O conflito entre o general Burhan, chefe do exército, as Forças Armadas do Sudão (SAF), e Hemedti, chefe das Forças de Apoio Rápido (1), que já dura mais de três anos, interrompeu de forma sangrenta o processo revolucionário de outubro de 2019. Nesta entrevista concedida a Paul Martial, Kuku Niemat e Adam Sharief, membros do comité central do Partido Comunista Sudanês (PCS), descrevem a situação de seu país. Kuku Niemat é também uma ativista feminista, um movimento que tem longa tradição de luta no Sudão.
Qual é sua análise do processo revolucionário desencadeado em 2019?
Adam Sharief: Desde o início da revolução, coexistem duas correntes. A primeira, que pode ser caracterizada como um «soft landing» (2), reflete o plano dos EUA, que não queriam perturbar um regime comprador que desempenha um papel de intermediário com o capitalismo mundial. Tentou alargar a base social de el-Bechir, favorecendo certos grupos e classes sociais. A segunda corrente defende uma transformação radical da sociedade, com o objetivo de derrubar o sistema capitalista parasitário e instaurar um regime democrático baseado nas classes que têm interesse numa transformação radical da sociedade. Esta corrente combateu o golpe de Estado, o imperialismo e a elite que pretendiam impedir as classes populares de aceder ao poder. Tentou mobilizar os seus aliados a nível regional e no interior do país, nomeadamente entre a pequena burguesia e os militares. O PCS considera que, em 11 de abril de 2019, o Comitê de Segurança do regime de el-Bechir, liderado por Abdel Fattah al-Burhan e Hemedti, levou a cabo um golpe de Estado para preservar o regime e as suas diversas instituições. Foi por isso que os Comitês de Resistência (CR), criados em 2013, prosseguiram a sua mobilização; a guerra foi desencadeada para travar a revolução.
Pode falar-nos sobre a criação e a função dos Comitês de Resistência?
Adam Sharief: Os CR são a forma de auto-organização mais elaborada que o povo sudanês desenvolveu. O PCS participou na sua construção nos bairros e locais de trabalho do país. Juntamente com a Associação de Profissionais Sudaneses (APS), os CR desempenharam um papel importante na queda do regime, embora, na realidade, apenas a cabeça do regime tenha caído. Os CR continuam hoje a sua mobilização e resistem à repressão das RSF e das SAF. Foram alvo dos islamistas do antigo regime e das forças especiais, nomeadamente em Cartum, mas, apesar de tudo, os CR continuam a atuar nas falhas do Estado, garantindo refeições, abrigo e cuidados médicos à população. A 18 de dezembro de 2025, para a comemoração da revolução, muitos jovens dos Comitês de Resistência saíram à rua e entoaram slogans para afirmar que a revolução continua, que o objetivo continua a ser a liberdade, a igualdade e a paz.
Kuku Niemat: A juventude mobilizou-se contra o serviço militar obrigatório e devido à violência, nomeadamente aos assassinatos, contra os estudantes; defendeu os seus direitos. Os Comitês de Resistência preencheram um vazio na juventude e permitiram resistir ao islamismo político e, de forma mais geral, ao regime totalitário. Por iniciativa do PCS em junho de 2010, primeiro nos bairros e depois nos locais de trabalho – os sindicatos democráticos estavam proibidos –, estes Comitês organizaram a resistência a partir da base e as lutas nas ruas. Também surgiram Comitês de zonas de conflito, como o Darfur, que alimentaram a luta.
Apesar da guerra, os CR mobilizam-se nos bairros e nos locais de trabalho. sua base mais ativa continua a ser a dos jovens e dos estudantes. Os CR resistiram ao golpe de Estado e às consequências da guerra; foi por isso que organizaram as emergency rooms (3) com a ajuda do sindicato dos médicos e de empresários que apoiavam a acolhida dos refugiados. Cerca de 12 milhões de sudaneses contam com os CR. Lutam contra a deterioração das condições sanitárias, sociais, humanas e económicas. Revitalizam e mantêm o tecido social. Exercem uma grande influência a nível regional, mas também internacional, com ajudas que chegam de todo o mundo.
Outras organizações têm sido muito ativas, nomeadamente o movimento feminista.
