Um ex-líder do PS e o chefe dos neofascistas disputarão a segunda volta de umas eleições presidenciais que confirmam a viragem de Portugal à direita. A concentração de voto no PS relegou a esquerda para novos mínimos históricos.
O somatório das candidaturas do governo de direita com as dos partidos ultraliberal e a neofascista ultrapassa metade dos votos expressos. Apesar disso, o candidato mais votado foi António José Seguro (31%, 1,7 milhões de votos). Seguro liderou o Partido Socialista entre 2011 e 2014, anos em que o PS, fora do governo, colaborou na aplicação do programa de austeridade sob a troika.
Marques Mendes, apoiado pelo PSD e CDS, os partidos do governo, ficou em quinto lugar (11%), ultrapassado por André Ventura, líder do partido neofascista Chega (23,5%), e também por Cotrim Figueiredo, deputado europeu ultraliberal (16%). Na noite das eleições -e para surpresa de muitos, à esquerda e à direita - o candidato do PSD e o primeiro-ministro, tal como a Iniciativa Liberal, declararam que não darão qualquer orientação de voto na segunda volta, marcada para 8 de fevereiro.
Apesar de favorito nas sondagens iniciais, o militar Gouveia e Melo, antigo chefe da Marinha de Guerra, terminou como quarto classificado, com 12% dos votos. Na noite eleitoral, este outsider sem passado político - que se celebrizou como responsável pelo programa de distribuição de vacinas contra a Covid-19 e que se situa “nem à esquerda, nem à direita” - nada disse sobre a segunda volta.
Apesar da ampla votação nos candidatos da direita radicalizada, o resultado da primeira volta foi recebido pelas pessoas de esquerda com alívio: as últimas sondagens apontavam para um empate técnico entre Seguro, Ventura e Cotrim. Para evitar uma segunda volta entre o ultraliberal e o neofascista, verificou-se uma desesperada concentração de voto no socialista. Foi assim que os candidatos dos três partidos de esquerda - que tinham somado 9% nas legislativas de maio passado - ficaram agora pelos 4,5%. O partido Livre (verdes europeus, 4% nas eleições parlamentares) viu o seu candidato, Jorge Pinto, remetido a 0,7%. O candidato do Partido Comunista (3% nas eleições parlamentares) ficou pelos 1,6%. Quem melhor resistiu foi a candidata do Bloco de Esquerda, Catarina Martins (ex-coordenadora do partido e atual eurodeputada), que conseguiu manter os 2% obtidos pelo Bloco em maio.
Este resultado é devido ao desempenho excecional de Catarina Martins - que tinha saído do ciclo de debates televisivos acima de 5% nas sondagens. Única mulher em onze candidaturas, ela deu voz à questão social e apoio à greve geral de dezembro, concentrando-se nos temas do custo de vida e da especulação imobiliária, bem como na situação internacional, sendo a única candidatura que defendeu abertamente a saída de Portugal da NATO.
Neofascistas na liderança da direita
Em qualquer caso, esta é já uma grande vitória para a extrema-direita: bastou manter a percentagem que obteve nas eleições parlamentares, para alcançar um lugar na segunda volta. Agora, tudo o que conseguir somar contribuirá para que Ventura possa proclamar-se líder do “campo não-socialista”, expressão vulgarizada nas televisões para designar uma direita que, no discurso e na prática do governo, aboliu todas as fronteiras com o neofascismo. O próprio primeiro-ministro promoveu o seu candidato atacando “os extremismos”, de Ventura e de… Seguro! Nesta trumpização geral do discurso da direita, o original tem sempre vantagem sobre as cópias.
Todas as sondagens apontam para uma vantagem folgada de António José Seguro sobre Ventura na segunda volta. A rejeição do neofascista é ainda ampla, incluindo em muitos eleitores da direita. Mas é difícil prever com segurança a resposta dos eleitores a esta equidistância declarada de forma nunca vista pelos partidos da “direita democrática”, tanto a tradicional como a ultraliberal, mesmo que diversos membros do governo e dirigente da IL já se tenham pronunciado a favor do moderado Seguro. Certo é que nesta segunda volta Ventura conseguirá milhares de votos de eleitores da direita que farão pela primeira vez a experiência do voto neofascista. O seu objetivo será superar a percentagem obtida pelo PSD de Luís Montenegro em maio passado e assim tornar-se a mais votada das lideranças da direita e um definitivo candidato a primeiro-ministro. O atual governo minoritário - apoiado no Chega para a aprovação das suas leis e suportado pelo PS na viabilização do Orçamento do Estado - pode sair ainda mais precário desta eleição presidencial.
A esquerda em mínimos históricos
A redução da força eleitoral da esquerda é um convite à reflexão dos militantes sobre a fragmentação deste campo. No plano inclinado dos últimos três anos, o único momento em que a esquerda marcou o debate público para disputar a opinião popular foi o da greve geral de dezembro passado, convocada conjuntamente pela CGTP e pela UGT contra as novas leis laborais que o governo quer impor. O sucesso da greve geral colocou Ventura na defensiva - deixou de acusar a greve de ser obra da extrema-esquerda e passou a oferecer-se para dialogar com as justas razões dos grevistas - e obrigou Seguro a prometer que, caso seja eleito Presidente, vai vetar a nova lei laboral.
Com ou sem crise política no horizonte, a esquerda tem de ensaiar nas resistências sociais os diálogos que lhe permitam evitar a marginalidade política. A greve geral é um sinal sobre o caminho a trilhar: mais protagonismo às lutas e ao terreno extra-partidário, mais empenho nas solidariedades contra a fascistização, mais espaços comuns para compreender em conjunto o tempo que nos tocou viver - estas são condições essenciais para que possa existir, no próximo ciclo eleitoral, uma alternativa unitária que ofereça credibilidade em vez de dispersão.
20 de janeiro de 2026

