Quando, no curso dos acontecimentos humanos, torna-se necessário que um povo dissolva os laços políticos que o uniam a outro e assuma, entre as potências da Terra, o lugar separado e igual a que as leis da natureza e do Deus da natureza lhe conferem, o respeito devido à opinião da humanidade obriga a declarar as causas que o levam à separação”. (Thomas Jefferson, 4 de julho de 1776).
Logo após sua segunda eleição, Trump publicou, em 29 de janeiro de 2025, um decreto intitulado “Comemorar o 250ºaniversário da América”1, e criou uma força-tarefa política no Departamento de Guerra2 para organizar, à margem de todas as comissões compostas por historiadores e historiadoras, um “evento unificador, patriótico e familiar” com o objetivo de celebrar o lugar dos Estados Unidos no mundo entre “as potências da Terra”, lugar “ao qual as leis da natureza e do Deus da natureza lhe conferem o direito”. O grande concerto previsto não acontecerá, pois os principais artistas contatados se recusaram a participar.
Isso porque Trump quer justificar suas intervenções imperialistas atuais e seu discurso sobre os perigos que a América branca corre, valendo-se do imaginário da conquista e da história colonial. Como expõem dois historiadores, “os argumentos e a semântica de Trump exigem uma leitura de longo prazo, livre das questões estratégicas mais imediatas: trata-se de levar a sério, a título de hipótese, a filiação que ele reivindica […] As práticas imperiais dos Estados Unidos […] devem ser consideradas como o cerne de uma identidade, que se expressa novamente hoje de forma impressionante – desestabilizando o mundo e deixando os europeus perplexos”3.
Essa nova forma de imperialismo americano não pretende mais defender a liberdade e a democracia, mas afirma sua vontade de “restaurar a paz pela força para uma nova era de ouro dos Estados Unidos”4, como afirma a Estratégia de Segurança Nacional do Pentágono, publicada em 23 de janeiro de 2026. Esse documento, no qual a palavra democracia não aparece nem uma única vez, mostra que não há mais aliados nem inimigos permanentes — o que importa é apenas a lei do mais forte e os interesses americanos.
Trump quer entrar para a história ao lado dos grandes presidentes que conquistaram ou expandiram territórios. Não é por acaso que seu discurso de posse fez referência ao presidente McKinley, que foi o impulsionador da construção de um império colonial norte-americano no final do século XIX, das Filipinas a Porto Rico e Cuba, assim como a Theodore Roosevelt ou Franklin Delano Roosevelt5. Para avaliar o que está em jogo, é, portanto, imprescindível revisitar a história constitutiva desse país.
Celebração da Independência de 1776… ou da conquista de 1492 ?
Essa celebração da independência de 4 de julho de 1776 é preparada por orações públicas e leituras da Bíblia organizadas com grande pompa, que destacam uma narrativa histórica centrada no cristianismo e na missão civilizadora do Ocidente no continente americano.
Tudo começou bem cedo, sem cerimônia especial, em 23 de março de 2026, com um gesto político que está longe de ser insignificante: a instalação de uma estátua de Cristóvão Colombo perto da Casa Branca. Ela foi construída a partir de fragmentos de uma estátua desmontada e jogada ao mar em Baltimore durante as mobilizações de 2020 do movimento Black Lives Matter. Pois, desde 2020, Cristóvão Colombo não é mais celebrado em todos os lugares como um herói: estados e cidades optaram por retirar suas estátuas do espaço público, por não celebrar mais o Dia de Colombo6 e por substituí-lo por um dia dedicado aos povos indígenas, o Dia dos Indígenas. Para combater essa evolução, um artigo7 do decreto para o 250º aniversário do país visa a “proteger os monumentos americanos contra o vandalismo” e cita especificamente a destruição da fonte comemorativa de Cristóvão Colombo.
A conquista colonial das terras e o extermínio das populações indígenas começaram logo com a chegada dos primeiros colonos à América, mais de um século antes da independência. Convencidos de serem um povo escolhido, os colonos se apropriaram das terras daqueles que viam apenas como selvagens, incapazes de cultivá-las e que, portanto, lhes pertenciam por direito. Nas primeiras colônias, na Nova Inglaterra e na Virgínia, a colonização ocorreu em meio a um banho de sangue8, que se somou às epidemias devastadoras.
