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Um plano “de paz” para continuar o genocídio em Gaza

por Samar Nasser
Escola infantil destruída pelos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza
Escola infantil destruída pelos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza
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O «Conselho de Paz em Gaza» de Trump está sendo implementado para dar continuidade ao genocídio do povo palestiniano, cujo destino depende, mais do que nunca, de uma mobilização mundial contra o imperialismo.

Em 19 de fevereiro de 2026, Donald Trump recebeu os representantes dos países que responderam ao seu convite para aderir ao que chamou de “Conselho de Paz em Gaza”, cuja criação foi anunciada durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, em 22 de janeiro. Ele descreveu-o como «o mais prestigiado e mais eminente conselho alguma vez constituído».

O Conselho de Paz é o instrumento do governo estadunidense para a execução de um suposto “plano de paz”. O plano tem vinte pontos aprovado por Trump, aceitos pelo Hamas e por Israel e, posteriormente, ratificado pelas Nações Unidas na sua resolução 2028. O plano prevê a implementação das disposições em três fases: um cessar-fogo de seis semanas, a libertação dos “reféns” israelitas e de um certo número de presos políticos palestinos, seguida de negociações com vistas a um cessar-fogo permanente, e, posteriormente, à retirada de Israel de Gaza. O plano teria conclusão com um processo de reconstrução com a duração de três a cinco anos. E prevê que a administração provisória da Faixa de Gaza seja confiada a três entidades principais: o “Conselho de Paz”, um comitê de tecnocratas palestinos e uma força internacional de estabilização.

Dos 55 países convidados a participar no Conselho, 22 estiveram presentes na reunião, entre os quais as monarquias petrolíferas do Golfo, a Turquia, a Jordânia e Israel. Os países europeus brilharam pela ausência, conscientes do objetivo de Trump e do perigo que este Conselho representa como alternativa às Nações Unidas. O que se desenrolou durante a sessão foi caricatural e revoltante: todos os participantes sabem que o “plano de paz” não tem nada a ver com a paz. Estavam ali ou por medo, ou por complacência para com o presidente da primeira potência mundial. Em particular os países petrolíferos, principais financiadores do plano.

Este plano não incluiu os palestinos, nem nas negociações prévias, nem na composição do conselho. Ignora o direito do povo palestino à autodeterminação, prevê uma ocupação israelita de longo prazo em Gaza e coloca o território sob a tutela de um conselho presidido por Trump, cuja composição se assemelha mais à de um clube privado. De fato, de acordo com a declaração indecente de Trump, os Estados que contribuírem com US$ 1 bilhão obterão o estatuto de membros permanentes do conselho! A sessão terminou com o anúncio, por parte de Trump, da obtenção de US$ 7 bilhões dos países participantes, que serão colocados à disposição do comitê executivo que ele formou. Este último é composto por sete dos seus amigos e membros da sua família, todos investidores imobiliários.

Conselho de guerra e genocídio

Enquanto Trump elogia o seu plano e seu conselho supostamente de paz, Israel prossegue a sua guerra de extermínio contra Gaza, violando o cessar-fogo mais de 1.500 vezes e matando mais de 1.600 pessoas desde outubro de 2025. O Estado de Israel continua a limitar a entrada de ajuda humanitária na Faixa e a abertura da passagem de Rafah. Este posto fronteiriço com o Egito é considerado uma artéria vital pelos habitantes da Faixa de Gaza, mas Israel continua a atrasar a sua abertura, que permitiria evacuar 18 mil feridos e doentes em estado crítico. Sob pressão, Israel aceitou abri-lo, após ter imposto restrições injustas quanto ao número de pessoas autorizadas a sair, limitando-as a 50 doentes por dia, o que significa que seriam necessários seis meses para evacuar todos… se permanecerem vivos. A entrada de ajuda alimentar e médica continua a ser adiada, e o que é autorizado representa menos de 40% das necessidades da Faixa.

Ainda mais perigosa é a guerra oculta que assola a Cisjordânia, onde a população é vítima de inúmeros abusos por parte do ocupante e dos colonos. Desde 7 de outubro, o ocupante matou dezenas de pessoas e deteve centenas de habitantes da Cisjordânia, enquanto os colonos se entregam a todo o tipo de provocações e perseguições. Queimam casas e terras e arrancam árvores, procurando assim provocar os habitantes da Cisjordânia a cometer atos que permitam desencadear uma guerra ainda mais vasta do que o massacre de Gaza. 

