As ações organizadas pelo May Day Strong (MDS, 1º de maio forte), coalizão estadunidense de sindicatos de esquerda, ocorreram em todo o país, sob o lema “Sem trabalho, sem escola, sem compras”, para se opor à política nacional e internacional de Trump.
O MDS é uma coalizão de sindicatos de esquerda, como o Sindicato dos Professores de Chicago (CTU), e de seções locais em Minneapolis, na Califórnia, e em outros estados dos EUA. Cerca de 5 mil manifestações distintas ocorreram em todo o país. Embora a magnitude das ações tenha sido decepcionante, a dinâmica em torno dos protestos 1º. de maio dá sinais encorajadores para o desenvolvimento da esquerda sindical americana e de um movimento anti-Trump independente, liderado pela classe trabalhadora.
Uma preparação significativa
Ao longo do último ano, surgiram três polos de resistência a Trump. O primeiro é composto pelas manifestações “No Kings!”, em particular pelas três maiores, a última das quais ocorreu em 28 de março. “No Kings!” é uma organização hierárquica liderada por dirigentes de ONGs com laços estreitos com o Partido Democrata. O segundo polo foi forjado pelas mobilizações heroicas, pela base, contra o ICE, especialmente em Minneapolis, Minnesota. O terceiro polo é a coalizão “May Day Strong”, liderada pelos sindicatos.
Um entusiasmo considerável reinava nos círculos militantes durante os meses que antecederam o 1º.. maio de 2026. As reuniões preparatórias online atraíram até três mil participantes, incluindo dirigentes de alto escalão de grandes sindicatos de professores pouco conhecidos por seu ativismo, como Randi Weingarten, da American Federation of Teachers, que tem 1,8 milhão de membros. O outro grande sindicato de professores, a National Education Association (NEA), que conta com quase três milhões de membros, também faz parte do MDS. Alunos do ensino médio do movimento Sunrise participaram dos preparativos para as greves do May Day. Também ocorreram ações de boicote a empresas, como a locadora de veículos Enterprise e os hotéis Hilton, que alugaram veículos e hospedaram agentes do ICE.
A amplitude das ações não atendeu às expectativas dos organizadores. As manifestações de rua foram bem menos intensas do que as de “No Kings!”, mas pelo menos tão importantes quanto a maioria das manifestações de1ºde maio dos últimos anos. 10 mil pessoas marcharam em Nova York no 1º. de maio, contra 50 mil na manifestação “No Kings!” de 28 de março. Cerca de duas mil pessoas se reuniram em Milwaukee, enquanto dezenas de milhares de pessoas haviam participado da marcha “No Kings!”.
Tendências encorajadoras
As ações foram de pequena escala e, embora muitos sindicatos as tenham apoiado, poucos mobilizaram seus membros ou convocaram greve. Isso poderia ser interpretado como um fracasso da classe trabalhadora e de suas organizações em assumir a liderança do movimento anti-Trump representado pelos movimentos “No Kings!” e “Anti-ICE”. Mas um exame mais atento da dinâmica global das mobilizações de 1º. de maio, do MDS e da história da ação política sindical nos Estados Unidos revela dinâmicas promissoras para o desenvolvimento de uma resposta militante em massa por parte dos trabalhadores e trabalhadoras diante do ataque ultrarreacionário de Trump contra os imigrantes, as pessoas LGBTQI+, o meio ambiente, os direitos democráticos e as agressões militares imperialistas dos EUA, cada vez mais numerosas.
A coalizão formulou três reivindicações: 1) Tributar os ricos: nossas famílias vêm antes de suas fortunas. 2) Não ao ICE. Não à guerra. Não a um exército privado a serviço do poder autoritário. 3) Desenvolver a democracia, não o poder das empresas. Não mexam no nosso voto.
São reivindicações decorrentes da luta de classes, que colocam em primeiro plano a oposição ao ICE e, consequentemente, a defesa dos imigrantes e dos direitos democráticos, num momento em que ambos estão gravemente ameaçados. As manifestações de rua do 1º. de maio, embora muito mais modestas do que as de “No Kings!”, revelavam a mesma ampla frente de organizações e reivindicações: faixas contra o ICE, cartazes pela Palestina, faixas antifascistas e em defesa dos direitos democráticos. Havia também sindicalistas do Service Employees International Union (SEIU) e de vários sindicatos de professores, além de um sindicato de trabalhadores da construção civil, tradicionalmente conservador, marchando à frente do desfile em Nova York. Grupos socialistas como o DSA, o Partido do Socialismo e da Libertação (PSL), a Freedom Road Socialist Organization (FRSO), o Solidarity e o Socialist Alternative também estiveram presentes nos comícios.
É significativo que a manifestação em Minneapolis, uma cidade de 370 mil habitantes (500 mil a 600 mil se incluirmos sua “cidade gêmea » St. Paul), que se tornou o centro da resistência contra o ICE no inverno passado, tenha reunido 10 mil manifestantes – um número semelhante ao da manifestação de Nova York, uma cidade de oito milhões de habitantes. Isso mostra que o movimento anti-ICE criou uma dinâmica geral de mobilização que se insere no movimento de oposição geral a Trump.