Kuku Niemat: As mulheres, tal como os jovens, foram a ponta de lança da revolução, pois eram as mais visadas pelo regime islâmico e pela violência de Estado. Desde 2019, desempenharam um papel essencial na queda do regime. As mulheres sudanesas estão muito empenhadas na resistência contra o antigo regime. Isto pode explicar-se pela existência de conquistas anteriores e históricas, desde 1965, nomeadamente com a União das Mulheres Sudanesas, composta por democratas e comunistas. As mulheres entraram na resistência para proteger essas conquistas.
Desde a década de 1990, o movimento das mulheres estruturou-se e integrou-se em organizações internacionais, como a Conferência Mundial das Mulheres de Pequim ou a CEDAW (4). Esta foi uma dimensão importante na luta contra o projeto político do regime islâmico, que impunha normas, nomeadamente no que diz respeito ao movimento social em geral, e que impunha o uso do vestuário islâmico. Não é exagero dizer que três quartos dos manifestantes durante os dias da revolução eram mulheres, sobretudo jovens, pois eram elas que mais sofriam a violência do Estado através das leis contra os direitos das mulheres.
O movimento feminista teve de travar uma luta em duas frentes. Por um lado, contra os ataques das forças do antigo regime, após dezenas de semanas de repressão, quando o movimento das mulheres democráticas sudanesas era um dos mais avançados da região desde os anos 60, com inúmeras conquistas que serviram de ponto de apoio à revolução, mas também de alvo para os islamistas. Por outro lado, no seio da própria revolução, face às forças burguesas presentes em todas as forças sociais que derrubaram o regime, mas que não eram revolucionárias e marginalizaram os direitos e as reivindicações das mulheres. Esta é uma das principais fraquezas da revolução.
Neste panorama dos movimentos de massas, é óbvio que há que mencionar as organizações sindicais.
Adam Sharief: Sim, porque o movimento sindical sempre esteve ligado ao movimento de libertação nacional. O PCS atribuiu grande importância ao trabalho sindical desde 1946, em torno da luta pelo aumento dos salários, pela regulação dos preços e pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores e trabalhadoras, apoiando-se numa linha de luta de classes. A ideia era promover a democracia interna para permitir um amplo movimento de massas assente na participação de todos os trabalhadores e trabalhadoras, independentemente da sua opinião ou religião.
O PCS participou na criação do sindicato dos trabalhadores ferroviários, que representou a vanguarda do movimento social no país. Contribuiu também para a construção da União dos Camponeses de Al Jazirah, a grande região agrícola.
Ao longo da sua história, o PCS adquiriu uma vasta experiência nas lutas sindicais, combinando reivindicações económicas e políticas, pois trata-se de uma única e mesma luta. A linha do PC consistia em organizar as massas na base e conduzir o trabalho sindical na perspetiva da greve política e da desobediência civil; este trabalho, levado a cabo desde os anos 60, culminou na revolução de dezembro de 2019. Havia muitos sindicatos e trabalhamos para reunir os trabalhadores e trabalhadoras, o que permitiu a vitória da revolução. Pode-se dizer que os sindicatos foram o núcleo principal de todas as lutas revolucionárias.
Assim, em outubro de 1964, os sindicatos, à cabeça de uma ampla frente, lideraram um protesto civil que obrigou o general Ibrahim Abboud a abandonar o poder. A mobilização dos trabalhadores ferroviários, advogados, médicos e professores universitários repetiu a experiência em 1985, recorrendo à desobediência civil e à greve política, o que resultou na saída do coronel Nimeiry.
A luta dos sindicatos no Sudão prosseguiu até ao golpe de Estado de Bashir, em 30 de junho de 1989. Vivemos então o pior regime desde 1956. Este colaborava com o sistema capitalista mundial. Compreendeu o papel dos sindicatos na luta do povo sudanês e, por isso, dissolveu-os e despediu os sindicalistas em nome do que foi chamado de «interesse geral».
Este regime visou particularmente os sindicatos onde os militantes comunistas eram influentes. Paralelamente, começou a privatizar os grandes projetos nacionais. Aprovou, em 2010, a lei sobre as empresas, que coloca o trabalhador e o patrão em pé de igualdade, integrando-os no mesmo sindicato, bem como a lei sobre as profissões médicas, que reúne médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde.