Essa conquista exterminadora é comemorada nos Estados Unidos durante o feriado de Ação de Graças, que celebra a primeira colheita dos colonos do Mayflower em 1621. Esse feriado oculta totalmente o genocídio dos povos indígenas americanos e narra um mito sobre britânicos miseráveis, dissidentes religiosos em busca de um lugar para praticar sua religião. Na realidade, esse navio foi fretado por comerciantes londrinos para participar da colonização, em busca de fortuna no “novo mundo”. Não nos esqueçamos jamais de que, embora a maioria desses colonos fosse pobre, esse não era o caso de todos: havia migrantes que chegavam para fazer fortuna e dominar a partir de posições de força econômica na Grã-Bretanha.
Como as 13 colônias se tornaram os atuais EUA?
Como os 2,5 milhões de anglo-saxões brancos (que exploravam 500 mil pessoas escravizadas), que se emanciparam da metrópole britânica em 1776, tornaram-se os líderes da primeira potência mundial em menos de dois séculos? É claro que há a conquista do Oeste, transformada em mito, e o genocídio dos povos indígenas americanos, mas a expansão também ocorreu em detrimento das potências imperialistas europeias presentes no continente americano.
Apesar de serem povoados por imigrantes, os EUA são a primeira nação da história a se libertar da tutela europeia, com uma particularidade: a noção de império é parte integrante de sua criação. O novo país criado não é o objetivo final, mas o ponto de partida para a construção de um império que Thomas Jefferson chama de “império da Liberdade”, um país no qual a expansão territorial é ao mesmo tempo necessária e natural. Por exemplo, já em 1775, os Estados Unidos tentam integrar o Canadá ao seu projeto e iniciam uma guerra de conquista, da qual saem derrotados. Essa expansão contínua ocorrerá por diversos meios.
A compra de territórios
40 % do território atual dos Estados Unidos foram simplesmente comprados de potências estrangeiras. A Louisiana, um território que se estendia de Nova Orleans até a atual fronteira com o Canadá — o que representa 22 % da área dos Estados Unidos —, foi comprada da França em 1803. Em 1867, foi a Rússia que concordou em vender o Alasca, 18,7% da área dos Estados Unidos. A última aquisição foi a das Ilhas Virgens, vendidas pela Dinamarca em 1917.
Mas houve outras tentativas de compra que fracassaram, como a do Texas em 1827, 1829, etc. A Groenlândia também foi alvo de múltiplas tentativas de aquisição, em 1867, em 1910, em 1946, reiteradas na década de 1950 e reavivadas em 2019, até então sem sucesso. A primeira oferta de compra, em 1867, fazia parte de um projeto global que visava integrar aos Estados Unidos toda a parte norte do continente. Durante a Segunda Guerra Mundial, os EUA tornaram-se a “nação protetora” da Groenlândia e obtiveram o direito de construir bases militares no local: durante a Guerra Fria, a base de Thule seria essencial no Ártico.
O objetivo era, e continua sendo, cercar o alvo principal, o Canadá, por meio da compra do Alasca e da Groenlândia. Trump apenas retoma esse objetivo para tentar entrar para a história ao concretizá-lo. Além dos recursos minerais da ilha, ele a transforma em uma prioridade de segurança nacional. Devido ao aquecimento global, o tráfego no Ártico está em constante aumento, e o Alasca, o Canadá e a Groenlândia ocupam uma posição essencial do ponto de vista estratégico para o controle do tráfego comercial e o controle militar dessas rotas. Para os círculos do movimento MAGA, “a aquisição da Groenlândia marcaria […] a abertura de uma nova fronteira, um renascimento do espírito de conquista e da mentalidade pioneira que marcaram a nação americana no século XIX"9.
Várias reuniões tripartites entre Estados Unidos, Groenlândia e Dinamarca foram realizadas desde janeiro de 2026, durante as quais o governo dos EUA apresentou três exigências10: a possibilidade de estacionar suas tropas por tempo indeterminado (teria até começado a inspecionar locais suscetíveis de abrigar bases americanas), o direito de veto sobre acordos de investimento entre a Groenlândia e países estrangeiros e cooperação para a exploração dos recursos da ilha… O enviado de Trump, que chegou em 17 de maio, é o mesmo que, ao ser nomeado, declarou-se honrado em servir para tornar a Groenlândia parte dos Estados Unidos.
