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Movimentos de oposição a Trump estão se unindo

por Kay Mann
New York, october 2025. Photo Rhodendrits. Photo CC BY-SA 4.0
Protestos de 28 de março alcançaram 3 mil cidades dos EUA. Primeiro de Maior é o próxima data de ações em todo o país

As manifestações No Kings, realizadas em 28 de março e os preparativos ambiciosos para as mobilizações de 1º de maio mostram a crescente convergência das forças que se opõem a Trump. A convergência em certa medida responde aos ataques de Trump contra os direitos democráticos nos Estados Unidos e contra a soberania de países estrangeiros – sendo o exemplo mais recente sua agressão irresponsável contra o Irã – e se dá no contexto da acentuada queda de popularidade do governo.

Três polos de resistência popular e operária surgiram desde que Trump foi eleito para um segundo mandato. O primeiro gira em torno do Indivisible (Indivisível), o coletivo predominantemente formado por ONGs, que organizou as duas primeiras manifestações No Kings em 2025 e convocou as manifestações para 28 de março passado. Quase 25 milhões de pessoas saíram às ruas em todo o país durante as últimas manifestações – que expressam a rejeição a Trump em várias frentes. Comprovam essa rejeição s desfiles e as faixas em defesa dos imigrantes, em solidariedade à Palestina (embora o Indivisible, em suas declarações oficiais, não tenha mencionado nem Gaza nem a Palestina), em defesa das comunidades LGBTQIA+, contra a destruição do meio ambiente e, claro, de maneira geral, em oposição ao autoritarismo de Trump.

O segundo polo de resistência a Trump é o movimento contra o ICE, a polícia de imigração. A resistência das redes anti-ICE de Minneapolis, diante da chegada de mais de 3 mil agentes da migra (como o ICE é chamado pelos latinos), impressionou os antifascistas e anti-autoritários em todo o mundo. O assassinato de Renee Good, ativista em apoio aos imigrantes e cidadã americana, por agentes do ICE em Minneapolis, não muito longe do local onde George Floyd havia sido morto por um policial em 2020, seguido, alguns dias depois, pelo assassinato de Alex Pretti, também cidadão americano e branco, desencadeou um vasto movimento de contestação que abalou a situação política americana.

Essas manifestações de massa e as redes que nelas participam constituem um novo movimento social de massa, dotado de todas as características de movimento social. A primeira é a sua amplitude. Se as manifestações de rua reuniram milhares de pessoas, a participação nas redes de solidariedade também foi muito forte. Entre 25% e 50% da população de Minneapolis e de St. Paul (cidade vizinha a Minneapolis) participou das mobilizações e das redes de ajuda mútua, uma proporção excepcional.

Movimento anti-ICE inova na luta

A criação de novas organizações também é típica de um movimento social. O movimento anti-ICE desenvolveu novas organizações e integrou organizações e redes militantes pré-existentes, notadamente associações de bairro e redes criadas durante a mobilização que se seguiu ao assassinato de George Floyd em 2020. Além das próprias redes, nasceram alianças entre grupos anti-ICE novos e antigos, como em Chicago, onde foi fundada uma coalizão reunindo cerca de cem organizações em toda a cidade, a Coalizão pelos Direitos de Imigrantes e Refugiados. Esses grupos coordenaram-se com os ativistas anti-ICE de Minneapolis. Em alguns casos, isso foi possível graças a laços pré-existentes estabelecidos pelos sindicatos.

O movimento anti-ICE está presente não apenas em Minneapolis e em cidades como Los Angeles e Chicago, locais “invadidos” por amplas tropas do ICE, mas também em cidades menores, como Milwaukee, que até o momento não tinham visto grande quantidade de agentes, mas onde um movimento anti-ICE está se desenvolvendo em preparação para tal eventualidade.