Estas leis permitiram ao governo controlar as forças sindicais através de um funcionário que registra os sindicatos e pode dissolvê-lo. Foram introduzidos obstáculos jurídicos ao direito à greve, bem como uma gestão hierárquica e antidemocrática dos sindicatos. São necessários muitos trabalhadores para que um sindicato exista. O regime de el-Bechir recorreu à repressão contra o movimento operário. De 2010 a 2019, não foi organizado nenhum dia de greve. As leis de 2010 foram condenadas pela OIT e pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, por não respeitarem os requisitos mínimos de independência sindical. O direito à greve foi, de fato, tornado impossível.
Qual é a situação atual?
Adam Sharief: Desde 2021, assistimos, com Burhan, a uma ofensiva regressiva contra os direitos dos trabalhadores e as liberdades sindicais. Muitas organizações foram dissolvidas no âmbito de uma onda repressiva muito dura e praticamente já não existe trabalho sindical organizado. Assistimos a uma repressão das liberdades, à prisão de sindicalistas e ativistas. Instalou-se um clima de terror no país.
Com a guerra, toda a vida produtiva está paralisada. As fábricas as atividades econômicas e a agricultura estão paradas. Algumas empresas continuam em atividade, mas de forma muito limitada, com fracas tentativas de organização dos trabalhadores para defender os seus direitos. Com a guerra, a situação é catastrófica.
Qual é a sua posição em relação ao papel do exército?
Adam Sharief: O exército desempenhou um papel importantíssimo na história do Sudão, a começar pelos oficiais livres na década de 1960. Esta organização incluía oficiais nacionalistas e do PC; em 1964, este grupo derrubou o regime. Em 1989, houve uma tentativa de acabar com esta tradição de organização dos «oficiais livres» no exército, afastando-os e introduzindo em massa oficiais islamistas. O regime instaurou a islamização do exército, criando nomeadamente uma escola de oficiais. Assim, em vez de desempenhar um papel nacional, o exército defende o regime em vigor.
Qual é a sua posição em relação à coligação Somoud (5)?
Kuku Niemat: É preciso compreender a composição social e econômica da Somoud: trata-se de uma coligação de diferentes partidos políticos provenientes de irmandades religiosas e da pequena burguesia que pertencem ao campo neoliberal. O regime de el-Bechir é um regime 100% capitalista e parasitário, um regime pró-imperialista que transmitiu vários dossiês relativos aos islamistas da região árabe à CIA; chegou mesmo a considerar entregar Osama bin Laden, tal como entregou Carlos (6) à França depois de o ter acolhido em campos de treino. Uma parte do grupo das Forças da Liberdade e da Mudança pensava que poderia ganhar as eleições, sob a tutela dos islamistas, em 2020. Nós pensávamos o contrário: uma mudança de regime só poderia ocorrer a partir de mobilizações de massas. O nosso partido tem uma longa experiência em mudanças de regime obtidas por mobilizações de massas pacíficas, como em 1964 e em 1985.
Foram as forças sindicais e os Comitês de Resistência que obrigaram o Conselho Militar a destituir el-Bechir a 11 de abril de 2019. Consideramos que se trata de uma revolução de palácio, pois Hemedti e Burhan faziam parte do antigo regime.
O PCS apelou à continuação da revolução pela liberdade, paz e justiça, ao regresso do exército aos quartéis e à dissolução dos Janjawids. Os nossos parceiros das Forças da Liberdade e da Mudança, que formaram o Taqaddom e depois o Somoud após a retirada do PCS, assinaram com o regime o documento constitucional em 2019, que reconhece os Janjawids como parte integrante da cena política.
O movimento popular e revolucionário recusou-se a unir-se a estes grupos, pois isso seria uma forma de legitimar os militares, o poder islamista e os Janjaweed. O golpe de Estado de Burhan, em 25 de outubro de 2021, teve então como objetivo trazer os islamistas de volta ao poder e esmagar a revolução. Hamdok, o primeiro-ministro do governo de transição, assinou então novamente um acordo-quadro que reconhecia os Janjawids, e nós o recusamos. Esta é a nossa principal divergência com todos esses grupos que traíram os objetivos da revolução.