As anexações
Já em 1787, os Estados Unidos adotaram a Portaria do Noroeste, que permite que seus cidadãos que se instalem em um novo território fora de suas fronteiras possam posteriormente incorporá-lo aos EUA. Essa economia predatória será uma das alavancas da expansão territorial. Ela permitirá a anexação do Texas mexicano. Os colonos anglo-saxões americanos que ali se estabeleceram queriam manter a escravidão em suas plantações quando o México a havia abolido, e impôs a libertação de todos os escravos trazidos para o país, incluindo aqueles que fugiam de estados vizinhos, como a Louisiana. Os Estados Unidos tentam comprar o Texas, mas os mexicanos recusam. Os colonos americanos se rebelam e se declaram independentes do México após derrotar o exército mexicano; em seguida, solicitam a incorporação do Texas aos EUA, o que é, evidentemente, aceito com júbilo em 1845, o que, de passagem, conferia uma vantagem aos estados escravistas.
Há também anexações “simples”, como as da Flórida ou das terras conquistadas na frente de colonização contra os povos indígenas no Oeste. Elas são revestidas de motivações como uma missão divina, a expansão da civilização cristã, esse “destino manifesto”, que levará ao genocídio. A violência está no cerne dessa conquista, em todos os seus aspectos, como ilustram as sete land runs (corridas pelas terras) organizadas entre 1889 e 1895, que colocaram à disposição de dezenas de milhares de colonos brancos, em um determinado dia, as terras roubadas dos povos indígenas: as melhores para os primeiros! Por exemplo, em abril de 1889, 10 mil colonos se estabeleceram ao redor da área que hoje é Oklahoma City e criaram, em um único dia, a cidade que se tornaria a capital do estado de Oklahoma.
As guerras de conquista
Em 1812, enquanto o Reino Unido estava em guerra na Europa contra a França napoleônica, os Estados Unidos invadiram as regiões de língua inglesa do Canadá. Essa guerra de conquista, conhecida como “emancipação do Canadá”, durou três anos, mas foi um fracasso relativo. E, embora, em 1846, o Reino Unido tenha cedido três estados — Idaho, Oregon e Washington —, o objetivo principal, o Canadá, permaneceu britânico.
Foi se situando na linha dessa história que Trump declarou sua vontade de ver o Canadá se tornar o 51º estado dos Estados Unidos, utilizando a “força econômica” se necessário. Além das declarações, há encontros do governo dos EUA com um movimento separatista da província canadense de Alberta, que busca obter sua independência. Essa província é a quarta mais populosa do país (cerca de 4 milhões de habitantes) e produz 84% do petróleo canadense.
Ao Sul, a integração do Texas aos Estados Unidos em 1845 levou a uma guerra com o México, em 1846, que este último perdeu rapidamente. Foi um grande sucesso para a construção do império. Em 1848, o México foi obrigado a ceder quase metade de seu território: todas as províncias a oeste do Texas, o Novo México, Utah, o Arizona, Nevada, a Califórnia e parte do Colorado. A isso se soma uma expansão no Pacífico: em 1867, a anexação da ilha deserta de Midway e, em 1897, do Havaí.
Em meio século, por meio de anexações, guerras e aquisições, os Estados Unidos — que começaram com 13 colônias — triplicaram sua área territorial e proclamaram, em 1890, o fim da fronteira de colonização.
O supremacismo branco inerente à conquista
Logo após o fim da Guerra Civil, em 1865, o exército invadiu e controlou os territórios indígenas, massacrando e submetendo as populações à fome. Quinze anos depois, todas as tribos sobreviventes foram confinadas em reservas. Mais de 90% da população indígena, estimada em 850 mil pessoas na chegada de Cristóvão Colombo, pereceu durante a conquista, um verdadeiro genocídio: restavam apenas 50 mil sobreviventes na época do massacre de Wounded Knee, em 1890.
Para povoar e “branquear” esses imensos territórios habitados por indígenas americanos, latinos e descendentes de africanos escravizados, eles organizaram, a partir da década de 1840, uma imigração em massa de populações europeias, que foi crescendo ao longo do século XIX.
