Revista e site sob a responsabilidade do Bureau Executivo da IV Internacional.

A escravidão foi e é essencial ao sistema capitalista

por Anouk Essyad
Trabalhadores e trabalhadoras escravizados no Vale do Paraíba, Brasil, 1885

Em seu mais recente livro - Slavery and capitalism. A new marxist history [Escravidão e capitalismo. Uma nova história marxista] -  o historiador e ativista estadunidense David McNally, membro do comitê editorial da revista Spectre, trata das ligações entre capitalismo, escravidão e racismo (1). McNally aprofunda   debates marxistas de décadas, investiga a natureza essencialmente racista do sistema e extrai lições disso para a ação, como militante.

O livro der McNally parte da pesquisa clássica conduzida pelo historiador Eric Williams (2), que analisou a forma como a escravidão transatlântica contribuiu para a própria fundação do capitalismo como sistema global. Ancorado em uma abordagem de história econômica, Williams demonstrou que a industrialização do Reino Unido foi possível graças à deportação e escravização de milhões de africanos, estabelecendo de forma implacável a natureza colonial e racial dessa primeira acumulação originária do capital (3). “A escravidão fazia parte do cotidiano dos ingleses do século XVIII” (4), escreveu Williams.

David McNally argumenta que o capitalismo é inteiramente moldado por essa relação colonial e escravagista. Os longos processos de transformação das estruturas sociais que desembocaram no sistema capitalista têm como matriz a escravidão transatlântica. “O capitalismo é produzido ou construído por relações coloniais, escravistas e racistas.” A contribuição de seu livro consiste em aprofundar essa análise e extrair suas consequências, como historiador e como militante. (Continua abaixo da ilustração.)

Certa tradição marxista relativiza o impacto desse período escravocrata na forma adquirida pelas relações sociais capitalistas, embora reconheça a importância histórica dessa primeira acumulação de capital. O período escravocrata, para essa corrente, constituiria simplesmente um prelúdio para o estabelecimento do capitalismo. Numa visão muito linear e caricatural de uma sucessão de modos de produção que não poderiam coexistir, a corrente considera que as relações sociais escravocratas seriam pré-capitalistas e não teriam nada a ver com a nossa modernidade capitalista. McNally refuta essas posições de várias maneiras. 

Primeiro, ao analisar o funcionamento das plantations, ele mostra que, nos séculos XVIII e XIX, a organização do trabalho agroindustrial antecipa a organização das fábricas que viriam a existir. O trabalho na escravidão capitalista é milimétrico, cronometrado, otimizado, calculado. MacNally chama a atenção para a “padronização das tarefas [e] a imposição de uma disciplina de tempo” (5). A plantation [NT: um engenho de açúcar do Brasil colonial ou uma fazenda de algodão do Sul estadunidense] gera uma abstração da força de trabalho das pessoas escravizadas. Sabe-se até que ponto essa abstração do trabalho se torna fundamental na análise marxista das relações de exploração e alienação capitalistas (6). As plantations, longe de pertencer a uma época feudal pré-capitalista já ultrapassada, constituem a matriz das relações de exploração modernas.

O segundo argumento diz respeito à classe dos fazendeiros ou donos de engenho. Aquela mesma tradição marxista tendia a considerá-los pertencentes a uma pequena nobreza rural, constituindo assim uma classe aristocrática-feudal nas relações produtivas. McNally mostra que, ao longo dos séculos XVII e XIX, a forma como o poder de classe dos fazendeiros se exerce – a mobilidade do capital, as relações impessoais de dominação – já é a da burguesia moderna, portanto capitalista.

As relações escravistas modernas não constituem um mero prelúdio ao capitalismo. Foi no seio dessas relações sociais escravistas, coloniais e racistas que se engendraram as práticas capitalistas herdadas pelo capitalismo do século XXI. A racialização (divisão de “tarefas” sociais entre grupos humanos, diferenciados por suas origens, etnias) seria, então intrínseca e funcional ao sistema capitalista. Não é possível compreendê-lo de maneira racialmente “neutra”; ele está essencialmente organizado segundo uma estratificação colonial e racial. 

A consequência política estratégica é que não se pode trabalhar pela unificação política de todas as classes populares ignorando essa fratura racial. Assim, devemos considerar toda violência racial como um ataque contra toda a classe trabalhadora e como mecanismo que garante a manutenção e perpetuação do capitalismo. É preciso continuar a construir todas as lutas que visam a abolir, na prática, a violência da “linha de cor” (7).

7 de dezembro de 2025

* Anouk Essyad é doutoranda na Universidade de Friburgo e militante da solidaritéS, organização observadora permanente da IV Internacional na Suíça, e membro do sindicato dos serviços públicos.