A coligação Somoud quer chegar ao poder, mesmo que isso implique chegar a um acordo com Hemedti ou Burhan para instaurar um regime capitalista; é o oposto do que o povo sudanês quer. Para nós, não há qualquer diferença entre Somoud e Tasis: o seu objetivo é apenas a conquista do poder.
É por isso que o PCS não apoia nenhuma das duas coligações. Mantemo-nos fiéis às reivindicações de 2019: uma revolução para e pelo povo, com a exigência de que os militares regressem aos quartéis e que as FSR sejam dissolvidas. Trabalhamos para reunir as forças revolucionárias e democráticas fiéis à revolução. Queremos uma grande frente de massas dos sudaneses dentro e fora do país, apoiada pela solidariedade internacional, e não agrupamentos que defendem compromissos em detrimento dos interesses do povo.
Sua organização denunciou as intervenções externas no Sudão, certo?
Kuku Niemat : O PCS elaborou um documento sobre a soberania nacional durante a revolução, em dezembro de 2020, e alertou o movimento para os perigos das violações da soberania do Sudão. A ingerência mais direta é a do Egito. Nesse país, o exército usurpou a revolução e tentou fazer o mesmo no Sudão através dos serviços de informação do exército egípcio, que intervieram diretamente durante a revolução. Os egípcios chegaram mesmo a desempenhar um papel na alteração de um documento constitucional para integrar a associação entre o exército e os civis. Foi ele quem avançou com esta ideia de parceria, à qual o PCS – e outros movimentos – se opôs através de uma declaração amplamente divulgada em abril de 2019.
É importante mencionar também o papel dos Emirados Árabes Unidos (EAU) que, através do seu controlo sobre os portos sudaneses e grandes extensões de terras agrícolas, constituem um apoio para as FSR. Por fim, o terceiro interveniente é o Banco Mundial e o FMI, que exerceram pressão sobre o governo, levando ao abandono das decisões do congresso econômico. O nosso partido é intransigente nesta questão, pois trata-se de defender a necessidade de uma mudança global das estruturas de poder e da soberania nacional do Sudão.
Para terminar, poderia descrever-nos a situação das populações após três anos de guerra?
Kuku Niemat: Os cidadãos sudaneses sofrem a violência de ambas as forças que se enfrentam: por um lado, Burhan e os Irmãos Muçulmanos; por outro, as FSR, que se constituíram como governo em Darfur. Trata-se de uma guerra por procuração organizada pelo capitalismo mundial. Os dois campos são os braços armados encarregados de reprimir a revolta do povo sudanês iniciada em dezembro de 2019.
O sofrimento está ligado à falta de alimentos, aos combates que não poupam os civis, bem como à propagação de doenças devido à falta de higiene. O sofrimento é igualmente intenso nas zonas controladas pelas Forças Armadas do Sudão (SAF). Há 12 milhões de deslocados e 4 milhões de refugiados. A insegurança está por todo o lado.
As SAF são compostas por várias milícias. Tourabi sempre defendeu que não precisava de um exército clássico, mas sim de forças ideológicas islâmicas. O comando do exército tornou-se uma força econômica. Trata-se de uma guerra regional, uma guerra ligada aos recursos de todos os territórios, à água e às múltiplas riquezas materiais.
Adam Sharief: Nosso povo enfrenta grandes perigos de ambos os lados. Há assassinatos, violações; a fome é utilizada como arma de guerra nas zonas controladas pelas SAF; a repressão é muito forte, com o recurso a juízes para eliminar os opositores e os jovens muito ativos durante a revolução, acusados de apoiar as FSR com base em julgamentos arbitrários. Nas regiões de Darfur e do Kordofan, existe uma hegemonia totalitária das FSR. Não há quaisquer direitos; qualquer oposição pode ser acusada de apoiar as SAF. É a lei da selva. Os meios de comunicação falaram de centenas de mortos e de limpeza étnica. Em Nyala, na prisão de Dagrees, os métodos utilizados lembram os de Guantánamo.
Nesta prisão, milhares de sudaneses e prisioneiros de guerra das SAF estão amontoados. Todas as semanas, registam-se dezenas de mortos; a tortura é sistemática, a comida é insuficiente e não há cuidados médicos. As visitas das famílias, bem como as das ONG, incluindo a Cruz Vermelha, são proibidas.
24 de janeiro de 2026