Entre 1819 e 1840, chegaram aos EUA 750 mil imigrantes. Entre 1840 e 1860, foram 4 milhões, e até 25 milhões entre 1880 e 1920. A partir de 1921, foram estabelecidas cotas que favoreciam a imigração da Europa Ocidental e do Norte, a fim de manter a hegemonia da população branca protestante diante do aumento da proporção das minorias católicas, judaicas e não brancas. A segregação racial, a doutrina oficial de “separados, mas iguais”, foi institucionalizada nos Estados Unidos no fim da Guerra Civil (com as leis Jim Crow a partir de 1877) e sobreviveu até a luta dos movimentos sociais por direitos civis na década de 196011.
A luta contra os imperialistas europeus é fundamental
O confronto com as potências europeias não é novidade. Esse é o sentido da Doutrina Monroe, tal como foi enunciada em 1823 em uma mensagem ao Congresso:
“Os continentes americanos, de acordo com o estado de liberdade e independência que adquiriram e no qual se mantiveram, não podem mais ser considerados, no futuro, como passíveis de serem colonizados por nenhuma potência europeia. […] Consideraríamos qualquer tentativa da parte delas [das potências aliadas] de estender seu sistema a qualquer parte deste hemisfério como perigosa para nossa tranquilidade e nossa segurança. Quanto às colônias existentes ou dependências das potências europeias, não interferimos nem interferiremos em seus assuntos. Mas, no que diz respeito aos governos que declararam sua independência, que a mantiveram e cuja independência reconhecemos, após séria análise e com base em princípios justos, não poderíamos considerar a intervenção de qualquer potência europeia com o objetivo de oprimi-los ou de contrariar de alguma forma seu destino, senão como manifestação de uma atitude hostil em relação aos Estados Unidos”12.
Era uma época em que as potências europeias iniciavam suas conquistas coloniais na África e na Ásia e os credores europeus ameaçavam intervir para cobrar suas dívidas na América Latina, os Estados Unidos afirmavam, assim, sua hegemonia sobre tudo o que se encontra ao sul de seu território, desta vez sem conquista territorial. Isso se concretizará por meio do apoio a ditaduras militares, a diversos caudilhos e, se necessário, por meio de dezenas de intervenções armadas na Venezuela, na República Dominicana, na Colômbia, na Guatemala, em Cuba, na Nicarágua, em Honduras e no Haiti…
Da Doutrina Monroe ao Corolário de Roosevelt
Quando os EUA adquiriram um poder que lhes permitiu construir um aparato militar e estabelecer bases fora do continente americano, eles propuseram outra teoria imperial, menos conhecida: o “corolário de Roosevelt”, enunciado em uma mensagem ao Congresso em 1904. Naquela época, os Estados Unidos se expandiram para fora do continente americano. Eles anexaram o Havaí em 1898, onde instalaram a base naval de Pearl Harbor. Venceram uma guerra contra a Espanha, o que lhes permitiu anexar Porto Rico e ocupar Cuba e as Filipinas, países nos quais conduziram uma política colonialista “clássica”13.
Roosevelt vai além de Monroe, estendendo o “direito” dos EUA de intervir além do continente americano “enquanto não for desenvolvido um método que permita exercer certo controle internacional sobre as nações infratoras”14. Os Estados Unidos, portanto, arrogam-se o direito de decidir se uma nação faz “bom uso” de sua independência e em que condições podem exercer um direito de polícia internacional: “Condutas repreensíveis crônicas, ou uma impotência que leve a um afrouxamento geral dos laços da sociedade civilizada, podem, na América como em qualquer outro lugar, exigir, em última instância, a intervenção de uma nação civilizada. No hemisfério ocidental, a adesão dos Estados Unidos à doutrina de Monroe pode obrigá-los, mesmo que com relutância, em casos flagrantes de condutas repreensíveis ou de impotência, a exercer um poder de polícia internacional”15.
A estratégia de segurança americana: uma nova era imperial
Os atuais defensores do MAGA situam-se nessa linha imperial, racista e conquistadora do século XIX, das doutrinas de Monroe e Roosevelt, às quais fazem referência constantemente. O plano da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos16, publicado em 6 de dezembro de 2025 e apresentado como um “corolário de Trump à doutrina Monroe”, é esclarecedor.
