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Sudão: continuar a luta, apesar da guerra civil

por Paul Martial
Comboio ferroviário durante a revolução sudanesa (208-2019)
Comboio de mobilização durante revolução sudanesa, 2018-2019, interrompida pelo golpe de estado de 2021 e a guerra civil que se seguiu

O conflito entre o general Burhan, chefe do exército, as Forças Armadas do Sudão (SAF), e Hemedti, chefe das Forças de Apoio Rápido (1), que já dura mais de três anos, interrompeu de forma sangrenta o processo revolucionário de outubro de 2019. Nesta entrevista concedida a Paul Martial, Kuku Niemat e Adam Sharief, membros do comité central do Partido Comunista Sudanês (PCS), descrevem a situação de seu país. Kuku Niemat é também uma ativista feminista, um movimento que tem longa tradição de luta no Sudão.

Qual é sua análise do processo revolucionário desencadeado em 2019?

Adam Sharief: Desde o início da revolução, coexistem duas correntes. A primeira, que pode ser caracterizada como um «soft landing» (2), reflete o plano dos EUA, que não queriam perturbar um regime comprador que desempenha um papel de intermediário com o capitalismo mundial. Tentou alargar a base social de el-Bechir, favorecendo certos grupos e classes sociais. A segunda corrente defende uma transformação radical da sociedade, com o objetivo de derrubar o sistema capitalista parasitário e instaurar um regime democrático baseado nas classes que têm interesse numa transformação radical da sociedade. Esta corrente combateu o golpe de Estado, o imperialismo e a elite que pretendiam impedir as classes populares de aceder ao poder. Tentou mobilizar os seus aliados a nível regional e no interior do país, nomeadamente entre a pequena burguesia e os militares. O PCS considera que, em 11 de abril de 2019, o Comitê de Segurança do regime de el-Bechir, liderado por Abdel Fattah al-Burhan e Hemedti, levou a cabo um golpe de Estado para preservar o regime e as suas diversas instituições. Foi por isso que os Comitês de Resistência (CR), criados em 2013, prosseguiram a sua mobilização; a guerra foi desencadeada para travar a revolução.

Pode falar-nos sobre a criação e a função dos Comitês de Resistência?

Adam Sharief: Os CR são a forma de auto-organização mais elaborada que o povo sudanês desenvolveu. O PCS participou na sua construção nos bairros e locais de trabalho do país. Juntamente com a Associação de Profissionais Sudaneses (APS), os CR desempenharam um papel importante na queda do regime, embora, na realidade, apenas a cabeça do regime tenha caído. Os CR continuam hoje a sua mobilização e resistem à repressão das RSF e das SAF. Foram alvo dos islamistas do antigo regime e das forças especiais, nomeadamente em Cartum, mas, apesar de tudo, os CR continuam a atuar nas falhas do Estado, garantindo refeições, abrigo e cuidados médicos à população. A 18 de dezembro de 2025, para a comemoração da revolução, muitos jovens dos Comitês de Resistência saíram à rua e entoaram slogans para afirmar que a revolução continua, que o objetivo continua a ser a liberdade, a igualdade e a paz.

Kuku Niemat: A juventude mobilizou-se contra o serviço militar obrigatório e devido à violência, nomeadamente aos assassinatos, contra os estudantes; defendeu os seus direitos. Os Comitês de Resistência preencheram um vazio na juventude e permitiram resistir ao islamismo político e, de forma mais geral, ao regime totalitário. Por iniciativa do PCS em junho de 2010, primeiro nos bairros e depois nos locais de trabalho – os sindicatos democráticos estavam proibidos –, estes Comitês organizaram a resistência a partir da base e as lutas nas ruas. Também surgiram Comitês de zonas de conflito, como o Darfur, que alimentaram a luta.

Apesar da guerra, os CR mobilizam-se nos bairros e nos locais de trabalho.  sua base mais ativa continua a ser a dos jovens e dos estudantes. Os CR resistiram ao golpe de Estado e às consequências da guerra; foi por isso que organizaram as emergency rooms (3) com a ajuda do sindicato dos médicos e de empresários que apoiavam a acolhida dos refugiados. Cerca de 12 milhões de sudaneses contam com os CR. Lutam contra a deterioração das condições sanitárias, sociais, humanas e económicas. Revitalizam e mantêm o tecido social. Exercem uma grande influência a nível regional, mas também internacional, com ajudas que chegam de todo o mundo.

Outras organizações têm sido muito ativas, nomeadamente o movimento feminista.

