideologia de Estado. A “maioria putinista” foi reconstruída como uma “maioria conservadora silenciosa”, unida por uma fé cristã comum e pela lealdade à nação russa.
Apesar de sua reeleição e da repressão aos protestos, Putin continuou a perder o apoio das massas. As reivindicações democráticas (direitos civis, eleições justas) levadas pela oposição liberal podiam combinar-se com a experiência crescente de pobreza e desigualdades. No início da década de 2010, o crescimento russo, fragilizado pela crise de 2008, havia dado lugar à estagnação e à queda nos níveis de vida. Nesse contexto, Putin percebeu o Euromaidan em Kiev, em 2014, como uma ameaça direta: uma mudança de poder provocada pela mobilização de rua na Ucrânia parecia-lhe um precedente potencialmente contagioso. Devido à proximidade geográfica, aos laços históricos e à atenção da mídia, esse cenário colocava o risco, aos seus olhos, de oferecer à sociedade russa um exemplo concreto de derrubada de um poder considerado ilegítimo. Ele respondeu, portanto, com uma escalada agressiva – a anexação da Crimeia e, em seguida, a intervenção no leste da Ucrânia –, tanto para reafirmar o domínio russo no “estrangeiro próximo” quanto para reforçar, internamente, uma lógica de “fortaleza sitiada”. A partir de então, a política externa e a política interna tornaram-se indissociáveis: uma serve para bloquear a outra.
A anexação da Crimeia e a intervenção militar no leste da Ucrânia marcaram uma virada na transformação do regime. A legitimidade abalada do putinismo foi restaurada pela guerra e pela transição gradual para uma política de “fortaleza sitiada”. A “maioria conservadora silenciosa” da construção ideológica putinista foi suplantada pelo “consenso da Crimeia”: um acordo passivo, amplamente compartilhado, com as aventuras geopolíticas do regime. Qualquer pessoa que expressasse sua dissidência diante desse imperialismo era qualificada de “traidor da nação”. A política interna deu então lugar à política externa: o único sujeito atuante poderia ser o chefe nacional e comandante-chefe, enquanto o dever cívico dos demais se reduzia ao apoio passivo.
Mas o “consenso da Crimeia” não durou. A partir de 2017, uma nova onda de politização surgiu na Rússia, sob diversas formas: manifestações de rua contra a corrupção, por iniciativa do populista liberal Alexei Navalny; descontentamento em massa diante de uma reforma neoliberal das aposentadorias; movimentos vigorosos em defesa do meio ambiente; e lutas para preservar a autonomia do poder local nas regiões. Em toda a sua diversidade, essas mobilizações colocaram a questão das desigualdades sociais de forma muito mais nítida do que em 2011. A repressão e a retórica geopolítica já não bastavam ao regime para obter o controle total sobre a sociedade: era necessária uma verdadeira guerra.
Vemos que, apoiando-se em uma maioria despolitizada e imaginária (cujo conteúdo é constantemente redefinido de cima), o putinismo deslizou para o fascismo como tentativa de resolver sua crise estrutural e de reprimir os desafios internos e externos. Quanto mais sério era o desafio, maior era o risco de revelar as contradições entre a elite capitalista e a classe trabalhadora empobrecida. Para se manter, o regime foi empurrado a medidas cada vez mais radicais em direção ao fascismo.
A ordem reina em Moscou
Se a primeira forma “tecnocrática” do putinismo contava com uma base eleitoral passiva na burocracia estatal, nas pequenas empresas e em certas frações atomizadas da classe trabalhadora, sua forma final exibe um poder nu: o Estado impõe uma ordem baseada em uma desigualdade de classe brutal. Na situação atual, a classe média apoia amplamente a retórica chauvinista antiucraniana, mas não envia seus filhos para o exército. A maioria das forças russas na Ucrânia provém de trabalhadores provinciais pobres e desempregados, para os quais o alistamento é, por vezes, a única possibilidade de obter um emprego com salário decente.
No início da primavera de 2022, bastaram algumas semanas para que o regime impusesse uma nova ordem política após a invasão da Ucrânia – com extrema ferocidade. Manifestações antiguerra mal organizadas foram reprimidas com brutalidade sem precedentes: mais de 16 mil pessoas foram presas e punidas ao longo da primavera. Foi instaurada uma censura militar, com penas que podem chegar a quinze anos de prisão. Qualquer oposição pública à invasão tornou-se crime – não apenas as manifestações, mas também uma mensagem nas redes sociais ou um comentário no trabalho. A repressão continua seletiva, mas se intensifica; já teve o efeito de intimidação generalizada.