Ele reafirma a importância de permanecer como o país mais forte economicamente e militarmente e de “restaurar e revitalizar a saúde espiritual e cultural dos Estados Unidos”, uma América “que aspira a uma nova era de ouro”. O objetivo central é que ela “continue sendo a maior e mais próspera nação da História […] mais segura, mais rica, mais livre, maior e mais poderosa do que nunca”. Para isso, é preciso acabar com as “estratégias americanas desde o fim da Guerra Fria”: é preciso deixar de “assumir indefinidamente responsabilidades globais […] de apostar no globalismo e no chamado ‘livre-comércio’ [que] vincularam a política americana a uma rede de instituições internacionais, algumas das quais movidas por um antiamericanismo puro e simples e muitas por um transnacionalismo que busca explicitamente dissolver a soberania dos Estados individuais”. Isso significa a sentença de morte das instituições internacionais surgidas da Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos estão se dotando dos meios para conter a potência emergente que é a China, com todos os recursos possíveis, sem qualquer restrição.
A China, às vezes chamada de “o outro hemisfério”, é o adversário designado. Os Estados Unidos “não podem permitir que nenhuma outra nação se torne tão dominante a ponto de ameaçar nossos interesses […] Trabalharemos com nossos aliados e parceiros para manter o equilíbrio de poderes em nível global e regional, a fim de impedir o surgimento de adversários dominantes. Assim como os Estados Unidos rejeitam o conceito nefasto de dominação mundial para si mesmos, devemos impedir a dominação mundial — e, em alguns casos, até mesmo regional — por parte de outros países”.
Trata-se de muito mais do que a dominação dos EUA sobre a América Latina; trata-se de pôr fim às incursões de atores estrangeiros na economia americana, mantendo ao tempo as cadeias de abastecimento “seguras e confiáveis, bem como o acesso a materiais essenciais”.
Os Estados Unidos não querem mais sustentar sozinhos a ordem mundial e, por isso, não darão “a mesma atenção a todas as regiões”, com um reajuste de sua presença militar de acordo com suas prioridades. Duas regiões são excluídas. O Oriente Médio, onde mantêm uma presença militar colonialista fortemente armada — uma espécie de gigantesco porta-aviões norte-americano que impõe a ordem imperial na região —, e Israel. Basta “que o Estreito de Hormuz permaneça aberto, […] que o Mar Vermelho permaneça navegável, […] que a região não seja um viveiro ou um exportador de terrorismo […], e que Israel permaneça seguro”. E, por outro lado, a África, na qual basta associar-se a “Estados competentes e confiáveis”.
No chamado “hemisfério ocidental” (as Américas mais Groenlândia), os EUA devem “ocupar uma posição proeminente” e ampliar sua rede, dissuadindo seus membros “por diversos meios de colaborar com outros”. A Europa, que continua sendo “estratégica e culturalmente vital para os Estados Unidos […], um dos pilares da economia mundial”, deve, portanto, ser subjugada, ao mesmo tempo em que financia sua própria defesa. Ela deve se adaptar politicamente à visão de mundo dos atuais EUA para evitar um “apagamento civilizacional” (com alguns países se tornando, a longo prazo, “majoritariamente não europeus”) e alinhar-se às “nações saudáveis”.
Há duas obsessões presentes: a imigração em massa e a rejeição das “ideologias desastrosas da ‘mudança climática’ e da ‘emissão líquida zero’, que tanto prejudicaram a Europa, ameaçam os Estados Unidos e subsidiam nossos adversários”.
No que diz respeito à Rússia, praticamente ausente do documento, uma ideia prevalece: a de rejeitar “a OTAN como uma aliança em expansão perpétua”. Tanto os Estados Unidos quanto a Rússia têm interesse na destruição de qualquer coordenação entre as potências europeias e na destruição de seu modelo democrático. Os primeiros para poder subjugá-las mais facilmente, uma a uma; a segunda para recuperar parte da zona de influência da URSS. Enquanto a Rússia de Putin se limitar a essa perspectiva, ela não é vista pelos EUA como uma concorrente nem como uma ameaça. É isso que explica fundamentalmente a atitude dos EUA diante da agressão imperialista russa contra a Ucrânia.
Por fim, o espaço indo-pacífico, que representa quase metade do PIB mundial, “já é e continuará sendo um dos principais campos de confronto econômico e geopolítico do século que se inicia”. O documento analisa os avanços chineses, sem mencionar explicitamente o grande programa das Rotas da Seda, cujo objetivo é garantir a circulação de mercadorias fora das rotas totalmente controladas pelos Estados Unidos. Ele insiste apenas na necessidade de “reequilibrar as relações comerciais mundiais”.