Kuku Niemat: As mulheres, tal como os jovens, foram a ponta de lança da revolução, pois eram as mais visadas pelo regime islâmico e pela violência de Estado. Desde 2019, desempenharam um papel essencial na queda do regime. As mulheres sudanesas estão muito empenhadas na resistência contra o antigo regime. Isto pode explicar-se pela existência de conquistas anteriores e históricas, desde 1965, nomeadamente com a União das Mulheres Sudanesas, composta por democratas e comunistas. As mulheres entraram na resistência para proteger essas conquistas.

Desde a década de 1990, o movimento das mulheres estruturou-se e integrou-se em organizações internacionais, como a Conferência Mundial das Mulheres de Pequim ou a CEDAW (4). Esta foi uma dimensão importante na luta contra o projeto político do regime islâmico, que impunha normas, nomeadamente no que diz respeito ao movimento social em geral, e que impunha o uso do vestuário islâmico. Não é exagero dizer que três quartos dos manifestantes durante os dias da revolução eram mulheres, sobretudo jovens, pois eram elas que mais sofriam a violência do Estado através das leis contra os direitos das mulheres.

O movimento feminista teve de travar uma luta em duas frentes. Por um lado, contra os ataques das forças do antigo regime, após dezenas de semanas de repressão, quando o movimento das mulheres democráticas sudanesas era um dos mais avançados da região desde os anos 60, com inúmeras conquistas que serviram de ponto de apoio à revolução, mas também de alvo para os islamistas. Por outro lado, no seio da própria revolução, face às forças burguesas presentes em todas as forças sociais que derrubaram o regime, mas que não eram revolucionárias e marginalizaram os direitos e as reivindicações das mulheres. Esta é uma das principais fraquezas da revolução.

Neste panorama dos movimentos de massas, é óbvio que há que mencionar as organizações sindicais.

Adam Sharief: Sim, porque o movimento sindical sempre esteve ligado ao movimento de libertação nacional. O PCS atribuiu grande importância ao trabalho sindical desde 1946, em torno da luta pelo aumento dos salários, pela regulação dos preços e pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores e trabalhadoras, apoiando-se numa linha de luta de classes. A ideia era promover a democracia interna para permitir um amplo movimento de massas assente na participação de todos os trabalhadores e trabalhadoras, independentemente da sua opinião ou religião.

O PCS participou na criação do sindicato dos trabalhadores ferroviários, que representou a vanguarda do movimento social no país. Contribuiu também para a construção da União dos Camponeses de Al Jazirah, a grande região agrícola.

Ao longo da sua história, o PCS adquiriu uma vasta experiência nas lutas sindicais, combinando reivindicações económicas e políticas, pois trata-se de uma única e mesma luta. A linha do PC consistia em organizar as massas na base e conduzir o trabalho sindical na perspetiva da greve política e da desobediência civil; este trabalho, levado a cabo desde os anos 60, culminou na revolução de dezembro de 2019. Havia muitos sindicatos e trabalhamos para reunir os trabalhadores e trabalhadoras, o que permitiu a vitória da revolução. Pode-se dizer que os sindicatos foram o núcleo principal de todas as lutas revolucionárias.

Assim, em outubro de 1964, os sindicatos, à cabeça de uma ampla frente, lideraram um protesto civil que obrigou o general Ibrahim Abboud a abandonar o poder. A mobilização dos trabalhadores ferroviários, advogados, médicos e professores universitários repetiu a experiência em 1985, recorrendo à desobediência civil e à greve política, o que resultou na saída do coronel Nimeiry.

A luta dos sindicatos no Sudão prosseguiu até ao golpe de Estado de Bashir, em 30 de junho de 1989. Vivemos então o pior regime desde 1956. Este colaborava com o sistema capitalista mundial. Compreendeu o papel dos sindicatos na luta do povo sudanês e, por isso, dissolveu-os e despediu os sindicalistas em nome do que foi chamado de «interesse geral».

Este regime visou particularmente os sindicatos onde os militantes comunistas eram influentes. Paralelamente, começou a privatizar os grandes projetos nacionais. Aprovou, em 2010, a lei sobre as empresas, que coloca o trabalhador e o patrão em pé de igualdade, integrando-os no mesmo sindicato, bem como a lei sobre as profissões médicas, que reúne médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde.

Estas leis permitiram ao governo controlar as forças sindicais através de um funcionário que registra os sindicatos e pode dissolvê-lo. Foram introduzidos obstáculos jurídicos ao direito à greve, bem como uma gestão hierárquica e antidemocrática dos sindicatos. São necessários muitos trabalhadores para que um sindicato exista. O regime de el-Bechir recorreu à repressão contra o movimento operário. De 2010 a 2019, não foi organizado nenhum dia de greve. As leis de 2010 foram condenadas pela OIT e pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, por não respeitarem os requisitos mínimos de independência sindical. O direito à greve foi, de fato, tornado impossível.