Mas, conscientes das consequências de qualquer ato irrefletido, os habitantes da Cisjordânia demonstram sangue-frio para frustrar o plano do ocupante que visa deportá-los. Apesar disso, Israel anexou, sob a designação de “terras do Estado”, 16% das terras da Cisjordânia, com o objetivo de alargar as fronteiras da cidade de Jerusalém através de um projeto de construção de 2 700 novas unidades de colonização. De acordo com os acordos de Oslo, estas terras são consideradas parte da Cisjordânia. Estas medidas constituem um passo no sentido da anexação da Cisjordânia a Israel.

Os verdadeiros objetivos de Trump e do Estado sionista

O ministro das Finanças israelita, Smotrich, não escondeu este objetivo, declarando, em 19 de fevereiro, que Israel tem a intenção de anular os acordos de Oslo, incentivar a imigração a longo prazo, colonizar Gaza e expulsar todos os palestinos da Palestina. Este plano, agora público, explica a continuação dos bombardeamentos israelitas sobre Gaza e a ausência de Netanyahu no Conselho de Paz. Ele se fez substituir porque não pretende comprometer-se a pôr fim ao seu projeto colonialista e segregacionista, e deseja prosseguir com o extermínio e o deslocamento das populações de Gaza e da Cisjordânia.

O silêncio de Trump e a sua indiferença face à continuada ofensiva de Israel, bem como o incumprimento por parte desta última das disposições do plano, mostram claramente que o plano imperialista está longe de permitir a instauração da paz na Palestina. Trata-se, na realidade, de um plano que visa explorar a situação desastrosa causada pela guerra de extermínio travada por Israel com o apoio incondicional de Trump. O objetivo estadunidense é  concretizar o sonho de Trump de uma Riviera em Gaza, e de pressionar os países produtores de petróleo a financiar seus lucrativos projetos imobiliários, sob o pretexto de reconstruir Gaza – o mesmo território que procurou por todos os meios destruir.

Construir uma resistência internacional

Perante a intransigência israelense e a arrogância dos EUA, é necessário, antes de falar de qualquer plano de paz, pôr fim ao extermínio que visa matar e expulsar os palestinos de Gaza, e denunciar e pôr fim às expropriações cometidas pelos colonos contra os habitantes da Cisjordânia. Estas perseguições inscrevem-se no âmbito do plano explícito de Israel, que consiste em substituir os palestinos por colonos. É igualmente necessário apontar Trump, Netanyahu e a extrema-direita como responsáveis pelo genocídio em Gaza, e impor-lhes medidas de reparação financeira para a reconstrução.

Ao mesmo tempo que afirmamos que nenhum acordo de paz pode ser aceito se não reconhecer o direito do povo palestino à autodeterminação – concretamente, a aplicação efetiva do direito ao regresso e a indenização dos refugiados, bem como a retirada do exército israelense de todos os territórios ocupados desde 1967. Este é o primeiro passo para o desmantelamento do Estado sionista, em benefício da criação de um Estado democrático e laico, numa perspectiva socialista. O Estado laico e democrático instaurará a igualdade total entre judeus e palestinos, quer residam atualmente na Palestina, quer tenham sido deslocados para diferentes países e optem por exercer o seu direito de regresso à sua terra histórica. É necessário pôr fim imediato à colonização, evacuar os colonos e libertar todos os prisioneiros palestinos.

A causa palestina nunca conheceu um período mais sombrio do que aquele que vivemos hoje. A conjuntura exige que se demonstre bom senso, que se compreendam as relações de força que, até agora, não se inclinam a favor dos palestinos, e que nos afastemos dos slogans, das ilusões e das emoções que pretendem poder derrotar o inimigo militarmente: o que precisamos hoje, mais do que nunca, é de uma estratégia de longo prazo que mobilize as massas palestinas e todos os habitantes da região para prosseguir a luta contra o imperialismo e, ao mesmo tempo, contra o sionismo enquanto movimento racista. Precisamos, também, separar um número crescente de judeus israelenses do projeto sionista, com um programa revolucionário democrático que conceda direitos iguais a todos. A nível internacional, é preciso continuar a conquistar o apoio e a denunciar as práticas de Israel perante a opinião pública mundial, em particular junto à juventude e aos judeus antissionistas, para que estes, por sua vez, contribuam para um movimento de luta popular mundial que apoie este processo. 20 de fevereiro de 2026

 (*) Samar Nasser é uma ativista palestina e membro da IV Internacional.