É nessa parte que se ouve o barulho das botas, a necessidade de “construir um exército capaz de repelir qualquer agressão”, o que é, de fato, a maneira habitual dos dominantes de expressar sua vontade de ofensiva. A questão de Taiwan, devido ao seu domínio “na produção de semicondutores”, mas também porque ela “divide o Nordeste e o Sudeste Asiático em dois teatros distintos. Considerando que um terço do tráfego marítimo mundial passa anualmente pelo Mar da China Meridional, isso tem implicações significativas para a economia americana”. A mensagem é muito clara: não se toque em Taiwan, nossos interesses estratégicos estão em jogo.
“Se a doutrina está na base de uma concepção singular do espaço, em ruptura com a ordem europeia, é porque no hemisfério ocidental não há delimitações precisas. A doutrina pode, assim, ser vista como um processo de desespacialização da soberania, já que esta não está mais vinculada a um território estatal soberano dentro de suas fronteiras. São agora “os direitos e interesses” dos Estados Unidos que delimitam o espaço de suas prerrogativas”17. Essa ideologia conquistadora visa à construção de um espaço, denominado hemisfério ocidental, no qual o capital e as forças armadas dos Estados Unidos dispõem de acesso seguro e incondicional aos recursos e mercados necessários ao seu fortalecimento.
Ela se apoia em três pilares. Uma política interna de supremacia branca de reconquista por meio da expulsão em massa de imigrantes. Uma marginalização da Europa. A apropriação de novas terras, recursos e riquezas para se tornar o mais forte no confronto com a China, revivendo a versão expansionista do espírito da “fronteira” para retomar o mito fundador dos Estados Unidos. O império americano em crise torna-se ainda mais perigoso em sua vontade de agir rapidamente para reconstituir seu poder diante da China por meio da expropriação e da dominação.

Como combater essa ofensiva imperial?
Estamos no início dessa nova ofensiva imperial dos Estados Unidos. Para que ela avance, é necessário, do ponto de vista dos Estados Unidos, que a ordem mundial estabelecida em 1945 seja abolida, que se retorne à era dos impérios, das conquistas, da lei do mais forte sem qualquer disfarce, em relação a todos. As formas que ela assumirá dependerão tanto das reações dos outros impérios envolvidos — e principalmente da China — quanto das reações populares, sobretudo no próprio território dos Estados Unidos.
Devemos lutar, denunciar e mobilizar-nos contra todas essas manobras imperialistas dos Estados Unidos, que buscam dominar e subjugar todo o hemisfério ocidental, e reabrir uma era de impérios em escala mundial. O desafio é conseguir que exista um vasto movimento popular das massas exploradas e oprimidas contra todas as agressões imperialistas, de onde quer que venham — seja dos Estados Unidos, da Rússia, de Israel ou da China. Nesse grande confronto que se configura, temos apenas uma bússola: o direito dos povos à autodeterminação, mantendo-nos independentes dos governos burgueses dos diferentes países. ■
5 de junho de 2026
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Desde setembro de 2025, ele não se chama mais Departamento de Defesa, tendo retomado o nome que tinha entre 1789 e 1949.
- 3
“Trump e a guerra colonial sem fim dos Estados Unidos”, Farid Abdelouahab, Pascal Blanchard e Pierre Haski, 26 de janeiro de 2026, Le Grand Continent.
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- 5
“Trump e a guerra colonial sem fim dos Estados Unidos”, op. cit.
- 6
Feriado desde 1937.
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Seção 4.
- 8
Philippe Jacquin, A terra dos peles-vermelhas, Ed. Gallimard, 1987, p. 35.
- 9
Cf. Courrier international, edição especial, *A nova era dos impérios*, p. 26, citando o artigo “Por que a Groenlândia desperta a imaginação do Vale do Silício”, extraído do Politico.
- 10
- 11
Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, no exército, os bancos de sangue eram separados entre brancos e negros, assim como os hospitais, o pessoal médico, os quartéis e as instalações de lazer.
- 12
- 13
- 14
Ibid.
- 15
Idem.
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- 17