Qual é a situação atual?

Adam Sharief: Desde 2021, assistimos, com Burhan, a uma ofensiva regressiva contra os direitos dos trabalhadores e as liberdades sindicais. Muitas organizações foram dissolvidas no âmbito de uma onda repressiva muito dura e praticamente já não existe trabalho sindical organizado. Assistimos a uma repressão das liberdades, à prisão de sindicalistas e ativistas. Instalou-se um clima de terror no país.

Com a guerra, toda a vida produtiva está paralisada. As fábricas as atividades econômicas e a agricultura estão paradas. Algumas empresas continuam em atividade, mas de forma muito limitada, com fracas tentativas de organização dos trabalhadores para defender os seus direitos. Com a guerra, a situação é catastrófica.

Qual é a sua posição em relação ao papel do exército?

Adam Sharief: O exército desempenhou um papel importantíssimo na história do Sudão, a começar pelos oficiais livres na década de 1960. Esta organização incluía oficiais nacionalistas e do PC; em 1964, este grupo derrubou o regime. Em 1989, houve uma tentativa de acabar com esta tradição de organização dos «oficiais livres» no exército, afastando-os e introduzindo em massa oficiais islamistas. O regime instaurou a islamização do exército, criando nomeadamente uma escola de oficiais. Assim, em vez de desempenhar um papel nacional, o exército defende o regime em vigor.

Qual é a sua posição em relação à coligação Somoud (5)?

Kuku Niemat: É preciso compreender a composição social e econômica da Somoud: trata-se de uma coligação de diferentes partidos políticos provenientes de irmandades religiosas e da pequena burguesia que pertencem ao campo neoliberal. O regime de el-Bechir é um regime 100% capitalista e parasitário, um regime pró-imperialista que transmitiu vários dossiês relativos aos islamistas da região árabe à CIA; chegou mesmo a considerar entregar Osama bin Laden, tal como entregou Carlos (6) à França depois de o ter acolhido em campos de treino. Uma parte do grupo das Forças da Liberdade e da Mudança pensava que poderia ganhar as eleições, sob a tutela dos islamistas, em 2020. Nós pensávamos o contrário: uma mudança de regime só poderia ocorrer a partir de mobilizações de massas. O nosso partido tem uma longa experiência em mudanças de regime obtidas por mobilizações de massas pacíficas, como em 1964 e em 1985.

Foram as forças sindicais e os Comitês de Resistência que obrigaram o Conselho Militar a destituir el-Bechir a 11 de abril de 2019. Consideramos que se trata de uma revolução de palácio, pois Hemedti e Burhan faziam parte do antigo regime.

O PCS apelou à continuação da revolução pela liberdade, paz e justiça, ao regresso do exército aos quartéis e à dissolução dos Janjawids. Os nossos parceiros das Forças da Liberdade e da Mudança, que formaram o Taqaddom e depois o Somoud após a retirada do PCS, assinaram com o regime o documento constitucional em 2019, que reconhece os Janjawids como parte integrante da cena política.

O movimento popular e revolucionário recusou-se a unir-se a estes grupos, pois isso seria uma forma de legitimar os militares, o poder islamista e os Janjaweed. O golpe de Estado de Burhan, em 25 de outubro de 2021, teve então como objetivo trazer os islamistas de volta ao poder e esmagar a revolução. Hamdok, o primeiro-ministro do governo de transição, assinou então novamente um acordo-quadro que reconhecia os Janjawids, e nós o recusamos. Esta é a nossa principal divergência com todos esses grupos que traíram os objetivos da revolução.

A coligação Somoud quer chegar ao poder, mesmo que isso implique chegar a um acordo com Hemedti ou Burhan para instaurar um regime capitalista; é o oposto do que o povo sudanês quer. Para nós, não há qualquer diferença entre Somoud e Tasis: o seu objetivo é apenas a conquista do poder.

É por isso que o PCS não apoia nenhuma das duas coligações. Mantemo-nos fiéis às reivindicações de 2019: uma revolução para e pelo povo, com a exigência de que os militares regressem aos quartéis e que as FSR sejam dissolvidas. Trabalhamos para reunir as forças revolucionárias e democráticas fiéis à revolução. Queremos uma grande frente de massas dos sudaneses dentro e fora do país, apoiada pela solidariedade internacional, e não agrupamentos que defendem compromissos em detrimento dos interesses do povo.

Sua organização denunciou as intervenções externas no Sudão, certo?