Greves de professores e paralisações de alunos
Embora não tenha havido greves em massa nos locais de trabalho, em Nova York pelo menos vinte distritos escolares (1) cancelaram as aulas depois que seus professores anunciaram que não estariam disponíveis, pois participariam da marcha de 1º.de maio Foi o “Kids Over Corporations” (Crianças antes das empresas).
Em Wisconsin, depois que 70% dos professores de Madison e Milwaukee declararem sua intenção de tirar um dia de folga, a administração escolar cancelou as aulas. Mesmo na Carolina do Norte, um estado conservador e hostil aos sindicatos, o Conselho de Educação de Charlotte, a maior cidade do estado, votou pelo fechamento das escolas devido ao número de faltas previsto. O sindicato dos professores da Carolina do Norte mobilizou funcionários de todo o estado em uma manifestação em frente ao Parlamento, exigindo um aumento dos impostos sobre as empresas para obter mais financiamento para as escolas.
Os professores de Chicago e seu sindicato, o Chicago Teachers Union (CTU), convenceram o distrito escolar a tornar o 1º. de maio um dia oficial de educação cívica, organizando excursões escolares para que os alunos se informassem sobre os direitos civis, o que resultou, de fato, em uma greve dos alunos, professores e funcionários. Tratou-se de uma ação de grande valor para a população de Chicago, composta majoritariamente pela classe trabalhadora e por minorias étnicas, e de particular importância no contexto da decisão da Suprema Corte de esvaziar de conteúdo a lei do direito ao voto de 1965, que visava garantir a representação política dos negros e negras.
1º. de Maio e Dia do Trabalho
Até recentemente, manifestações de 1º. de maio eram organizadas e lideradas principalmente por grupos socialistas de extrema esquerda, com pouco ou nenhum apoio sindical. Embora o dia, que é um feriado internacional da classe trabalhadora, tenha suas raízes no caso Haymarket de Chicago, em 1886, e na luta pela jornada de oito horas, os sindicatos americanos tradicionalmente comemoram o “Dia do Trabalho” no final do verão, um feriado oficial que serve para despolitizar a celebração da classe trabalhadora. De fato, na década de 1950, o presidente Dwight Eisenhower promulgou um decreto declarando oficialmente o dia 1º. de maio o “dia da lealdade”, decreto que Trump reiterou durante seu primeiro mandato. Assim, a apropriação do 1º. de maio pelos sindicatos como dia de protesto político é um fenômeno relativamente recente, e muitos sindicatos e setores da classe trabalhadora ainda não o adotaram como um feriado da classe trabalhadora dedicado a isso.
Propaganda a favor das greves em massa
Os slogans da manifestação – “Sem trabalho, sem escola, sem compras” – eram inovadores, com o objetivo de transmitir uma mensagem ampla e poderosa de mobilização e resistência. Uma participação maciça na vertente “sem trabalho” – essencialmente um apelo a greves em massa, por vezes percebido como um apelo à greve geral – era improvável, tendo em conta o estágio atual da luta de classes nos Estados Unidos e os obstáculos estruturais. Entre estes, estão os acordos coletivos que proíbem greves e a reacionária Lei Taft-Hartley de 1947, que proíbe greves de solidariedade ou de apoio. Mas o slogan “Sem trabalho” permite popularizar a ideia da greve entre uma ampla camada da classe trabalhadora, sindicalizada ou não.
Isso ajudará a amplificar o apelo feito por Sean Fain, presidente do United Auto Workers (UAW), a favor de uma greve geral em 2028 para exigir um sistema nacional de saúde (embora Fain não tenha feito nada por essa greve…). No entanto, em algumas regiões, muitos trabalhadores entraram em licença médica ou simplesmente não trabalharam, mas essas ações não foram coordenadas pelos sindicatos. A vertente “Sem aula” deu origem a paralisações estudantis em todo o país. Os preparativos, a batalha pública e a própria mobilização fortalecem a esquerda sindical.
A coalizão MDS abrange outros setores sindicais, como as redes ligadas ao boletim informativo e às conferências semestrais Labor Notes. O papel de destaque desempenhado pelo sindicato dos professores, e pelo Chicago Teachers Union em particular, é resultado, por um lado, do trabalho militante de sua direção e de seus membros e, por outro, dos laços que se estabeleceram entre o sindicalismo militante e a defesa dos alunos e das famílias imigrantes ameaçadas pelo terror do ICE. Isso o coloca na vanguarda da ala militante do movimento sindical e do movimento anti-Trump em geral.
As ações do 1º. de maio nos Estados Unidos podem muito bem ser as últimas manifestações de massa nacionais por vários meses: os desafios das eleições de meio de mandato em novembro próximo são consideráveis e grande parte das energias militantes certamente se voltará para a campanha eleitoral em favor dos candidatos do Partido Democrata. Mas o trabalho de base realizado nos últimos meses em termos de organização e propaganda, bem como o desenvolvimento de novas redes e organizações, são um bom presságio para o desenvolvimento de um movimento anti-Trump radical liderado pela classe trabalhadora e para o crescimento de uma esquerda sindical militante nos Estados Unidos.
1) Estrutura local e autônoma responsável pela gestão da Educação Pública. Existem cerca de 14.000 no país, 32 em Nova York.