As ações concretas do movimento

Esse movimento demonstrou um nível impressionante de organização e soube fazer uso de métodos tradicionais dos movimentos sociais, como manifestações e boicotes, bem como de variantes originais dessas táticas. Nos bairros, redes de reação rápida criaram grupos no aplicativo de mensagens Signal, para conectar os ativistas (muitos dos quais se engajaram pela primeira vez) e organizar a defesa coletiva por meio de diversos mecanismos de defesa e de ajuda para os imigrantes escaparem das patrulhas, como a sinalização por apitos nos bairros, e como a entrega de refeições aos escondidos.

Quando o ICE é avistado em algum lugar, isto é sinalizado nos grupos do Signal e os ativistas correm para o local para ajudar e filmar suas atividades. Os números das placas dos veículos do ICE são divulgados e os ativistas seguem com seus carros os deslocamentos dos agentes. A maneira como os ativistas se organizam para seguir de carro os veículos do ICE lembra os piquetes móveis montados durante a greve nacional do setor têxtil de 1934 e durante a famosa greve dos caminhoneiros de Minneapolis do mesmo ano.

Está se organizando um boicote contra a locadora Enterprise e contra os hotéis Hilton, que alugaram veículos para o ICE e hospedaram seus agentes. Trata-se de adaptações dos métodos utilizados desde a década de 1980 para pressionar as empresas de forma indireta, visando seus clientes. Em todo o país, alunos do ensino médio e universitários se recusaram a ir às aulas para protestar contra as batidas do ICE, e novas mobilizações estão previstas para o dia 1º de maio.

Inúmeros sindicatos, entre os mais importantes do país, como o Sindicato Internacional dos Empregados dos Serviços (SEIU), o United Auto Workers (UAW), do setor automobilístico, e sindicatos de professores locais e nacionais, incluindo a Federação Americana de Professores (AFT) e a Associação Nacional da Educação (NEA), bem como a própria federação AFL-CIO, expressaram sua oposição ao ICE. Em Minneapolis, esses sindicatos e outros apoiaram as manifestações de 23 e 30 de janeiro.

May Day Strong

O terceiro polo de resistência é o May Day Strong (MDS, Primeiro de Maior forte, em versão livre), que reúne sindicatos de esquerda e seções sindicais, como o sindicato dos professores de Chicago (CTU) e seções combativas do SEIU em Minneapolis. O MDS está empenhado na preparação de um dia de ação no dia 1º de maio que seria marcado por uma greve geral, uma greve estudantil e uma greve de consumo. Três mil pessoas participaram de uma videoconferência organizada recentemente pelo MDS para discutir as ações do 1º de maio, incluindo greves, a não frequência às aulas e o boicote econômico.

A mobilização de 1º de maio deste ano não será uma greve clássica com paralisações convocadas pelos sindicatos, devido às leis que proíbem greves políticas e aos acordos coletivos nos quais os sindicatos renunciam ao direito de greve. Mas a agitação em favor de uma greve geral estimulará o debate em torno da questão da mobilização nos locais de trabalho, das greves em massa e da necessidade de se opor às leis que restringem a ação sindical. É possível que as ações do 1º de maio se assemelhem às de 2006, durante o “Dia sem Latinos”, que contou com manifestações em massa em cidades como Los Angeles e Milwaukee – locais em que vive uma importante população de origem mexicana e latina –, bem como greves de fato realizadas quando muitos trabalhadores se dão licença médica ou simplesmente não comparecem ao trabalho para manifestar-se.

A extrema esquerda americana e o movimento anti-Trump

Além das atividades locais contra o ICE em Minneapolis e em outros lugares, e das manifestações No Kings, as organizações de extrema esquerda organizaram manifestações em oposição às agressões do governo Trump contra a Venezuela e contra o Irã, bem como em solidariedade ao movimento anti-ICE. A organização dessas manifestações foi dominada por organizações de orientação campista, como o Party of Socialism and Liberation (PSL, Partido Socialismo e Libertação) e a Freedom Road Socialist Organization (OFRSO, Organização Socialista Caminho Livre). Outros grupos também participaram, incluindo a organização socialista revolucionária Solidarity.