Kuku Niemat : O PCS elaborou um documento sobre a soberania nacional durante a revolução, em dezembro de 2020, e alertou o movimento para os perigos das violações da soberania do Sudão. A ingerência mais direta é a do Egito. Nesse país, o exército usurpou a revolução e tentou fazer o mesmo no Sudão através dos serviços de informação do exército egípcio, que intervieram diretamente durante a revolução. Os egípcios chegaram mesmo a desempenhar um papel na alteração de um documento constitucional para integrar a associação entre o exército e os civis. Foi ele quem avançou com esta ideia de parceria, à qual o PCS – e outros movimentos – se opôs através de uma declaração amplamente divulgada em abril de 2019.

É importante mencionar também o papel dos Emirados Árabes Unidos (EAU) que, através do seu controlo sobre os portos sudaneses e grandes extensões de terras agrícolas, constituem um apoio para as FSR. Por fim, o terceiro interveniente é o Banco Mundial e o FMI, que exerceram pressão sobre o governo, levando ao abandono das decisões do congresso econômico. O nosso partido é intransigente nesta questão, pois trata-se de defender a necessidade de uma mudança global das estruturas de poder e da soberania nacional do Sudão.

 

Para terminar, poderia descrever-nos a situação das populações após três anos de guerra?

Kuku Niemat: Os cidadãos sudaneses sofrem a violência de ambas as forças que se enfrentam: por um lado, Burhan e os Irmãos Muçulmanos; por outro, as FSR, que se constituíram como governo em Darfur. Trata-se de uma guerra por procuração organizada pelo capitalismo mundial. Os dois campos são os braços armados encarregados de reprimir a revolta do povo sudanês iniciada em dezembro de 2019.

O sofrimento está ligado à falta de alimentos, aos combates que não poupam os civis, bem como à propagação de doenças devido à falta de higiene. O sofrimento é igualmente intenso nas zonas controladas pelas Forças Armadas do Sudão (SAF). Há 12 milhões de deslocados e 4 milhões de refugiados. A insegurança está por todo o lado.

As SAF são compostas por várias milícias. Tourabi sempre defendeu que não precisava de um exército clássico, mas sim de forças ideológicas islâmicas. O comando do exército tornou-se uma força econômica. Trata-se de uma guerra regional, uma guerra ligada aos recursos de todos os territórios, à água e às múltiplas riquezas materiais.

 

Adam Sharief: Nosso povo enfrenta grandes perigos de ambos os lados. Há assassinatos, violações; a fome é utilizada como arma de guerra nas zonas controladas pelas SAF; a repressão é muito forte, com o recurso a juízes para eliminar os opositores e os jovens muito ativos durante a revolução, acusados de apoiar as FSR com base em julgamentos arbitrários. Nas regiões de Darfur e do Kordofan, existe uma hegemonia totalitária das FSR. Não há quaisquer direitos; qualquer oposição pode ser acusada de apoiar as SAF. É a lei da selva. Os meios de comunicação falaram de centenas de mortos e de limpeza étnica. Em Nyala, na prisão de Dagrees, os métodos utilizados lembram os de Guantánamo.

Nesta prisão, milhares de sudaneses e prisioneiros de guerra das SAF estão amontoados. Todas as semanas, registam-se dezenas de mortos; a tortura é sistemática, a comida é insuficiente e não há cuidados médicos. As visitas das famílias, bem como as das ONG, incluindo a Cruz Vermelha, são proibidas.  

24 de janeiro de 2026

 

notes

Notas

1) As Rapid Support Forces (RSF, ou FSR em francês) têm origem nos Janjawids (hordas em árabe), uma milícia criada pelo regime de el-Bechir em 2003 para esmagar as revoltas no Darfur. Esta milícia é culpada de crimes contra a humanidade; algumas organizações falam de genocídio. Nesta entrevista, os termos FSR ou Janjawid são utilizados indistintamente para se referir às tropas lideradas por Hemedti.

2) «Slow landing»: aterrisagem suave. Trata-se de uma corrente que visa apenas algumas reformas, dentro do quadro do antigo regime.

3) Locais onde as populações podem receber alimentos, cuidados e apoio moral.

4) CEDAW: Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres. O Sudão recusou-se a ratificar este acordo internacional.

5) Somoud é uma aliança de partidos políticos e organizações da sociedade civil liderada pelo antigo primeiro-ministro Abdallah Hamdok, criada na sequência da revolução. Resulta da coligação Taqaddom, criada em outubro de 2023 em Adis Abeba (Etiópia), e divide-se em 2025 entre a coligação Tasis, ligada às RSF e liderada por Hemedti, e a Somoud.

6) Condenado por vários atentados, Carlos encontra-se detido na prisão de Poissy, na região de Paris.