O apoio de massas à guerra, tal como se manifesta em pesquisas realizadas principalmente por institutos controlados pelo Kremlin, tem um caráter performático e forçado. As respostas são percebidas como um ato de lealdade que permite preservar a segurança da vida privada. É difícil dizer até que ponto essa situação é estável. A queda no padrão de vida devido às sanções e aos gastos militares, bem como a magnitude das perdas – por muito tempo ocultada – serão fatores de descontentamento. É por isso que a guerra, de uma forma ou de outra, provavelmente será a condição de existência do regime – e talvez a causa de seu colapso.
No entanto, já é possível afirmar hoje que o regime de Putin passou, ao longo de mais de vinte anos, por uma evolução gradual: do autoritarismo neoliberal despolitizado a uma ditadura brutal. Trata-se de um desenvolvimento grotesco decorrente da “normalidade” de uma sociedade capitalista quando confrontada com a crise econômica, com uma desigualdade social maciça e com uma ordem mantida pela repressão interna e pela guerra imperialista externa. É isso que há de “normal” e de familiar no regime de Putin: a passividade e a atomização da sociedade, o anti-universalismo reacionário da retórica, tudo isso multiplicado pela racionalidade cínica das elites. É preciso qualificá-lo explicitamente como fascista, não apenas porque ele corresponde a essa definição, mas também para que os movimentos emancipadores de hoje compreendam a amplitude da ameaça mundial que paira sobre nosso futuro comum.
27 de outubro de 2022
Ilya Budraitskis é historiador e pesquisador em ciências políticas, militante socialista russo atualmente no exílio. Ex-membro do Movimento Socialista Russo (RSM/RSD), organização anticapitalista fundada em 2011 e autodissolvida em 2024 após ser classificada como “agente estrangeiro”, ele lecionou na Universidade de Moscou e participou da organização do movimento anti-guerra na Rússia até seu exílio em 2022. É autor, entre outros, de Dissidents among Dissidents: Ideology, Politics, and the Left in Post-Soviet Russia (Verso, 2022). Este artigo foi publicado originalmente em inglês pela Ukraine Solidarity Campaign e traduzido do inglês para o Contretemps.eu por Christian Dubucq.
2) Vladimir Putin, “A vitória russa na Primeira Guerra Mundial foi roubada”, Kommersant, 01/08/2014.
3) Pierre-André Taguieff, “Discussion or Inquisition: The Case of Alain de Benoist” [Discussão ou Inquisição: O Caso de Alain de Benoist], Telos, n.ºs 98-99, 1993-1994, p. 34-54.
4) Timothy Snyder, “We should say it. Russia is fascist”, The New York Times, 19/05/2022.
5) Grigory Golosov, “Fascist Russia?”, Riddle, 30/05/2022.
6) Robert Paxton, Anatomia do Fascismo, São Paulo, Paz e Terra, 2023.
7) Paxton, Ibid.
8) Alexander J. Motyl, “Putin’s Russia as a Fascist Political System ”, Communist and Post-Communist Studies, vol. 49, n.º 1, 2016, p. 25-36.
9) Maurice Merleau-Ponty, As aventuras da dialética, São Paulo, Martins Fontes, 2006, capítulo “Sartre e o ultrabolchevismo”.
10) Karl Polanyi, A Grande Transformação - As origens políticas e econômicas do nosso tempo, Rio de Janeiro, Contraponto, 2006. Ver também Jérôme Maucourant, Bonnes feuilles de Avez-vous lu Polanyi ? – postface », Contretemps, 29/10/2011.
11) Hannah Arendt, As Origens do Totalitarismo, vol. 3: O Sistema Totalitário, São Paulo, Companhia de Bolso, 2013.
12) Walter Benjamin, “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, em A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, São Paulo, L&MP Pocket, 2018.
13) Siegfried Kracauer, L’Ornement de la masse. Essais sur la modernité weimarienne, Paris, La Découverte, 2008.
14) Leon Trotsky, “How Mussolini triumphed” acessível em: https://www.wsws.org/en/special/library/fascism-what-it-is-how-to-fight-it-leon-trotsky/02.html
15) 15) Franz Neumann, Béhémoth. Structure et pratique du national-socialisme, Paris, Payot, 1987.
16) Nick Land, “Dark Enlightenmen”, no francês “Les Lumières noires”, Divergences, parte 1, 14/10/2025, e parte 2, 02/09/2025.
17) Rússia Unida (Edinaïa Rossiïa) é o principal partido pró-Kremlin, frequentemente apresentado como o partido do poder; foi fundado em 1º de dezembro de 2001 pela fusão de vários movimentos e partidos que apoiavam o Kremlin.
18) Ilya Matveev, “Russia Inc.”, openDemocracy, 16/05/2016.
19) “The Weakest Link of Managed Democracy: How the Parliament Gave Birth to Nonparliamentary Politics” [O elo mais fraco da democracia dirigida: como o parlamento deu origem à política extraparlamentar], South Atlantic Quarterly, vol. 113, n.º 1, 2014, p. 169-185.