Até agora, a organização mais importante da esquerda americana, o Democratic Socialists of America (DSA), tem se dedicado mais à intervenção eleitoral do que às manifestações contra a guerra e à contestação de massa em geral. Mas as coisas estão mudando. Algumas seções do DSA participaram de ações relacionadas à Venezuela e ao ICE, e parece que a DSA vai se envolver na oposição à guerra que Trump está conduzindo no Oriente Médio.

Perspectivas de unificação do movimento contra Trump

O atual clima social e político no país criou um espaço imenso para a resistência. Nem a campanha contra os imigrantes nem a guerra contra o Irã vão fazer desaparecer o caso Epstein ou fazer com que as classes populares esqueçam o custo de vida, que vai aumentar ainda mais com a alta do preço do petróleo provocada pela guerra que afeta todo o Oriente Médio. Ao contrário da operação realizada na Venezuela, a guerra contra o Irã promete ser longa. As pesquisas já mostram que a agressão americana é fortemente rejeitada. A guerra também vai ampliar o descontentamento com Trump entre seus apoiadores do MAGA (o movimento Make America Great Again) e entre políticos republicanos a quem ele havia prometido pôr fim às aventuras militares do tipo da guerra no Iraque.

O movimento contra o ICE em Minneapolis e em todo o país se enraizou profundamente nos bairros populares. Esses episódios recentes deixarão uma marca indelével na consciência de milhões de pessoas, e muitas se tornarão receptivas a análises e programas radicais nos planos social e político. O fato de a população imigrante latina nos Estados Unidos fazer parte, em sua grande maioria, das classes populares, assalariadas, torna possível uma evolução da consciência das massas. Partindo da simples defesa de seus vizinhos (que é a perspectiva atual de muitos dos participantes do movimento anti-ICE) é possível avançar em direção a uma oposição a Trump com base em uma perspectiva de classe mais clara. Os anticapitalistas e os sindicalistas de luta devem destacar a natureza de classe dos ataques de Trump e a composição popular e operária das comunidades imigrantes que sofrem sua ofensiva.

Unificar os diferentes componentes da coalizão de massas No Kings, que refletem a resistência global e setorial a Trump, com o movimento anti-ICE, e dotá-los de uma direção democrática e operária independente do Partido Democrata, seria um grande avanço para o movimento contra Trump. Mas existem desafios. A Indivisible é uma organização verticalizada, na qual as decisões são tomadas pelas ONGs e não de forma democrática pelo movimento. E seus dirigentes manifestam abertamente suas simpatias pelo Partido Democrata e sua intenção de usar as manifestações para apoiar eleitoralmente os democratas.

O May Day Strong talvez pudesse desempenhar o papel de elo entre as manifestações No Kings, com seus diversos elementos de esquerda, e o movimento anti-ICE, para constituir um amplo movimento contra Trump, no qual as classes populares e sindicatos possam assumir seu lugar na direção. Os organizadores das manifestações de 28 de março conceberam sua ação como uma etapa rumo ao 1º de maio, o que contribui para essa unidade. Mas, depois do 1º de maio, haverá um grande esforço por parte do Indivisible para orientar o movimento no sentido de apoiar o Partido Democrata nas eleições de meio de mandato, em novembro, o que teria um efeito desmobilizador sobre o movimento.

O potencial das três vertentes da resistência a Trump reside em seu caráter de massa, no uso de táticas tradicionais e novas do repertório de protestos, em seu profundo enraizamento nas classes populares e nas comunidades oprimidas dos Estados Unidos, e em sua independência em relação ao Partido Democrata. E, tendo em vista o que está em jogo nas eleições de meio de mandato do próximo mês de novembro, a preservação da independência do movimento será uma tarefa particularmente importante.

4 de março de 2026